Essa estou postando em homenagem a Millor Fernandes, um grande escritor, ator, desenhista, e muitas outras qualidades, que infelizmente já nos deixou. Que Deus o tenha.
Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens, muito menos. Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado.
Orgasmo masculino não! É aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa. Diante desse mistério, as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto.
Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema. Vi, outro dia, no programa do Jô Soares, uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Walita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica.
Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela "Periquita" na hora do orgasmo, e chegou à incrível conclusão de que, na hora "H", a "perseguida" dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco "pererecas" juntas ligadas na hora do "aimeudeus!" seriam suficientes para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num Fusca com a bateria arriada.
Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tchan, carregou. É preciso ter cuidado porque isso não é mais "xibiu", é torradeira elétrica! E se der um curto circuito na hora de "virar o zoinho", além de vesgo, a gente sai com mal de Parkinson e com a lingüiça torrada.
Pensei: camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora "H", não tire o tênis nem pise no chão molhado... Pode ser pior!
É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu "biscoito" lá na canequinha de sua namorada, perguntar:
-É 110 ou 220 volts? Se não, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar
"ovo frito no café da manhã."
Esse país não melhora por absoluta falta de criatividade... São as mulheres, a solução contra o apagão.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
Ensaio sobre a incessante busca de tudo e a paradoxal onipresença do nada frente a conquista dos objetivos pré-estabelecidos em períodos de total inconsciência da existência, ou não, do passo que leva adiante através de sinuosos caminhos anteriores ao saber de tudo e até mesmo ao encontro do nada.
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Acabou e agora???
Acabou e agora???
domingo, 12 de maio de 2013
A Picanha e o Cupim
Tenho pena do cara do cupim. O garçom, digo. Porque você entra num espeto corrido, senta-se e é sempre igual: todos procuram o cara do salsichão e do coraçãozinho. Um sucesso, o salsichão & coraçãozinho. Mas o garçom responsável sabe que seu momento de celebridade é fugaz como uma paixão de Carnaval. Passados os primeiros minutos, ninguém mais chama o cara do salsichão e do coraçãozinho, e ele só fica de longe, observando em silêncio ressentido o triunfo dos homens que carregam a costelinha, o lombinho, a cebola empanada.
Sim, a glória do salsichão & coraçãozinho é breve. Mas ao menos ele é recebido com algum entusiasmo. Nada que se compare, claro, à festa que espera o cara da picanha. As pessoas passam certo tempo mastigando alcatras e fazendo piadas sobre o vazio, mas o que aguardam de fato é a picanha. É por causa da picanha que estão ali.
Quando o cara da picanha chega, as conversas cessam, os olhares se voltam para ele, todos o solicitam: eu quero!, eu aceito!, mais um pedaço bem fininho! O cara da picanha é eternamente requisitado e seu retorno só deixa de ser reivindicado quando se fica cheio as tampas. Suponho que ganhe mais, o cara da picanha. Ele não é qualquer um. A gente logo percebe pela forma altiva com que se locomove entre as mesas, pelo olhar superior que envia para a vulgar costela.
Agora, quem é realmente desprezado pelo garçom da picanha é o cara do cupim. E não só pelo da picanha: ninguém lhe dá atenção. Ele pára numa mesa. Vai perguntando: cupim?, cupim? Ninguém quer. Nunca. Uns nem se dão o trabalho de responder. Nem olham para ele. Não estou entre esses insensíveis. Sempre observo o cara do cupim. Sei que é um magoado, um humilde rechaçado, triste e perenemente esperançoso com seu cupim intacto.
O cara do cupim deve se sentir como um professor do ensino público. Com uma diferença: o professor, por atender a toda a comunidade, devia ser o mais valorizado. O professor é quem devia ganhar mais e ter as melhores condições de trabalho. Mas não no Brasil. No Brasil, um professor ganha R$ 1 mil e se dê por satisfeito. No Brasil, economiza-se em infra-estrutura e se permite o caos de serviços como o do INSS, SUS e a nossa falida rede de ensino público. No Brasil, o professor da rede pública de ensino é tratado como um fornecedor de cupim, enquanto, na verdade, ele é o da picanha.
Só que é o seguinte: mesmo que o professor fosse o do cupim, mesmo assim não mereceria tal tratamento. Porque o cara do cupim também tem um coração! Eu, inclusive, confesso: não gosto muito de cupim. Prefiro picanha. Mas sempre peço cupim nos espetos-corridos, em desagravo ao cara do cupim. E, se o cara do cupim está por perto quando o da picanha chega, simplesmente recuso a picanha, por mais sumarenta que aparente. Brado:
— Não, obrigado. Prefiro cupim!
Então, noto com júbilo a decepção no rosto orgulhoso do garçom da picanha e o lume agradecido no olhar do tão sofrido cara do cupim.
Sim, a glória do salsichão & coraçãozinho é breve. Mas ao menos ele é recebido com algum entusiasmo. Nada que se compare, claro, à festa que espera o cara da picanha. As pessoas passam certo tempo mastigando alcatras e fazendo piadas sobre o vazio, mas o que aguardam de fato é a picanha. É por causa da picanha que estão ali.
Quando o cara da picanha chega, as conversas cessam, os olhares se voltam para ele, todos o solicitam: eu quero!, eu aceito!, mais um pedaço bem fininho! O cara da picanha é eternamente requisitado e seu retorno só deixa de ser reivindicado quando se fica cheio as tampas. Suponho que ganhe mais, o cara da picanha. Ele não é qualquer um. A gente logo percebe pela forma altiva com que se locomove entre as mesas, pelo olhar superior que envia para a vulgar costela.
Agora, quem é realmente desprezado pelo garçom da picanha é o cara do cupim. E não só pelo da picanha: ninguém lhe dá atenção. Ele pára numa mesa. Vai perguntando: cupim?, cupim? Ninguém quer. Nunca. Uns nem se dão o trabalho de responder. Nem olham para ele. Não estou entre esses insensíveis. Sempre observo o cara do cupim. Sei que é um magoado, um humilde rechaçado, triste e perenemente esperançoso com seu cupim intacto.
O cara do cupim deve se sentir como um professor do ensino público. Com uma diferença: o professor, por atender a toda a comunidade, devia ser o mais valorizado. O professor é quem devia ganhar mais e ter as melhores condições de trabalho. Mas não no Brasil. No Brasil, um professor ganha R$ 1 mil e se dê por satisfeito. No Brasil, economiza-se em infra-estrutura e se permite o caos de serviços como o do INSS, SUS e a nossa falida rede de ensino público. No Brasil, o professor da rede pública de ensino é tratado como um fornecedor de cupim, enquanto, na verdade, ele é o da picanha.
Só que é o seguinte: mesmo que o professor fosse o do cupim, mesmo assim não mereceria tal tratamento. Porque o cara do cupim também tem um coração! Eu, inclusive, confesso: não gosto muito de cupim. Prefiro picanha. Mas sempre peço cupim nos espetos-corridos, em desagravo ao cara do cupim. E, se o cara do cupim está por perto quando o da picanha chega, simplesmente recuso a picanha, por mais sumarenta que aparente. Brado:
— Não, obrigado. Prefiro cupim!
Então, noto com júbilo a decepção no rosto orgulhoso do garçom da picanha e o lume agradecido no olhar do tão sofrido cara do cupim.
domingo, 28 de abril de 2013
Falando no Chuveiro
A maioria das pessoas canta no chuveiro. Pelo menos é o que elas dizem. Eu não, já que as paredes têm ouvido, prefiro poupá-las. Mas sou humano, e se tem um momento em que posso descarregar todas minhas aflições e agonias, é no banho. Só que faço isso de uma forma diferente: eu represento.
Como cronista amador que se preze, eu sempre tento olhar o cotidiano de uma forma inusitada. Isso já me colocou em situações ridículas, como quando deitei no chão do banheiro, debaixo da pia, para entender como é a visão de uma barata se escondendo.
Essa busca incessante por uma análise “descolada” do meu dia-a-dia tem seu ápice no meu banho. Onde faço meu show particular de “Stand-Up Comedy” (aqueles shows onde um humorista fica no palco, sozinho falando um monte de besteiras pra platéia).
Pelas minhas contas, já fiz mais de 500 espetáculos, discutindo sobre os mais variados assuntos: A trajetória do sabonete num banho comum (num dia sem muita idéia), a trajetória do sabonete num banho a dois (na época em que eu era feliz), e diversos assuntos mais.
Mas na última temporada, confesso, só um assunto surge na minha cabeça. Eu entro no palco, abrem-se as torneiras e começo: “Quando um não quer, dois não fazem muitas coisas (pausa para os pingos me aplaudirem) : Brigam, conversam, jogam pingue-pongue, se beijam, namoram e até, a não ser em casos extremos, copulam.
Toda e qualquer forma de relacionamento humano depende única e exclusivamente da vontade (ou necessidade) das pessoas envolvidas.
Quando A e B se encontram, temos 4 situações possíveis:
-O A quer e o B também, isso é bom, veremos risadas, beijos, abraços, carinhos … enfim … como diria Tim Maia, o que importa é o amooor!
-O A quer e o B não. Partindo-se do pressuposto que o A é um homem e o B é uma mulher, a situação se complica. Veremos vários copos de cerveja na mão do A pra conseguir abordar o B, veremos papinhos ridículos como: Belle e Sebastian pra mim é TUDO!, veremos o A se expondo ao ridículo e o B vendo seu ego crescer, crescer e crescer. Veremos os amigos do A rachando o bico da cara dele depois do pé na bunda que ele tomará, e finalmente, veremos o
B beijando outro A logo depois, só porque ele é mais “in” que o primeiro.
-O A não quer e o B quer. Se continuarmos pensando na condição anterior, dizer que o A não quer é só uma questão de tempo. O B tem diversos recursos para mudar a opinião de A, a não ser que esse B seja tão feio que pareça um W, e o A esteja ainda sóbrio.
-A e B não querem. Isso é bom, aliás, é a mais fácil de todas a situações. Nada acontece.
Não tenha dúvida que as situações 2 e 3 são responsáveis por quase todos os problemas da humanidade.”
E por aí vai …
O mais interessante é que quanto pior está a vida, mais engraçado fica o show. Já teve caso da água se recusar a entrar pelo ralo, até eu atender aos pedidos de “bis”, quase afogado dentro do box. Se as coisas continuarem assim, tenho medo de inundar o bairro. Afogado no sucesso.
Como cronista amador que se preze, eu sempre tento olhar o cotidiano de uma forma inusitada. Isso já me colocou em situações ridículas, como quando deitei no chão do banheiro, debaixo da pia, para entender como é a visão de uma barata se escondendo.
Essa busca incessante por uma análise “descolada” do meu dia-a-dia tem seu ápice no meu banho. Onde faço meu show particular de “Stand-Up Comedy” (aqueles shows onde um humorista fica no palco, sozinho falando um monte de besteiras pra platéia).
Pelas minhas contas, já fiz mais de 500 espetáculos, discutindo sobre os mais variados assuntos: A trajetória do sabonete num banho comum (num dia sem muita idéia), a trajetória do sabonete num banho a dois (na época em que eu era feliz), e diversos assuntos mais.
Mas na última temporada, confesso, só um assunto surge na minha cabeça. Eu entro no palco, abrem-se as torneiras e começo: “Quando um não quer, dois não fazem muitas coisas (pausa para os pingos me aplaudirem) : Brigam, conversam, jogam pingue-pongue, se beijam, namoram e até, a não ser em casos extremos, copulam.
Toda e qualquer forma de relacionamento humano depende única e exclusivamente da vontade (ou necessidade) das pessoas envolvidas.
