Juntamos a turma antiga num almoço de final de ano. Sabe aquela turminha que convivia quase diariamente, que iam para o bar juntos, que sabiam o telefone da casa de cada um decor? Pois é, hoje essa turminha só se encontra em casamento, velório e... almoços de final de ano.
Mas a amizade é a mesma, e a sensação de nem faz tento tempo assim que nos encontramos não é mentira. Os mesmos papos, a mesma afinidade.
Mas sempre tem um que faz questão de dizer que as coisas não são como antes. Dessa vez, quem provocou foi o Japonês.
O Japonês sempre foi o mais sensato da turminha. Sempre de avaliações ponderadas, despido de preconceitos, com muito jeito te põe contra a parede. Muito diplomático, o Japonês.
Está com algum problema? O Japonês te chama para um papo, abre um pacote de salgadinho, cruza as mãos e apóia os cotovelos nas coxas, num a posição intimidadora, porém que demonstra grande interesse no que você vai dizer.
E você diz, esperando um afago, uma palavra de conforto. Mas ele é o Japonês, e vai enfiar o dedo na tua ferida até você ficar com vontade de dar-lhe um murro nos cornos. O que você não vai fazer, porque ele joga com uma sinceridade desconcertante.
Mas como eu estava dizendo, no último almoço de final de ano, o Japonês disse que eu fiquei tiozinho. Tiozinho? Eu?
Argumentei que não havia como eu ser um tiozinho. Apontei alguns tiozinhos no restaurante onde estávamos, daqueles grisalhos, óculos escuros, roupas esporte e muita lábia para cima das pós adolescentes de pernas de fora que confraternizavam no estabelecimento.
Mas ele rebateu me dizendo que aqueles eram tiozões. Eu era tiozinho.
O que será um tiozinho? Não cheguei na fase (ainda) de querer fazer esportes radicais para provar a minha masculinidade e juventude anciã. Não estou tingindo os cabelos nem estou prestes a comprar uma moto. As mulheres que me chamam a atenção ainda são as da minha idade. Por que será que o desgraçado me classificou de tiozinho.
E percebi no discreto sorrisinho nipônico que ser tiozinho não é lá muito bom.
Sou o solteirão da turma, tudo bem, mas creio que isso não seja o bastante para eu ser um tiozinho.
Deve ser despeito. Eu aqui, na flor da idade, com os cabelos ao vento e com a barriga não tão proeminente assim.
A barriga! É isso! O Japonês me ultrapassou no quesito barriga e agora vem querer tripudiar.
Não sou tiozinho coisa nenhuma! Só estou mais em forma que o tiozinho Japonês.
Um alívio. Acho que vou aproveitar o final de tarde, pegar a moto e ir até o bar onde a turma do rapel se encontra pra olhar as menininhas.