Quando A e B se encontram, temos 4 situações possíveis:
-O A quer e o B também, isso é bom, veremos risadas, beijos, abraços, carinhos … enfim … como diria Tim Maia, o que importa é o amooor!
-O A quer e o B não. Partindo-se do pressuposto que o A é um homem e o B é uma mulher, a situação se complica. Veremos vários copos de cerveja na mão do A pra conseguir abordar o B, veremos papinhos ridículos como: Belle e Sebastian pra mim é TUDO!, veremos o A se expondo ao ridículo e o B vendo seu ego crescer, crescer e crescer. Veremos os amigos do A rachando o bico da cara dele depois do pé na bunda que ele tomará, e finalmente, veremos o
B beijando outro A logo depois, só porque ele é mais “in” que o primeiro.
-O A não quer e o B quer. Se continuarmos pensando na condição anterior, dizer que o A não quer é só uma questão de tempo. O B tem diversos recursos para mudar a opinião de A, a não ser que esse B seja tão feio que pareça um W, e o A esteja ainda sóbrio.
-A e B não querem. Isso é bom, aliás, é a mais fácil de todas a situações. Nada acontece.
Não tenha dúvida que as situações 2 e 3 são responsáveis por quase todos os problemas da humanidade.”
E por aí vai …
O mais interessante é que quanto pior está a vida, mais engraçado fica o show. Já teve caso da água se recusar a entrar pelo ralo, até eu atender aos pedidos de “bis”, quase afogado dentro do box. Se as coisas continuarem assim, tenho medo de inundar o bairro. Afogado no sucesso.
terça-feira, 16 de abril de 2013
A Dentista
Minha dentista se chama Patrícia. Paty. Imagino que seja com ipsilone, fica mais fino. Linda, Paty.
Há tempo queria conversar com ela. Fazer uma tentativa. Por que não? Mas não conseguia.
No consultório, eu estava sempre com a boca aberta, cheia de algodão. Ou com aquele maldito sugador pendurado. Também tem outra: no consultório, me sentia em terrível posição de inferioridade. Puxa, aquela mulher me esburaca a dentina, me torce os nervos, me raspa os tártaros. Aquela mulher, literalmente, me conhece por dentro. E o que sei dela? No máximo, que suas gengivas são rosadas e seus dentes reluzentes pastilhas brancas. No consultório não dava. Não mesmo.
Durante muito tempo, sonhei em encontrar Paty na noite. Nunca tive essa sorte. Aí, no fim de semana, fui para o Litoral. Águas Belas. Local com uma bela praia e não muito cheia e me hospedei na casa do meu amigo Gabriel, com a turma. Tudo bem, tudo legal.
Enfim, lá estava eu, em Águas Belas. Manhã de sábado. Decidi sair sozinho pela praia, os amigos ainda dormiam, tinham bebido demais na noite anterior. Fui, distraidão, a água do mar me penteando os cabelinhos da canela. Então a vi. Minha dentista. De biquíni! Nossa, que biquíni miudinho. Havia Patrícia por todos os lados, em volta daquele paninho mínimo.
A chance pela qual esperava chegara. Mas o que dizer para ela?
Tinha que ser algo especial. Algo que a interessasse. Ela agora se estendia de costas na cadeirinha de plástico. Por que não pensei antes no que falar? Estava cada vez mais perto. O que será que pode chamar a atenção dela? Faltavam poucos metros. O que a interessaria, sem erro? Ela virou a cabeça para o lado. Reconheceu-me. Sorriu. O sorriso me animou.
É agora, pensava. É agora.
Precisava decidir rápido. O que a interessaria? O quê?
– Oi – cumprimentei, ajoelhando-me ao seu lado.
O que falar? O que falar? O que falar?
– Oi – ela respondeu.
Um oi lindo. Muito bem pronunciado. Muito bem acentuado. Comecei a suar.
– Paty...
– Sim? – ela se apoiou nos cotovelos para me ouvir.
– Sabe, eu estava pensando, desde a última vez que nos encontramos...
– A última consulta?
– Isso. A última consulta.
– Que é que tem?
– Bom... – tomei a decisão ali, naquele instante. Uma ideia muito boa. Na verdade, uma ideia genial. – É que estava pensando nos pré-molares.
– Hein? – consegui surpreendê-la. Gol do Brasil.
– Os pré-molares – um assunto perfeito. Era certo que ela se interessava por isso.
– Os teus pré-molares? Algum problema com eles?
– Não. Os pré-molares em geral. Filosoficamente falando. É que, sabe, Paty – toquei no braço dela para gerar intimidade. – Estou impressionado com o poder dos pré-molares, toda aquela capacidade que eles têm de morder. Isso tem me deixado muito inquieto. Nem durmo mais à noite.
Paty me olhou espantada. Senti que tinha capturado a atenção dela. Estava no caminho certo. Resolvi sofisticar.
– E tem mais – acrescentei.
– Mais? – um pouco receosa.
– Os caninos.
– Os caninos?
– Os caninos. Eles rasgam maravilhosamente. Li em algum lugar que, no tempo em que éramos homens das cavernas, nossos caninos eram bem mais desenvolvidos. Será verdade?
– Pode ser... – Paty já estava sentada na ponta da cadeira, alerta, certamente embasbacada com meus conhecimentos odontológicos. Sim, senhor, os dentistas acham que são os únicos a saber sobre dentes e bocas em geral.
– Mas não existe nada que me fascine mais do que os sisos – prossegui, entusiasmado. – Veja, Paty: durante milênios tivemos sisos, mas nos últimos anos os dentistas os têm arrancado das bocas, para que os outros dentes não acavalem. É verdade isso ou não é? Diga: é verdade?
– Verdade, verdade – os olhos de Paty se arregalaram. Admiração pura, certamente.
– Pois aí o que começou a acontecer? Tu sabes? Diga: tu sabes?
– N-não...
– As crianças estão nascendo sem siso! – eu agora falava alto, empolgado com o sucesso do meu assunto. – Formidável! É a evolução das espécies! Darwin puro! É fantástico, Paty! – gritava. – Fantástico! Não acha fantástico, Paty?
Ela se levantou da cadeirinha. Levantei-me também. Limpei a areia dos joelhos.
– A-acho. Olha, vou ter que dar uma saída, não posso conversar agora.
– Mas, Paty, temos tanto a conversar. A periodontia, por exemplo. Adoro a periodontia, Paty – segurei no braço dela, tentando detê-la.
– Me larga!
– O mundo das gengivas, Paty! Quero falar sobre o mundo das gengivas!
– Sai! Sai!
Paty se livrou de mim num repelão. Foi-se, correndo, espalhando areia, fugindo como se eu fosse algum maníaco.
O que terá acontecido?
Minha conversa estava tão boa... Tentei tudo para agradá-la e ainda assim ela não reconheceu.
Oh, Deus, não há como entender as mulheres, realmente.
Há tempo queria conversar com ela. Fazer uma tentativa. Por que não? Mas não conseguia.
No consultório, eu estava sempre com a boca aberta, cheia de algodão. Ou com aquele maldito sugador pendurado. Também tem outra: no consultório, me sentia em terrível posição de inferioridade. Puxa, aquela mulher me esburaca a dentina, me torce os nervos, me raspa os tártaros. Aquela mulher, literalmente, me conhece por dentro. E o que sei dela? No máximo, que suas gengivas são rosadas e seus dentes reluzentes pastilhas brancas. No consultório não dava. Não mesmo.
Durante muito tempo, sonhei em encontrar Paty na noite. Nunca tive essa sorte. Aí, no fim de semana, fui para o Litoral. Águas Belas. Local com uma bela praia e não muito cheia e me hospedei na casa do meu amigo Gabriel, com a turma. Tudo bem, tudo legal.
Enfim, lá estava eu, em Águas Belas. Manhã de sábado. Decidi sair sozinho pela praia, os amigos ainda dormiam, tinham bebido demais na noite anterior. Fui, distraidão, a água do mar me penteando os cabelinhos da canela. Então a vi. Minha dentista. De biquíni! Nossa, que biquíni miudinho. Havia Patrícia por todos os lados, em volta daquele paninho mínimo.
A chance pela qual esperava chegara. Mas o que dizer para ela?
Tinha que ser algo especial. Algo que a interessasse. Ela agora se estendia de costas na cadeirinha de plástico. Por que não pensei antes no que falar? Estava cada vez mais perto. O que será que pode chamar a atenção dela? Faltavam poucos metros. O que a interessaria, sem erro? Ela virou a cabeça para o lado. Reconheceu-me. Sorriu. O sorriso me animou.
É agora, pensava. É agora.
Precisava decidir rápido. O que a interessaria? O quê?
– Oi – cumprimentei, ajoelhando-me ao seu lado.
O que falar? O que falar? O que falar?
– Oi – ela respondeu.
Um oi lindo. Muito bem pronunciado. Muito bem acentuado. Comecei a suar.
– Paty...
– Sim? – ela se apoiou nos cotovelos para me ouvir.
– Sabe, eu estava pensando, desde a última vez que nos encontramos...
– A última consulta?
– Isso. A última consulta.
– Que é que tem?
– Bom... – tomei a decisão ali, naquele instante. Uma ideia muito boa. Na verdade, uma ideia genial. – É que estava pensando nos pré-molares.
– Hein? – consegui surpreendê-la. Gol do Brasil.
– Os pré-molares – um assunto perfeito. Era certo que ela se interessava por isso.
– Os teus pré-molares? Algum problema com eles?
– Não. Os pré-molares em geral. Filosoficamente falando. É que, sabe, Paty – toquei no braço dela para gerar intimidade. – Estou impressionado com o poder dos pré-molares, toda aquela capacidade que eles têm de morder. Isso tem me deixado muito inquieto. Nem durmo mais à noite.
Paty me olhou espantada. Senti que tinha capturado a atenção dela. Estava no caminho certo. Resolvi sofisticar.
– E tem mais – acrescentei.
– Mais? – um pouco receosa.
– Os caninos.
– Os caninos?
– Os caninos. Eles rasgam maravilhosamente. Li em algum lugar que, no tempo em que éramos homens das cavernas, nossos caninos eram bem mais desenvolvidos. Será verdade?
– Pode ser... – Paty já estava sentada na ponta da cadeira, alerta, certamente embasbacada com meus conhecimentos odontológicos. Sim, senhor, os dentistas acham que são os únicos a saber sobre dentes e bocas em geral.
– Mas não existe nada que me fascine mais do que os sisos – prossegui, entusiasmado. – Veja, Paty: durante milênios tivemos sisos, mas nos últimos anos os dentistas os têm arrancado das bocas, para que os outros dentes não acavalem. É verdade isso ou não é? Diga: é verdade?
– Verdade, verdade – os olhos de Paty se arregalaram. Admiração pura, certamente.
– Pois aí o que começou a acontecer? Tu sabes? Diga: tu sabes?
– N-não...
– As crianças estão nascendo sem siso! – eu agora falava alto, empolgado com o sucesso do meu assunto. – Formidável! É a evolução das espécies! Darwin puro! É fantástico, Paty! – gritava. – Fantástico! Não acha fantástico, Paty?
Ela se levantou da cadeirinha. Levantei-me também. Limpei a areia dos joelhos.
– A-acho. Olha, vou ter que dar uma saída, não posso conversar agora.
– Mas, Paty, temos tanto a conversar. A periodontia, por exemplo. Adoro a periodontia, Paty – segurei no braço dela, tentando detê-la.
– Me larga!
– O mundo das gengivas, Paty! Quero falar sobre o mundo das gengivas!
– Sai! Sai!
Paty se livrou de mim num repelão. Foi-se, correndo, espalhando areia, fugindo como se eu fosse algum maníaco.
O que terá acontecido?
Minha conversa estava tão boa... Tentei tudo para agradá-la e ainda assim ela não reconheceu.
Oh, Deus, não há como entender as mulheres, realmente.
domingo, 17 de março de 2013
Todos os psicanalistas são felizes
Não confio muito em técnicos de futebol que tenham sido cracaços de bola. O técnico ideal é o que foi um pereba esforçado, quando jogador. Técnicos não são como psicanalistas. Esses, os psicanalistas, os psiquiatras, os terapeutas todos, eles PRECISAM ser felizes. Porque, puxa, a função de um terapeuta é interpretar a alma do seu paciente, desenhar com essa interpretação um mapa e usá-lo para guiar o paciente à felicidade, não é? Tem de ser.
Afinal, quem está totalmente feliz procura um terapeuta? A resposta é: não. A primeira intenção do paciente, portanto, é descobrir o caminho para a beatitude, para a satisfação plena. Ou seja: torna-se indispensável, ao terapeuta, conhecer o caminho da paz, caso contrário seu paciente continuará a tatear no pântano sombrio da infelicidade.
Os terapeutas são como aquelas mulheres dos institutos de beleza. Pense: o troço se chama “instituto de beleza”. Quer dizer: uma instituição destinada a tornar bela a sua clientela, com o perdão da rima. Logo, uma mulher que trabalha num instituto de beleza deve ser bonita. Ou pelo menos ela há de estar no ponto mais alto do seu potencial de beleza. Entenda: o Destino, esse debochado, pode muito bem não haver aquinhoado a moça com os traços mais harmônicos, não há necessidade de ela ter uma boca carnuda de Angelina Joulie ou um nariz orgulhoso de Nicole Kidman, mas tudo tem de estar direitinho com ela. Ela não pode, por exemplo, usar casaco. Nem coque, pelamor de Deus.
O técnico de futebol, não. Não existe tal exigência. Ao contrário: ele NÃO DEVE ser craque. A antiga craqueza, no caso do técnico, às vezes até atrapalha. O craque é intuitivo, ele joga quase que por instinto, a intimidade com a bola está registrada no seu DNA. Logo, lhe é complicado ensinar o que faz com tamanha naturalidade. Um jovem jogador não sabe dominar a bola? O ex-craque não compreende como é possível. Para ele, dominar a bola é como fazer seu pâncreas funcionar. Funciona, pronto.
Agora, quem se esforçou para aprender, quem teve de entender o jogo para poder superar as dificuldades impostas pela Natureza, esse será um bom técnico. Porque o conhecimento vem da dor, entende? Da DOR. Você quer ser maduro, você quer compreender a vida, você quer a sabedoria? Extraia isso tudo dos seus momentos de sofrimento. Não sofra, apenas, rapaz; entenda por que você sofre.
Afinal, quem está totalmente feliz procura um terapeuta? A resposta é: não. A primeira intenção do paciente, portanto, é descobrir o caminho para a beatitude, para a satisfação plena. Ou seja: torna-se indispensável, ao terapeuta, conhecer o caminho da paz, caso contrário seu paciente continuará a tatear no pântano sombrio da infelicidade.
Os terapeutas são como aquelas mulheres dos institutos de beleza. Pense: o troço se chama “instituto de beleza”. Quer dizer: uma instituição destinada a tornar bela a sua clientela, com o perdão da rima. Logo, uma mulher que trabalha num instituto de beleza deve ser bonita. Ou pelo menos ela há de estar no ponto mais alto do seu potencial de beleza. Entenda: o Destino, esse debochado, pode muito bem não haver aquinhoado a moça com os traços mais harmônicos, não há necessidade de ela ter uma boca carnuda de Angelina Joulie ou um nariz orgulhoso de Nicole Kidman, mas tudo tem de estar direitinho com ela. Ela não pode, por exemplo, usar casaco. Nem coque, pelamor de Deus.
O técnico de futebol, não. Não existe tal exigência. Ao contrário: ele NÃO DEVE ser craque. A antiga craqueza, no caso do técnico, às vezes até atrapalha. O craque é intuitivo, ele joga quase que por instinto, a intimidade com a bola está registrada no seu DNA. Logo, lhe é complicado ensinar o que faz com tamanha naturalidade. Um jovem jogador não sabe dominar a bola? O ex-craque não compreende como é possível. Para ele, dominar a bola é como fazer seu pâncreas funcionar. Funciona, pronto.
Agora, quem se esforçou para aprender, quem teve de entender o jogo para poder superar as dificuldades impostas pela Natureza, esse será um bom técnico. Porque o conhecimento vem da dor, entende? Da DOR. Você quer ser maduro, você quer compreender a vida, você quer a sabedoria? Extraia isso tudo dos seus momentos de sofrimento. Não sofra, apenas, rapaz; entenda por que você sofre.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
A gente vai levando
Nós vivemos no gerúndio. Nós brasileiros. Estamos sempre fazendo, sempre chegando, estamos quase lá, espere um pouquinho, já vai.
Nunca estamos prontos.
O Brasil nunca fica pronto.
É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.
Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio. É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.
-
O gerúndio invencível
Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:
– Nós vamos estar disponibilizando.
Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.
Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.
-
O gerúndio da vitória
Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:
– Que homem! Não existe homem como você!
Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.
Enfim.
O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:
– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.
Ri:
– Pô, mas então você está no gerúndio...
Ele rebateu:
– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.
Sábio, o meu amigo que adora casadas.
Nunca estamos prontos.
O Brasil nunca fica pronto.
É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.
Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio. É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.
-
O gerúndio invencível
Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:
– Nós vamos estar disponibilizando.
Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.
Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.
-
O gerúndio da vitória
Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:
– Que homem! Não existe homem como você!
Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.
Enfim.
O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:
– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.
Ri:
– Pô, mas então você está no gerúndio...
Ele rebateu:
– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.
Sábio, o meu amigo que adora casadas.
sábado, 27 de outubro de 2012
Rapidinha...
– Jô.
– Fala Deco.
– A gente precisa conversar.
– Tá, deixa só acabar esse bloco e a gente conversa.
– Jô… é sério.
– Eu sei – olha lá a Ritinha vai acabar com a madrasta da Cleide… olha lá.
– Você entende que eu quero conversar e você não quer a devida importância, né?
– Sei, sei, até parece que do dia pra noite ficou sentimental. Essa é a minha função – olha lá o tapa que ela deu! – quem fica emotivo nesse casal aqui sou eu! Pára com isso, Deco. Depois eu te deixo em paz pra você assistir o “raio” do jogo.
– Mas que fique registrado que eu tentei.
– Tá Deco, não atrapalha – ah lá o Jorge Vagner com a Betty! essa não presta mesmo…
– Jô… se a gente não conversar, como vai ser mais pra frente? Dá só um minutinho…
– Deco, no próximo bloco, pô! Óh o barulho, não dá pra ouvir nada.
– Jô… o gato subiu no telhado.
– Ah, que nada! eu dei motivo? você deu motivo? – mas que cafajeste esse Marcos Paulo – A gente tá super bem, não inventa Deco.
– Jô, eu tô tentando te falar faz um tempinho…
– Calma, calma – ah lá… que sem vergonha “essazinha”!
– Jô…
– Pô Deco, pára de falar. Eu fico falando quando você está assistindo jogo? Não! então pronto. Poxa, já falei que quando terminar esse bloco a gente conversa, sabe… fica aí falando sem parar, não dá nem pra ouvir direito… e esse monte de sirene aí fora, pô. Manda esses caras apitarem pra lá…
Os bombeiros não puderam fazer nada, já era tarde para o pobre gatinho.
– Fala Deco.
– A gente precisa conversar.
– Tá, deixa só acabar esse bloco e a gente conversa.
– Jô… é sério.
– Eu sei – olha lá a Ritinha vai acabar com a madrasta da Cleide… olha lá.
– Você entende que eu quero conversar e você não quer a devida importância, né?
– Sei, sei, até parece que do dia pra noite ficou sentimental. Essa é a minha função – olha lá o tapa que ela deu! – quem fica emotivo nesse casal aqui sou eu! Pára com isso, Deco. Depois eu te deixo em paz pra você assistir o “raio” do jogo.
– Mas que fique registrado que eu tentei.
– Tá Deco, não atrapalha – ah lá o Jorge Vagner com a Betty! essa não presta mesmo…
– Jô… se a gente não conversar, como vai ser mais pra frente? Dá só um minutinho…
– Deco, no próximo bloco, pô! Óh o barulho, não dá pra ouvir nada.
– Jô… o gato subiu no telhado.
– Ah, que nada! eu dei motivo? você deu motivo? – mas que cafajeste esse Marcos Paulo – A gente tá super bem, não inventa Deco.
– Jô, eu tô tentando te falar faz um tempinho…
– Calma, calma – ah lá… que sem vergonha “essazinha”!
– Jô…
– Pô Deco, pára de falar. Eu fico falando quando você está assistindo jogo? Não! então pronto. Poxa, já falei que quando terminar esse bloco a gente conversa, sabe… fica aí falando sem parar, não dá nem pra ouvir direito… e esse monte de sirene aí fora, pô. Manda esses caras apitarem pra lá…
Os bombeiros não puderam fazer nada, já era tarde para o pobre gatinho.
sábado, 29 de setembro de 2012
Posso Entrar Na Sua Vida?
Marcelo não é um cara muito normal, mas também não chega a ser louco. Ele é do tipo de pessoa que funciona melhor à noite. Pra gente assim, não tem horário melhor do que a madrugada pra se comprar livros. Logo ao entrar na sua livraria 24 horas preferida (a única da cidade) ele se depara com uma mulher bem atraente. Não chega a ser uma Fernanda Lima, mas pelo menos é uma mulher de verdade, não uma brincadeira de mal gosto criada pelos meios de comunicação de massa para fazer os homens sofrerem. Depois de um bom tempo observando-a ele não se contem. Se aproxima lentamente dela e diz:
- Oi, tudo bom?
– Er … tudo …
– …
Marcelo nunca foi bom para fazer essas coisas. Pelo menos neste caso, ela se mostrava curiosa. Nem um pouco simpática, mas no mínimo, intrigada.
- Eu te conheço?
– Não. Mas eu queria te fazer uma pergunta …
– Uñ ? – (típica palavra de quem não quer dizer mais do que “Uñ”, se é que vocês me entendem).
– Posso entrar na sua vida?
– Hãn?! – (agora sim, uma expressão bem mais enfática).
– Po-posso entrar na sua vida?
– Como assim?
Um longo silêncio, seguido de um suspiro do nosso amigo Marcelo :
- É assim … Eu te vi logo que entrei aqui.
– Certo.
– Aí … você estava andando tranquilamente, enrolando a ponta do cabelo como quem enrola a ponta do cabelo com os dedos, bem tranqüila.
– Faz sentido …
– Magicamente, você parou … colocou a ponta do seu cabelo na boca, como quem coloca a ponta do cabelo … hmmm … na boca, e pegou um livro do P.G. Wodehouse …
– Obrigado, Jeev-
– Não, meu nome é Marcelo.
– O nome do livro era “Obrigado, Jeeves”!
– Ah sim … eu sei.
Ela pareceu não ter gostado muito da resposta:
- Grr … Bom, posso ir embora ou tem mais ?
– Você não me respondeu ainda …
– O quê ?
– Se eu posso entrar na sua vida.
– Como assim? Você chega aqui, fala que me viu andando e comendo meu próprio cabelo, como quem come o próprio cabelo (!!) e aí então faz uma pergunta absurda dessas! Qual é o ponto?!
– Bom … (longa pausa) … se essa pergunta é tão absurda assim, talvez seja melhor VOCÊ não entrar na MINHA vida. Muito prazer. Tchau!
Esta, sem dúvida, foi a frase dita por Marcelo da forma mais tranqüila por toda a conversa. Sem pressa, ele se virou, se afastou e começou a folhear as revistas de arquitetura , o que apenas fingia fazer anteriormente.
Alguns momentos depois a moça ainda intrigada, que agora disfarçava folhear revistas de Tunning, decidiu se aproximar e disse:
- Claudecir …
Ele, sem tirar os olhos sobre um artigo muito interessante sobre sofás “chaise-longs” retrucou :
- É Marcelo.
– Eu estou falando que o MEU nome é CLAUDECIR!
– HEIM?!
– Ah, parou de ler, né? Então … Marisa, meu nome é Marisa.
– Po-podia ter me pedido pra parar de ler … Estou em estado de choque, agora!
– (risos)
– Certo … vou tentar apagar a figura do transexual mais atraente que conheci nos últimos tempos e voltar a pensar em você apenas como uma mulher.
– Que bom!
– E então … Quer me falar algo, Marisa?
– Como assim ?
– Como assim o que ?
– Entrar na minha vida? O que você quis dizer com isso?
– O conceito do verbo “entrar” é relativamente compreensível, principalmente para pessoas com o QI mediano. Muitas vezes na Matemática temos dois grup-
– Opa, querido! Eu sei o que significa “entrar”.
– Viu?! Agora eu sei que você tem pelo menos o QI mediano da população. Parabéns!
Marisa fez aquela cara que aparentemente diz “bobinho!” mas que na verdade significa “você tá pensando que eu sou idiota, seu energúmeno!”, e depois perguntou:
- Sério! O que você queria quando me fez a pergunta?
– Por que vocês mulheres acham que as coisas significam mais do que realmente significam? “Que horas são?” não significa “Achei seu relógio interessante, mas essa aparência retrô da alça de vinil pode mostrar que inconscientemente sua infância foi marcada por um trauma de rejeição, personificado aqui, com uma das características mais marcantes do culpado pela sua rejeição, seu pai, reconhecido pela pontualidade.” : “Que horas são?” É apenas uma pergunta que tenta esclarecer a hora certa!
Sem se exaltar, mas no limite da provocação, em um tom em que se ambos estivessem na quinta-série a turminha gritaria “YEAAAAAAHHH!!!”, Marcelo respondeu, e continuou:
- Enfim, quis dizer exatamente o que te perguntei.
– Tá! Mas … Você não poderia ter me dito … Er …
– “Você vem sempre aqui?”
– Não … essa é muito batida, você não falaria isso …
– “Ei, Pequena. Posso te pagar um drink?”
– Ótima frase. Pena que 50 anos atrasada. Acho que não … sei lá! Você não poderia ter vindo com qualquer xavequinho minimamente aceitável?
– E o que esse xavequinho significaria “na misteriosa língua das mulheres”?
– “Oi, posso entrar em você?”
Só para esclarecer, amigo, quem disse essa frase foi ela. O papo está meio longo sempre é bom ajudá-lo com essas intervenções. Ele respondeu, um pouco desconcertado de início:
- C-Certo! Não que isso seja uma grande mentir-
– Ei, seu safado! – disse Marisa, dando aquele tapinha no ombro de Marcelo, daqueles que querem dizer “Preciso te recriminar perante a sociedade, mas você mandou bem nessa. Keep moving!”
- O fato é que antes de entrar em você – ao dizer isso, ele rapidamente protegeu o ombro – eu quero saber se você vale a pena. Ou seja : antes do ato físico, o mínimo de afinidade intelectual.
– Não seja cínico! Se eu te atacasse aqui e te puxasse pra transar no banheiro você iria sem pestanejar …
– Olha … num vou mentir pra senhor- outro tapa daqueles no ombro do nosso protagonista – mas, como você realmente me pareceu interessante, talvez algo além dessa divertida forma de entretenimento sexual pode ser experimentado.
– E tudo isso pelo jeito que eu coloquei o cabelo entre os lábios como qu-
– Quem coloca os cabelos entre os lábios! Isso!
– Só por isso?!
– Precisa mais do que isso?!
– Vocês homens são completamente loucos!
Marcelo fingindo uma conversa: – “Que horas são?” “Meia-noite e meia!”. Desculpa, nada de louco nessa conversa.
– O que fazemos então … ?
– Olha, o banheiro está aqui do lado … Andei reconsiderando minhas opiniões e como não quero parecer intransigente, acho, já que é sua vontade, que podemos trans-
Outro tapa, seguido de : – BESTA!
- São seus olhos …
– Vamos lá então … Como eu faço pra deixar você entrar na minha vida?
– Pode começar me dando seu telefone.
– Ok! O número é … – (para preservar a privacidade de nossa querida personagem, não transcreverei aqui o número, mas garanto, é fácil de se decorar).
– Muito bem! Está anotado. Tenho que ir agora, mas te ligo amanhã.
– Então tá.
– Ah, caso você não saiba: quando eu te ligar, você atende, ok? É assim que funciona.
Mais um tapa. Ele continua :
- Olha, acabaram de liberar o banheiro, tem certeza qu-
Desta vez ela só ameaçou o tapa. Marcelo, muito sério, fazia a pose em “T” do golpe final em Karate Kid.
– Vai embora logo, e vê se liga mesmo!
– Sim senhora!
E assim, começou a história do relacionamento entre os personagens desta crônica. Se deu certo ou não, nem eu sei ainda. Só posso dizer que mesmo sem que ambos soubessem, Marcelo já tinha entrado na vida de Marisa. E ninguém pode falar que ele não pediu.
- Oi, tudo bom?
– Er … tudo …
– …
Marcelo nunca foi bom para fazer essas coisas. Pelo menos neste caso, ela se mostrava curiosa. Nem um pouco simpática, mas no mínimo, intrigada.
- Eu te conheço?
– Não. Mas eu queria te fazer uma pergunta …
– Uñ ? – (típica palavra de quem não quer dizer mais do que “Uñ”, se é que vocês me entendem).
– Posso entrar na sua vida?
– Hãn?! – (agora sim, uma expressão bem mais enfática).
– Po-posso entrar na sua vida?
– Como assim?
Um longo silêncio, seguido de um suspiro do nosso amigo Marcelo :
- É assim … Eu te vi logo que entrei aqui.
– Certo.
– Aí … você estava andando tranquilamente, enrolando a ponta do cabelo como quem enrola a ponta do cabelo com os dedos, bem tranqüila.
– Faz sentido …
– Magicamente, você parou … colocou a ponta do seu cabelo na boca, como quem coloca a ponta do cabelo … hmmm … na boca, e pegou um livro do P.G. Wodehouse …
– Obrigado, Jeev-
– Não, meu nome é Marcelo.
– O nome do livro era “Obrigado, Jeeves”!
– Ah sim … eu sei.
Ela pareceu não ter gostado muito da resposta:
- Grr … Bom, posso ir embora ou tem mais ?
– Você não me respondeu ainda …
– O quê ?
– Se eu posso entrar na sua vida.
– Como assim? Você chega aqui, fala que me viu andando e comendo meu próprio cabelo, como quem come o próprio cabelo (!!) e aí então faz uma pergunta absurda dessas! Qual é o ponto?!
– Bom … (longa pausa) … se essa pergunta é tão absurda assim, talvez seja melhor VOCÊ não entrar na MINHA vida. Muito prazer. Tchau!
Esta, sem dúvida, foi a frase dita por Marcelo da forma mais tranqüila por toda a conversa. Sem pressa, ele se virou, se afastou e começou a folhear as revistas de arquitetura , o que apenas fingia fazer anteriormente.
Alguns momentos depois a moça ainda intrigada, que agora disfarçava folhear revistas de Tunning, decidiu se aproximar e disse:
- Claudecir …
Ele, sem tirar os olhos sobre um artigo muito interessante sobre sofás “chaise-longs” retrucou :
- É Marcelo.
– Eu estou falando que o MEU nome é CLAUDECIR!
– HEIM?!
– Ah, parou de ler, né? Então … Marisa, meu nome é Marisa.
– Po-podia ter me pedido pra parar de ler … Estou em estado de choque, agora!
– (risos)
– Certo … vou tentar apagar a figura do transexual mais atraente que conheci nos últimos tempos e voltar a pensar em você apenas como uma mulher.
– Que bom!
– E então … Quer me falar algo, Marisa?
– Como assim ?
– Como assim o que ?
– Entrar na minha vida? O que você quis dizer com isso?
– O conceito do verbo “entrar” é relativamente compreensível, principalmente para pessoas com o QI mediano. Muitas vezes na Matemática temos dois grup-
– Opa, querido! Eu sei o que significa “entrar”.
– Viu?! Agora eu sei que você tem pelo menos o QI mediano da população. Parabéns!
Marisa fez aquela cara que aparentemente diz “bobinho!” mas que na verdade significa “você tá pensando que eu sou idiota, seu energúmeno!”, e depois perguntou:
- Sério! O que você queria quando me fez a pergunta?
– Por que vocês mulheres acham que as coisas significam mais do que realmente significam? “Que horas são?” não significa “Achei seu relógio interessante, mas essa aparência retrô da alça de vinil pode mostrar que inconscientemente sua infância foi marcada por um trauma de rejeição, personificado aqui, com uma das características mais marcantes do culpado pela sua rejeição, seu pai, reconhecido pela pontualidade.” : “Que horas são?” É apenas uma pergunta que tenta esclarecer a hora certa!
Sem se exaltar, mas no limite da provocação, em um tom em que se ambos estivessem na quinta-série a turminha gritaria “YEAAAAAAHHH!!!”, Marcelo respondeu, e continuou:
- Enfim, quis dizer exatamente o que te perguntei.
– Tá! Mas … Você não poderia ter me dito … Er …
– “Você vem sempre aqui?”
– Não … essa é muito batida, você não falaria isso …
– “Ei, Pequena. Posso te pagar um drink?”
– Ótima frase. Pena que 50 anos atrasada. Acho que não … sei lá! Você não poderia ter vindo com qualquer xavequinho minimamente aceitável?
– E o que esse xavequinho significaria “na misteriosa língua das mulheres”?
– “Oi, posso entrar em você?”
Só para esclarecer, amigo, quem disse essa frase foi ela. O papo está meio longo sempre é bom ajudá-lo com essas intervenções. Ele respondeu, um pouco desconcertado de início:
- C-Certo! Não que isso seja uma grande mentir-
– Ei, seu safado! – disse Marisa, dando aquele tapinha no ombro de Marcelo, daqueles que querem dizer “Preciso te recriminar perante a sociedade, mas você mandou bem nessa. Keep moving!”
- O fato é que antes de entrar em você – ao dizer isso, ele rapidamente protegeu o ombro – eu quero saber se você vale a pena. Ou seja : antes do ato físico, o mínimo de afinidade intelectual.
– Não seja cínico! Se eu te atacasse aqui e te puxasse pra transar no banheiro você iria sem pestanejar …
– Olha … num vou mentir pra senhor- outro tapa daqueles no ombro do nosso protagonista – mas, como você realmente me pareceu interessante, talvez algo além dessa divertida forma de entretenimento sexual pode ser experimentado.
– E tudo isso pelo jeito que eu coloquei o cabelo entre os lábios como qu-
– Quem coloca os cabelos entre os lábios! Isso!
– Só por isso?!
– Precisa mais do que isso?!
– Vocês homens são completamente loucos!
Marcelo fingindo uma conversa: – “Que horas são?” “Meia-noite e meia!”. Desculpa, nada de louco nessa conversa.
– O que fazemos então … ?
– Olha, o banheiro está aqui do lado … Andei reconsiderando minhas opiniões e como não quero parecer intransigente, acho, já que é sua vontade, que podemos trans-
Outro tapa, seguido de : – BESTA!
- São seus olhos …
– Vamos lá então … Como eu faço pra deixar você entrar na minha vida?
– Pode começar me dando seu telefone.
– Ok! O número é … – (para preservar a privacidade de nossa querida personagem, não transcreverei aqui o número, mas garanto, é fácil de se decorar).
– Muito bem! Está anotado. Tenho que ir agora, mas te ligo amanhã.
– Então tá.
– Ah, caso você não saiba: quando eu te ligar, você atende, ok? É assim que funciona.
Mais um tapa. Ele continua :
- Olha, acabaram de liberar o banheiro, tem certeza qu-
Desta vez ela só ameaçou o tapa. Marcelo, muito sério, fazia a pose em “T” do golpe final em Karate Kid.
– Vai embora logo, e vê se liga mesmo!
– Sim senhora!
E assim, começou a história do relacionamento entre os personagens desta crônica. Se deu certo ou não, nem eu sei ainda. Só posso dizer que mesmo sem que ambos soubessem, Marcelo já tinha entrado na vida de Marisa. E ninguém pode falar que ele não pediu.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O velho Buk
Lembro bem quando me caiu nas mãos o meu primeiro Bukowski.
Cartas na Rua.
Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina.
Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.
Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê.
Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê.
Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.
Passei a odiar personagens que cofiam.
Um personagem simplesmente não pode cofiar.
Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia.
Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.
Mas o Velho Buk não tinha nada disso.
O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.
Bem.
Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke: – Todas as pessoas precisam ler o John Fante! Uau! Era importante aquilo.
Fui ler o John Fante.
Pergunte ao Pó.
Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk.
E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.
Charles Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou: – Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini.
Gostaria de poder dizer isso.
Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade.
E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.
Cartas na Rua.
Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina.
Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.
Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê.
Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê.
Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.
Passei a odiar personagens que cofiam.
Um personagem simplesmente não pode cofiar.
Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia.
Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.
Mas o Velho Buk não tinha nada disso.
O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.
Bem.
Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke: – Todas as pessoas precisam ler o John Fante! Uau! Era importante aquilo.
Fui ler o John Fante.
Pergunte ao Pó.
Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk.
E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.
Charles Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou: – Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini.
Gostaria de poder dizer isso.
Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade.
E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.
sábado, 21 de julho de 2012
A Falácia do Solteiro
Poucas frases me provocam tanta vontade de rir como:
- Ah se seu tivesse solteiro! Essa loira ia ver só …
Desculpe amigo, ela não ia ver nada que já não estivesse vendo.
Fico impressionado como a maioria dos homens que namoram/casam/se enrolam/etc. e tal, por um tempo razoável, começam a se sentir como grandes pegadores reprimidos.
Só porque já estão há um tempo com o “burro amarrado na sombra”, sentem que o mundo se transformou num cardápio delicioso de mulheres ao seu dispor que, infelizmente, eles não podem apreciar pela sua condição de “commited” (como dizia o orkut).
Não, amigos indisponíveis! Elas não estão ao seu dispor. Se você se esforçar um pouco pra se lembrar, quando solteiro você passava tanta vontade ao sentar num bar no verão, num sábado a noite, como passa agora, ao tentar disfarçar da sua pequena o olhar praquela morena gostosa de vestidinho, que teima em passar na sua frente o tempo todo, SÓ pra te provocar (nada a ver com o fato dela ser a garçonete daquela área do bar, imagina…).
Ok, devo reconhecer que o parágrafo anterior não se aplica ao Ricardo Mansur, Rodrigo Santoro, George Clooney e mais 3 ou 4. Mas, excluindo esses caras, todos nós, homens desgraçadamente comuns, não fazemos porcaria nenhuma em 90% dessas situações. A única vantagem da solteirice, no caso, é poder olhar pra tal morena sem táticas canalhas de disfarce.
O problema é que nos outros 10% fazemos algo. E aí dependendo das condições normais de temperatura e pressão a bola entra. Gol!!
E são essas bolas criam a tal “Falácia do Solteiro”.
Realmente existem noites (e dias) na solteirice, que seriam dignas de serem contadas pelo Hugh Hefner. Todo homem solteiro tem seus momentos. O grande problema é se enganar sentenciando a coitada da namorada/esposa/rolo/etc. e tal, como a grande culpada pela privação desses momentos mágicos. Mentira. Calúnia!
A moça não tem nada com isso, amigo. Você não ia fazer nada com a garçonete. Eu garanto. Se o relacionamento está bom, dê valor àquela que está com a mão repousada na sua coxa, mesmo você olhando praquela mocréia com um vestido breeega, que você ganha mais.
E pra piorar, existe a fase 2 (e mais perigosa) dessa falácia : o fim de relacionamento.
Conheço muitos caras que depois de décadas pra conseguir sair de um relacionamento doentio, daqueles que só existiam de verdade no status do Facebook, começam a questionar a solteirice, reconsiderando voltar pro inferno que estavam. O motivo?
- Num tenho ninguém pra sair esse sábado! Se for pra ficar sozinho, volto pra Fulana (também conhecida como aquela que xinguei pelos últimos 9 meses da minha vida).
Então, animal! É assim que funciona. Lembra que você vivia reclamando dos sábados que tinha que sair com aqueles amigos idiotas da mala da sua namorada? Pois bem, na solteirice vão existir noites tão chatas como aquelas (e você aí reclamando, sendo que seu PS3 ainda está coberto de pó e já faz 2 semanas que você acabou o namoro!).
Enfim … não sou a favor da solteirice, nem do comprometimento. Apenas sou a favor das coisas feitas pelos motivos certos.
Se está com alguém e na média a relação está legal. Fique feliz! Isso é cada vez mais raro.
Se está solteiro, curta! E aproveita o lado bom disso sem medo, mesmo que a carência bata na porta de vez em quando.
A sabedoria está em se reconhecer que mesmo com os motivos certos (seja comprometido, seja solteiro) terão momentos que o outro lado vai parecer muito mais divertido. E não se pode culpar ninguém por isso. É assim que as coisas funcionam. Não se pode ter tudo.
- Ah se seu tivesse solteiro! Essa loira ia ver só …
Desculpe amigo, ela não ia ver nada que já não estivesse vendo.
Fico impressionado como a maioria dos homens que namoram/casam/se enrolam/etc. e tal, por um tempo razoável, começam a se sentir como grandes pegadores reprimidos.
Só porque já estão há um tempo com o “burro amarrado na sombra”, sentem que o mundo se transformou num cardápio delicioso de mulheres ao seu dispor que, infelizmente, eles não podem apreciar pela sua condição de “commited” (como dizia o orkut).
Não, amigos indisponíveis! Elas não estão ao seu dispor. Se você se esforçar um pouco pra se lembrar, quando solteiro você passava tanta vontade ao sentar num bar no verão, num sábado a noite, como passa agora, ao tentar disfarçar da sua pequena o olhar praquela morena gostosa de vestidinho, que teima em passar na sua frente o tempo todo, SÓ pra te provocar (nada a ver com o fato dela ser a garçonete daquela área do bar, imagina…).
Ok, devo reconhecer que o parágrafo anterior não se aplica ao Ricardo Mansur, Rodrigo Santoro, George Clooney e mais 3 ou 4. Mas, excluindo esses caras, todos nós, homens desgraçadamente comuns, não fazemos porcaria nenhuma em 90% dessas situações. A única vantagem da solteirice, no caso, é poder olhar pra tal morena sem táticas canalhas de disfarce.
O problema é que nos outros 10% fazemos algo. E aí dependendo das condições normais de temperatura e pressão a bola entra. Gol!!
E são essas bolas criam a tal “Falácia do Solteiro”.
Realmente existem noites (e dias) na solteirice, que seriam dignas de serem contadas pelo Hugh Hefner. Todo homem solteiro tem seus momentos. O grande problema é se enganar sentenciando a coitada da namorada/esposa/rolo/etc. e tal, como a grande culpada pela privação desses momentos mágicos. Mentira. Calúnia!
A moça não tem nada com isso, amigo. Você não ia fazer nada com a garçonete. Eu garanto. Se o relacionamento está bom, dê valor àquela que está com a mão repousada na sua coxa, mesmo você olhando praquela mocréia com um vestido breeega, que você ganha mais.
E pra piorar, existe a fase 2 (e mais perigosa) dessa falácia : o fim de relacionamento.
Conheço muitos caras que depois de décadas pra conseguir sair de um relacionamento doentio, daqueles que só existiam de verdade no status do Facebook, começam a questionar a solteirice, reconsiderando voltar pro inferno que estavam. O motivo?
- Num tenho ninguém pra sair esse sábado! Se for pra ficar sozinho, volto pra Fulana (também conhecida como aquela que xinguei pelos últimos 9 meses da minha vida).
Então, animal! É assim que funciona. Lembra que você vivia reclamando dos sábados que tinha que sair com aqueles amigos idiotas da mala da sua namorada? Pois bem, na solteirice vão existir noites tão chatas como aquelas (e você aí reclamando, sendo que seu PS3 ainda está coberto de pó e já faz 2 semanas que você acabou o namoro!).
Enfim … não sou a favor da solteirice, nem do comprometimento. Apenas sou a favor das coisas feitas pelos motivos certos.
Se está com alguém e na média a relação está legal. Fique feliz! Isso é cada vez mais raro.
Se está solteiro, curta! E aproveita o lado bom disso sem medo, mesmo que a carência bata na porta de vez em quando.
A sabedoria está em se reconhecer que mesmo com os motivos certos (seja comprometido, seja solteiro) terão momentos que o outro lado vai parecer muito mais divertido. E não se pode culpar ninguém por isso. É assim que as coisas funcionam. Não se pode ter tudo.
domingo, 17 de junho de 2012
Salada de Frutas
Aquele parecia ser apenas mais um almoço comum. Eu estava na fila do buffet de um simpático restaurante por quilo próximo ao meu trabalho. Distraído, preocupado em nada além do que escolher a comida. Só isso.
Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).
Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.
Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.
Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.
Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.
Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.
Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.
De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.
Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.
Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.
Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.
Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.
Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.
Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.
Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.
Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.
Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?
Fui embora.
Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.
Talvez nem tudo ainda esteja perdido …
Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).
Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.
Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.
Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.
Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.
Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.
Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.
De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.
Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.
Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.
Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.
Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.
Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.
Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.
Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.
Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.
Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?
Fui embora.
Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.
Talvez nem tudo ainda esteja perdido …
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Devagar, Divagar Ou De Vagar
Foi bom me avisar
Que a ponte estava livre
Mas não era fácil atravessar
E lá foi bom me despistar
Mas seu mapa era tão lindo
Que eu não consegui me desgrudar (me desgrudar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
A um passo de acertar
O tempo das sementes
Que já começaram a brotar
Então vá, vá colher e abraçar
Que as flores estão vivas
Perfumando a casa em que vamos morar (vamos morar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Me espere pro jantar
Tô indo com amigos
Por quem acabei de me apaixonar
Me dá, vontade que me dá
Saudade que só passa
Tendo eu e você no mesmo lugar (no mesmo lugar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar (devagar)
Que a ponte estava livre
Mas não era fácil atravessar
E lá foi bom me despistar
Mas seu mapa era tão lindo
Que eu não consegui me desgrudar (me desgrudar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
A um passo de acertar
O tempo das sementes
Que já começaram a brotar
Então vá, vá colher e abraçar
Que as flores estão vivas
Perfumando a casa em que vamos morar (vamos morar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Me espere pro jantar
Tô indo com amigos
Por quem acabei de me apaixonar
Me dá, vontade que me dá
Saudade que só passa
Tendo eu e você no mesmo lugar (no mesmo lugar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar (devagar)
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Um novo Homem
Homem. Ser forte. Duro, Insensível. Nunca derrama uma lágrima. Homem afinal. Arruma a torneira, troca o pneu. Homem. Forte. Insensível.
Bela descrição para tempos atrás. Hoje o homem evoluiu. Sente, ama, chora. E que evolução podemos dizer. Afinal negar instintos é um atraso incalculável. “Oh yes i was a great pretender!”. Mas não finjo mais.
O novo homem gosta de falar que ama, não deixa de assumir quando está com medo e amigo-irmão merece beijo no rosto. Lógico que sem boiolice. “Sô macho pô”.
Isso é tanto verdade que os papos nas mesas de bar andam mudando. Os homens não procuram mais a maior quantidade e sim qualidade. Frases como “Vamo catá as piriguete!!!” estão dando lugar a “Preciso arrumar uma mulher direita”.
O espírito de coletividade continua como sempre mas foi desviado para novos usos. Em vez de ” Vou agitar aquela perva pra você” ouve-se “Cara, eu não vou deixar você cair no mundo da putaria de novo.”
Existem novos homens compromissados também. Hoje em vez de aproveitar qualquer brecha pra sair escondido, faz questão de levar a cônjuge ou ao menos avisar onde, quando e com quem vai. Não por controle e sim por respeito. O novo homem compromissado já deixa a mulher sentindo saudade. Ele aprendeu a valorizar pois sabe que a demanda está altíssima mas a oferta mínima.
Por tudo isso, mulheres deliciem-se, pois cada vez mais encontramos homens que ligam pra dizer que estão com saudade, correm de mulheres prosmícuas e só esperam por você pra dizer: “Eu te amo”. Mas preparem-se, pois se um dia você estiver num sítio, ouvir um barulho e pedir pra ele ver o que é não estranhem se ele estiver embaixo da cama.
Bela descrição para tempos atrás. Hoje o homem evoluiu. Sente, ama, chora. E que evolução podemos dizer. Afinal negar instintos é um atraso incalculável. “Oh yes i was a great pretender!”. Mas não finjo mais.
O novo homem gosta de falar que ama, não deixa de assumir quando está com medo e amigo-irmão merece beijo no rosto. Lógico que sem boiolice. “Sô macho pô”.
Isso é tanto verdade que os papos nas mesas de bar andam mudando. Os homens não procuram mais a maior quantidade e sim qualidade. Frases como “Vamo catá as piriguete!!!” estão dando lugar a “Preciso arrumar uma mulher direita”.
O espírito de coletividade continua como sempre mas foi desviado para novos usos. Em vez de ” Vou agitar aquela perva pra você” ouve-se “Cara, eu não vou deixar você cair no mundo da putaria de novo.”
Existem novos homens compromissados também. Hoje em vez de aproveitar qualquer brecha pra sair escondido, faz questão de levar a cônjuge ou ao menos avisar onde, quando e com quem vai. Não por controle e sim por respeito. O novo homem compromissado já deixa a mulher sentindo saudade. Ele aprendeu a valorizar pois sabe que a demanda está altíssima mas a oferta mínima.
Por tudo isso, mulheres deliciem-se, pois cada vez mais encontramos homens que ligam pra dizer que estão com saudade, correm de mulheres prosmícuas e só esperam por você pra dizer: “Eu te amo”. Mas preparem-se, pois se um dia você estiver num sítio, ouvir um barulho e pedir pra ele ver o que é não estranhem se ele estiver embaixo da cama.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Sandy, UFC e um Fantástico Mundo no Domingo a Noite
Domingão.
Eu, no comando, trocando de canais.
Aí, de repente, o extraordinário.
A frágil Sandy no meio dos brutamontes do UFC.
Não é Fantástico?
Um deles, com seus braços de lenhador, sua cara de torcedor dos Gaviões da Fiel e suas tatuagens horrendas (como são feias essas tatuagens que cobrem um braço inteiro), confessava ser uma manteiga.
Ficou com os olhos cheios de lágrimas.
Não é mais do que Fantástico?
É.
Aí a doce Sandy visitava a cozinha dos rapazes.
Uma baderna.
Então a delicada moça ia para o quarto com eles.
Quer dizer, ia ao quarto deles.
Então, mais do que nunca, o inusitado.
Eles mostraram para ela as suas cuequinhas.
Cuequinhas coloridas.
Cuequinhas de super-herói.
Que fofos!
Sem dúvida, o UFC é inofensivo.
Um joguinho de bons meninos de cuequinha de gibi.
Dormi confortado.
Um outro mundo é possível.
Eu, no comando, trocando de canais.
Aí, de repente, o extraordinário.
A frágil Sandy no meio dos brutamontes do UFC.
Não é Fantástico?
Um deles, com seus braços de lenhador, sua cara de torcedor dos Gaviões da Fiel e suas tatuagens horrendas (como são feias essas tatuagens que cobrem um braço inteiro), confessava ser uma manteiga.
Ficou com os olhos cheios de lágrimas.
Não é mais do que Fantástico?
É.
Aí a doce Sandy visitava a cozinha dos rapazes.
Uma baderna.
Então a delicada moça ia para o quarto com eles.
Quer dizer, ia ao quarto deles.
Então, mais do que nunca, o inusitado.
Eles mostraram para ela as suas cuequinhas.
Cuequinhas coloridas.
Cuequinhas de super-herói.
Que fofos!
Sem dúvida, o UFC é inofensivo.
Um joguinho de bons meninos de cuequinha de gibi.
Dormi confortado.
Um outro mundo é possível.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Como encarar a dor?
Estava eu navegando pela internet, quando me deparei com um post sobre dor. Mais especificamente sobre um estudo que indica que olhar para a fonte da dor pode reduzir a sensação dela.
O estudo trata obviamente de dores físicas, mas a primeira coisa que pensei foi: "E pra dor psicológica?".
Bem, ainda que seja muito bonito falar que devemos encarar a dor, reconhecer e enfrentar seja lá o que/quem esteja causando, não consigo acreditar que seja verdadeiramente a melhor opção. Ao menos não sempre.
Acredito sim que problemas devem ser encarados, sempre, e qualquer que seja. Mas problemas são diferentes de dores. Afinal, se você quebrou um braço (problema), mesmo o engessando (solução) não se livra da dor (errr...dor). A dor é consequência de um problema que é a causa.
Eu sou um tanto masoquista. Quando estou com torcicolo fico forçando o pescoço no sentido em que está o problema. Não sei porque, acho que vai ajudar. Então me exponho muitas vezes a dor achando que um tratamento de choque pode resolver seja lá o que for. Ou resolve ou me mata logo de uma vez.
Não funciona. Certos problemas se alimentam de atenção. Com atenção ganham relevância e com relevância já viu né? Assim, entendo que certas dores devem ser enterradas, sepultadas e se posssível, esquartejadas para que fique impossível de ser rastreada. Se precisar tomar analgésico, anestésico, seja o que for, que seja. O que importa é deixar essa dor escondida, sufocada, pra que aos poucos morra sem ar, asfixiada pela falta de atenção.
A pesquisa indica que em vez de virar o rosto ao sentir dor, é melhor encará-la. Tudo bem, a próxima vez que bater meu dedinho contra uma quina farei isso, mas quando derem com uma marreta no meu coração vou fingir que não é comigo.
PS: Happy Valentine's Day nessa segunda! Rs...
O estudo trata obviamente de dores físicas, mas a primeira coisa que pensei foi: "E pra dor psicológica?".
Bem, ainda que seja muito bonito falar que devemos encarar a dor, reconhecer e enfrentar seja lá o que/quem esteja causando, não consigo acreditar que seja verdadeiramente a melhor opção. Ao menos não sempre.
Acredito sim que problemas devem ser encarados, sempre, e qualquer que seja. Mas problemas são diferentes de dores. Afinal, se você quebrou um braço (problema), mesmo o engessando (solução) não se livra da dor (errr...dor). A dor é consequência de um problema que é a causa.
Eu sou um tanto masoquista. Quando estou com torcicolo fico forçando o pescoço no sentido em que está o problema. Não sei porque, acho que vai ajudar. Então me exponho muitas vezes a dor achando que um tratamento de choque pode resolver seja lá o que for. Ou resolve ou me mata logo de uma vez.
Não funciona. Certos problemas se alimentam de atenção. Com atenção ganham relevância e com relevância já viu né? Assim, entendo que certas dores devem ser enterradas, sepultadas e se posssível, esquartejadas para que fique impossível de ser rastreada. Se precisar tomar analgésico, anestésico, seja o que for, que seja. O que importa é deixar essa dor escondida, sufocada, pra que aos poucos morra sem ar, asfixiada pela falta de atenção.
A pesquisa indica que em vez de virar o rosto ao sentir dor, é melhor encará-la. Tudo bem, a próxima vez que bater meu dedinho contra uma quina farei isso, mas quando derem com uma marreta no meu coração vou fingir que não é comigo.
PS: Happy Valentine's Day nessa segunda! Rs...
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Caindo de maduro
Se tem uma pergunta que me faço constantemente é: “O que é amadurecer?”. Não é nem questão de curiosidade, é para uso próprio, senão, como farei para saber se eu estou amadurecendo.
Depois que me livrei do peso de achar que amadurecer era se iludir com estabilidade, se vestir com roupas desconfortáveis e basicamente fazer todo o resto que esperam que você faça, fiquei meio perdido.
Eu poderia aceitar que sim, aos 30 anos eu já deveria estar casado, ter filhos, um excelente emprego(pois bom já tenho), só me embriagar em churrascos de amigos próximos e ter a certeza que levaria uma bronca da esposa quando chegasse em casa. Não seria confortável, mas seria mais...simples.
Seguindo o caminho dos “rebeldes”, em que amadurecer é uma questão bem mais complexa do que contas e protocolos sociais, fico bem perdido sobre o que deveria estar fazendo o homem maduro. Deveria parar de gastar o dinheiro que não tem em viagens e brinquedos? Deveria se preocupar mais com o futuro? Deveria ter um plano de previdência privada?
Acho que não. Acho que tais questões tem mais a ver com a personalidade de cada um e de como estes obtém paz de espírito no presente. Amadurecer deve estar mais no fundo. Deve ser mais pessoal.
Daí eu penso que a cada dia que passa me sinto mais sozinho. Não solitário, sozinho. Não porque me abandonaram, mas porque eu percebi isso, antes que uns, depois de outros.
Não importa quantos amigos você tenha, se é casado ou solteiro, se sua família é unida ou não. Em nossas análises, decisões, perguntas, sempre estamos sozinhos. Não dá pra trazer alguém para dentro de nossas cabeças. Não dá para fazê-los sentir o que sentimos quando encaramos cada opção. Não dá para imprimir em seus dnas, nossas dificuldades físicas, muito menos compartilhar nosso repertório de experiências.
Felizes ou tristes, estamos sozinhos, e o que entendemos como companhia são as projeções de todos que nos cercam. As outras pessoas não estão juntas de nós, e sim o que esperamos e enxergamos delas. Que sim, podem ser impressões corretas, mas sejamos realistas, quanto de você mesmo é mostrado pro mundo? Quanto do que te define está trancafiado e não é compartilhado nem mesmo com seu consciente?
Talvez amadurecer esteja relacionado com a essa epifania. Com essa lucidez que transforma completamente nossa percepção de mundo. Mexe com nossa tolerância, empatia e expectativas para com o mundo, e esse povo todo que está em cima dele.
Quem sabe amadurecer seja entender esse mundo, aceitá-lo e não enlouquecer. Não entrar em profunda melancolia causada pelo que nos prometeram por anos e anos. Pela clara realização de que não existe mundo feliz, família feliz ou coletivo algum feliz. Existe indivíduo, feliz, triste ou qualquer outro estado de espírito. Este indivíduo pode ter a sorte de sincronizar sua felicidade com a dos outros, ou pode simplesmente não dar importância. Pode entender que o mundo não tem que ficar excitado porque ele está feliz, nem compreensivo porque ele está triste.
Hoje, esse indivíduo aqui do outro lado da tela está apreensivo, amedrontado, desamparado. Mas eu entendo que o mundo não. Eu entendo que meus amigos estão cada um em seu estado, e eles não são menos amigos meus por isso. Não digo que não doa, não digo que não queria que o mundo parasse para olhar pra mim, que todos parassem de rir enquanto eu choro. É falta de respeito. Assumo, pois já desisti de mentir para mim mesmo. Mas fazer o que? Não posso mais fazer como antigamente e espernar. Eu amadureci, né?
Depois que me livrei do peso de achar que amadurecer era se iludir com estabilidade, se vestir com roupas desconfortáveis e basicamente fazer todo o resto que esperam que você faça, fiquei meio perdido.
Eu poderia aceitar que sim, aos 30 anos eu já deveria estar casado, ter filhos, um excelente emprego(pois bom já tenho), só me embriagar em churrascos de amigos próximos e ter a certeza que levaria uma bronca da esposa quando chegasse em casa. Não seria confortável, mas seria mais...simples.
Seguindo o caminho dos “rebeldes”, em que amadurecer é uma questão bem mais complexa do que contas e protocolos sociais, fico bem perdido sobre o que deveria estar fazendo o homem maduro. Deveria parar de gastar o dinheiro que não tem em viagens e brinquedos? Deveria se preocupar mais com o futuro? Deveria ter um plano de previdência privada?
Acho que não. Acho que tais questões tem mais a ver com a personalidade de cada um e de como estes obtém paz de espírito no presente. Amadurecer deve estar mais no fundo. Deve ser mais pessoal.
Daí eu penso que a cada dia que passa me sinto mais sozinho. Não solitário, sozinho. Não porque me abandonaram, mas porque eu percebi isso, antes que uns, depois de outros.
Não importa quantos amigos você tenha, se é casado ou solteiro, se sua família é unida ou não. Em nossas análises, decisões, perguntas, sempre estamos sozinhos. Não dá pra trazer alguém para dentro de nossas cabeças. Não dá para fazê-los sentir o que sentimos quando encaramos cada opção. Não dá para imprimir em seus dnas, nossas dificuldades físicas, muito menos compartilhar nosso repertório de experiências.
Felizes ou tristes, estamos sozinhos, e o que entendemos como companhia são as projeções de todos que nos cercam. As outras pessoas não estão juntas de nós, e sim o que esperamos e enxergamos delas. Que sim, podem ser impressões corretas, mas sejamos realistas, quanto de você mesmo é mostrado pro mundo? Quanto do que te define está trancafiado e não é compartilhado nem mesmo com seu consciente?
Talvez amadurecer esteja relacionado com a essa epifania. Com essa lucidez que transforma completamente nossa percepção de mundo. Mexe com nossa tolerância, empatia e expectativas para com o mundo, e esse povo todo que está em cima dele.
Quem sabe amadurecer seja entender esse mundo, aceitá-lo e não enlouquecer. Não entrar em profunda melancolia causada pelo que nos prometeram por anos e anos. Pela clara realização de que não existe mundo feliz, família feliz ou coletivo algum feliz. Existe indivíduo, feliz, triste ou qualquer outro estado de espírito. Este indivíduo pode ter a sorte de sincronizar sua felicidade com a dos outros, ou pode simplesmente não dar importância. Pode entender que o mundo não tem que ficar excitado porque ele está feliz, nem compreensivo porque ele está triste.
Hoje, esse indivíduo aqui do outro lado da tela está apreensivo, amedrontado, desamparado. Mas eu entendo que o mundo não. Eu entendo que meus amigos estão cada um em seu estado, e eles não são menos amigos meus por isso. Não digo que não doa, não digo que não queria que o mundo parasse para olhar pra mim, que todos parassem de rir enquanto eu choro. É falta de respeito. Assumo, pois já desisti de mentir para mim mesmo. Mas fazer o que? Não posso mais fazer como antigamente e espernar. Eu amadureci, né?
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
10 coisas que um Homem pode aprender com os Bebês
• Não seguro o choro.
Você conseguiu a sua primeira refeição chorando, mais tarde o seu primeiro brinquedo e algumas pessoas até o seu primeiro carro. Não tenha vergonha de chorar, não faça manha, só não tenha medo de se expor.
• Faça apenas o que você sabe fazer bem.
O bebê sabe fazer necessidades, chorar e mamar. Ele não sai por ai tentando dirigir um trator. Ele não da um passo maior que a perna, ele vai com calma aprendendo uma coisa de cada vez. Pense nos seus projetos que deram errado, quantos realmente nunca iriam dar certo e quantos foram executados antes da hora?
• Não tenha medo de pedir ajuda.
Quando a coisa apertar “corra pra mamãe” sem vergonha nenhuma. Corra pra namorada, esposa, companheira, etc. Peça ajuda por que sozinho não conseguimos nada.
• Observe mais e fale menos.
Nunca subestime o poder da observação. Se as mulheres falam mais é por que têm mais coisas (e muito mais interessantes) à dizer. Preste atenção pode ter certeza que sua taxa de sucesso ao tentar conquista-las irá subir exponencialmente.
• Sorria mais vezes ao dia.
Realmente um sorriso te leva longe. Sorria por motivos mais simples, não seja tão exigente, as felicidade esta nas pequenas coisas.
• Ame sua família.
Com o tempo a tendência é nos distanciarmos de quem nos criou. Esta certo que crescemos e precisamos ter nossas próprias vidas, mas faça de um costume um almoço ou jantar uma vez por semana, você nunca sabe por quanto tempo os terá na sua vida.
• Coma direito.
Tudo bem o bebê não tem opção então é muito mais fácil. Mas tente comer coisas mais saudáveis. Não abra mão do junk food se ela te faz feliz, mas não esqueça que você vai envelhecer e vai precisar de todas as vitaminas que hoje a falta passa despercebida.
• Esteja cheiroso o tempo inteiro.
O perfume marca um momento, você tem que ter certeza que irão lembrar de você como uma pessoa cheirosa. Você pode falar que as vezes é impossível estar com cheiro de banho, por exemplo no fim da balada. Isso não é desculpa. Não economize na hora de comprar desodorante, compre um que fique até o outro dia de manhã, lave o rosto toda vez que for ao banheiro para evitar o cheiro de suor e deixe sempre um perfume no porta luvas do carro.
• Durma o quanto puder.
Balada atrás de balada + acordar cedo pra trabalhar vai ter deixar acabado antes dos 40. Valorize mais suas horas de sono e escolha com mais discernimento quais baladas valem a pena você ir.
• Não tenha medo de crescer.
Não pense na passagem de anos como envelhecimento. Pense em amadurecimento.
Você conseguiu a sua primeira refeição chorando, mais tarde o seu primeiro brinquedo e algumas pessoas até o seu primeiro carro. Não tenha vergonha de chorar, não faça manha, só não tenha medo de se expor.
• Faça apenas o que você sabe fazer bem.
O bebê sabe fazer necessidades, chorar e mamar. Ele não sai por ai tentando dirigir um trator. Ele não da um passo maior que a perna, ele vai com calma aprendendo uma coisa de cada vez. Pense nos seus projetos que deram errado, quantos realmente nunca iriam dar certo e quantos foram executados antes da hora?
• Não tenha medo de pedir ajuda.
Quando a coisa apertar “corra pra mamãe” sem vergonha nenhuma. Corra pra namorada, esposa, companheira, etc. Peça ajuda por que sozinho não conseguimos nada.
• Observe mais e fale menos.
Nunca subestime o poder da observação. Se as mulheres falam mais é por que têm mais coisas (e muito mais interessantes) à dizer. Preste atenção pode ter certeza que sua taxa de sucesso ao tentar conquista-las irá subir exponencialmente.
• Sorria mais vezes ao dia.
Realmente um sorriso te leva longe. Sorria por motivos mais simples, não seja tão exigente, as felicidade esta nas pequenas coisas.
• Ame sua família.
Com o tempo a tendência é nos distanciarmos de quem nos criou. Esta certo que crescemos e precisamos ter nossas próprias vidas, mas faça de um costume um almoço ou jantar uma vez por semana, você nunca sabe por quanto tempo os terá na sua vida.
• Coma direito.
Tudo bem o bebê não tem opção então é muito mais fácil. Mas tente comer coisas mais saudáveis. Não abra mão do junk food se ela te faz feliz, mas não esqueça que você vai envelhecer e vai precisar de todas as vitaminas que hoje a falta passa despercebida.
• Esteja cheiroso o tempo inteiro.
O perfume marca um momento, você tem que ter certeza que irão lembrar de você como uma pessoa cheirosa. Você pode falar que as vezes é impossível estar com cheiro de banho, por exemplo no fim da balada. Isso não é desculpa. Não economize na hora de comprar desodorante, compre um que fique até o outro dia de manhã, lave o rosto toda vez que for ao banheiro para evitar o cheiro de suor e deixe sempre um perfume no porta luvas do carro.
• Durma o quanto puder.
Balada atrás de balada + acordar cedo pra trabalhar vai ter deixar acabado antes dos 40. Valorize mais suas horas de sono e escolha com mais discernimento quais baladas valem a pena você ir.
• Não tenha medo de crescer.
Não pense na passagem de anos como envelhecimento. Pense em amadurecimento.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Ela foi experimentar um biquíni
Ela disse que ia só experimentar um biquíni, bem ligeirinho, e entrou na loja. Fiquei na porta, esperando. O que mais poderia fazer, senão ficar na porta, esperando? Suspirei. Olhei para a calçada do outro lado da rua, para me distrair. Um cachorro preto, desses vira-latas, de tamanho médio, dormia enrodilhado em frente a uma padaria fechada. Não havia nada aberto àquela hora, só a loja de biquínis. Voltei-me novamente para dentro da loja.
As atendentes, umas quatro ou cinco, me olhavam lá do fundo. O que estariam pensando? "Aí está mais um babaca na porta, esperando a namorada escolher biquíni". Acho que riam de mim. Só podiam estar rindo. Também, o cara fica mesmo com jeito de abobado esperando alguém numa porta de loja. Tinha apoiado o peso do corpo no pé direito; troquei para o esquerdo. O cachorro preto do outro lado da rua acordou, piscou uma ou duas vezes, mas não fez menção de se levantar.
A namorada havia sumido. Devia estar no provador. Quanto tempo uma mulher leva para experimentar um ou dois biquínis? Um biquíni é tão pequeno… Tirar os chinelos é rápido, zupt, zupt, dois segundos. As calças? Basta baixar o zíper, abrir um botão, arriar uma perna, depois outra. Digamos, cinco segundos. Mais a blusa, puxada pela cabeça, acomodada com critério no gancho da parede, outros cinco segundos. Total: 17 segundos.
Mas deixemos por 20. Trinta, até. Outros 30 para experimentar um biquíni, 30 se mirando no espelho, mais 30 para outro biquíni e 30 se admirando de novo. Operação completa, contando que ela precisa vestir as calças e a blusa de novo, uns quatro minutos. Arredondando, cinco. É bastante, cinco. Tudo bem, as mulheres são demoradas mesmo, cinco é razoável.
Mas já se haviam passado cinco minutos, quem sabe oito ou nove, o cachorro se erguera preguiçosamente e farejava o ar sem grande interesse. Juntei as mãos às costas num gesto que, lembro, meu avô repetia muito. Depois cruzei os braços diante do peito. Levei as mãos à cintura. Cocei a cabeça. Suspirei outra vez.
Ouvi risadas femininas. Ah, mas aquelas gurias da loja estavam tirando o maior sarro de mim, isso era certo. Muito engraçado, de fato, um imbecil parado na frente de uma loja, sem fazer nada, só observando um cachorro preto na calçada. Aliás, onde é que estava o maldito cachorro preto? Como conseguira sumir tão rapidamente? Bom, talvez não tivesse sido tão rápido — eu devia estar há uns 20 minutos ali. Não queria mais olhar lá para dentro, para aquelas atendentes debochadas, e agora o cachorro se fora.
Oh, Cristo.
Ah, salvação: uma mosca acabara de pousar na vidraça da vitrine. Uma mosca gorda, dessas de verão, lerdas. São alvos fáceis, essas moscas obesas de verão, ainda mais se pousam em vidraças. Por que as moscas engordam no verão? Nós humanos engordamos no inverno. Feijoada e tal. Tive ganas de esmagá-la, mas não tinha nada à mão, um jornal, nada.
Um jornal viria a calhar, mesmo de anteontem. Para ler algo. Até a lista telefônica seria bem-vinda naquele momento de tédio absoluto, de minutos pastosos e angustiantes, como se estivesse afundando na areia movediça. Deixei a mosca ali, passeando pelo vidro. A namorada não saía do provador. Quanto tempo? Trinta e cinco minutos? Quarenta? Não era possível que demorasse tanto assim para experimentar um biquinizinho minúsculo.
Foi me dando uma irritação. Uma irritação, uma irritação, uma irritação.
Uma irritação.
Li em algum lugar que, se você está sozinho e se aborrece, então você não é boa companhia nem para você mesmo. Provavelmente sou uma péssima companhia, porque estava mortalmente chateado de estar comigo mesmo. Como eu estava me chateando a mim próprio, Jesus. Por que eu tinha de estar naquele lugar, onde o tempo não passava, onde nada acontecia, onde tudo parou? Quanto tempo fiquei ali? Pareceram horas.
Quando ela finalmente surgiu, suspirei de alívio. Era como se eu estivesse saindo do presídio. Mas, para minha surpresa, ela veio de mãos vazias.
— E o biquíni? — perguntei, aflito.
E ela, indo-se da loja:
— Não gostei de nada. Vou procurar outra loja, para ver se encontro algo melhor.
As atendentes, umas quatro ou cinco, me olhavam lá do fundo. O que estariam pensando? "Aí está mais um babaca na porta, esperando a namorada escolher biquíni". Acho que riam de mim. Só podiam estar rindo. Também, o cara fica mesmo com jeito de abobado esperando alguém numa porta de loja. Tinha apoiado o peso do corpo no pé direito; troquei para o esquerdo. O cachorro preto do outro lado da rua acordou, piscou uma ou duas vezes, mas não fez menção de se levantar.
A namorada havia sumido. Devia estar no provador. Quanto tempo uma mulher leva para experimentar um ou dois biquínis? Um biquíni é tão pequeno… Tirar os chinelos é rápido, zupt, zupt, dois segundos. As calças? Basta baixar o zíper, abrir um botão, arriar uma perna, depois outra. Digamos, cinco segundos. Mais a blusa, puxada pela cabeça, acomodada com critério no gancho da parede, outros cinco segundos. Total: 17 segundos.
Mas deixemos por 20. Trinta, até. Outros 30 para experimentar um biquíni, 30 se mirando no espelho, mais 30 para outro biquíni e 30 se admirando de novo. Operação completa, contando que ela precisa vestir as calças e a blusa de novo, uns quatro minutos. Arredondando, cinco. É bastante, cinco. Tudo bem, as mulheres são demoradas mesmo, cinco é razoável.
Mas já se haviam passado cinco minutos, quem sabe oito ou nove, o cachorro se erguera preguiçosamente e farejava o ar sem grande interesse. Juntei as mãos às costas num gesto que, lembro, meu avô repetia muito. Depois cruzei os braços diante do peito. Levei as mãos à cintura. Cocei a cabeça. Suspirei outra vez.
Ouvi risadas femininas. Ah, mas aquelas gurias da loja estavam tirando o maior sarro de mim, isso era certo. Muito engraçado, de fato, um imbecil parado na frente de uma loja, sem fazer nada, só observando um cachorro preto na calçada. Aliás, onde é que estava o maldito cachorro preto? Como conseguira sumir tão rapidamente? Bom, talvez não tivesse sido tão rápido — eu devia estar há uns 20 minutos ali. Não queria mais olhar lá para dentro, para aquelas atendentes debochadas, e agora o cachorro se fora.
Oh, Cristo.
Ah, salvação: uma mosca acabara de pousar na vidraça da vitrine. Uma mosca gorda, dessas de verão, lerdas. São alvos fáceis, essas moscas obesas de verão, ainda mais se pousam em vidraças. Por que as moscas engordam no verão? Nós humanos engordamos no inverno. Feijoada e tal. Tive ganas de esmagá-la, mas não tinha nada à mão, um jornal, nada.
Um jornal viria a calhar, mesmo de anteontem. Para ler algo. Até a lista telefônica seria bem-vinda naquele momento de tédio absoluto, de minutos pastosos e angustiantes, como se estivesse afundando na areia movediça. Deixei a mosca ali, passeando pelo vidro. A namorada não saía do provador. Quanto tempo? Trinta e cinco minutos? Quarenta? Não era possível que demorasse tanto assim para experimentar um biquinizinho minúsculo.
Foi me dando uma irritação. Uma irritação, uma irritação, uma irritação.
Uma irritação.
Li em algum lugar que, se você está sozinho e se aborrece, então você não é boa companhia nem para você mesmo. Provavelmente sou uma péssima companhia, porque estava mortalmente chateado de estar comigo mesmo. Como eu estava me chateando a mim próprio, Jesus. Por que eu tinha de estar naquele lugar, onde o tempo não passava, onde nada acontecia, onde tudo parou? Quanto tempo fiquei ali? Pareceram horas.
Quando ela finalmente surgiu, suspirei de alívio. Era como se eu estivesse saindo do presídio. Mas, para minha surpresa, ela veio de mãos vazias.
— E o biquíni? — perguntei, aflito.
E ela, indo-se da loja:
— Não gostei de nada. Vou procurar outra loja, para ver se encontro algo melhor.
sábado, 24 de setembro de 2011
O marido perfeito
Norton era o marido perfeito. Passava o dia cobrindo a mulher Silvia de atenções. Comprava-lhe Sonhos de Valsa. Massageava-lhe os pés com Creme Nívea. Até colou aquele decalco no vidro do carro: “ Eu amo a minha esposa”.
Norton era também o colorado perfeito. Não perdia um jogo do Inter. Era sócio. Só usava cueca vermelha.
Havia apenas um problema que lhe perturbava a tranquilidade, e esse problema tinha pernas longas e macias, cabelos da cor da laranja do céu e pele levemente dourada pelo sol de Santa Catarina.
Clarissa. Era sua colega de escritório e, por algum motivo, passava o dia a tentá-lo. Fazia insinuações, enviava-lhe sorrisos de malícia, roçava-se nele quando passava por sua mesa e, ao cumprimentá-lo, pespegava-lhe um beijo na comissura dos lábios.
Norton ficava angustiado. Chegava a sonhar com ela. Mas não cogitava de trair sua esposa. Até porque as insinuações de Clarissa não passavam disso: insinuações. Eram só olhares oblíquos, sorrisos de lado, brincadeirinhas picantes. Norton jamais teria a ousadia de assediá-la.
Até o dia em que ela decidiu ser explícita. Estava mais linda do que nunca. Vestia jeans tão apertados que Norton deviam ter sido costurados em volta dela. E uma mini blusa que lhe deixava três centímetros de barriga de fora. Norton olhava para aquela faixa de barriga e sentia uma dor no peito. Ela se aproximava e com ela vinha um cheiro de melão maduro que fazia Norton ter vontade de chorar e chamar pela mãe. Ele até gemia:
– Mãe…
Para afugentar maus pensamentos, concentrava-se em Silvia, sua esposinha. Era como a chamava: “ minha esposinha”. Mas naquele dia não adiantou. Porque, naquele dia, Clarissa se aproximou da mesa dele, agachou-se ao seu lado e sussurrou:
– Quer jantar lá em casa na quarta?
Norton começou a tremer. O ar se lhe sumiu dos pulmões. Gaguejou:
– J… j… j… j…
Queria dizer jantar. Não conseguiu. Ela sorriu. Debruçou-se um pouco mais. Ele sentiu o cheiro quente dela. Lágrimas lhe vieram aos olhos.
– Te espero quarta – ciciou ela, e lhe deu uma mordiscada na orelha. Por Deus! Uma mordiscada!
Norton tremia. Clarissa passou o resto do dia olhando para ele e sorrindo. A cada sorriso, os dedos dos pés de Norton se encolhiam. Ele repetia, para si mesmo:
– Ai, mãe… ai, mãe…
Quando chegou em casa, só pensava no convite: quarta, jantar na casa dela… Foi aí que se flagrou: quarta era o dia do jogo do Inter! Puta que pariu, como poderia aceitar um convite daqueles para o dia do jogo do Inter??? Ainda mais que era a decisão da Libertadores! Quer dizer: mais um motivo para não trair sua esposinha. Isso. Decidido. Não trairia a esposinha.
Mesmo tendo tomado a resolução, Norton sonhou a noite inteira com Clarissa nua. Totalmente nua. Foi trabalhar resolvido a ignorá-la. Mas ela… ela… ela veio de minissaia! À vista daquelas pernas sem fim, Norton balbuciou, com uma voz que não parecia ser a dele:
– É de verdade? Aquele convite?
Ela, dengosa, chegando perto, muito perto, disse, apenas:
– Quarta-feira…
Ele miou:
– O Inter joga na quarta-feira.
– Quarta-feira…
Norton correu para o banheiro. Trancou-se lá dentro. Lavou o rosto. E pensou em sua esposinha.
– Ai, esposinha – gemeu. – Ai…
Norton passou mal durante os dias subsequentes. Não conseguia dormir. Nem decidir o que fazer.
Ele, conhecido na cidade como o marido perfeito, o colorado perfeito, ele que se orgulhava de seu matrimônio e de seu coloradismo, ele agora, por uma noite de prazer, sentia abalarem-se suas mais caras convicções.
Então, a quarta-feira chegou. Clarissa, mais linda do que as Cataratas do Iguaçu, dizia:
– Marido perfeito, colorado perfeito: é hoje.
À noite, Norton saiu de casa dizendo que ia ao jogo. De fato, sua intenção era essa. Porém, quando deu por si, estava em frente à casa dela. Pensou naquelas pernas. Em tocá-las. Em lambê-las. E salivou como um lobo.
Raciocinou: vai ser só hoje, só um dia e nunca mais! Vou continuar sendo o marido perfeito, o colorado perfeito, vou, vou!
Saiu correndo do carro. Nem fechou a porta. Subiu as escadas do edifício de dois em dois degraus.
A excitação tomava conta de seu corpo, o sangue latejava em suas frontes. Parou diante da porta do apartamento. Respirou fundo. Acionou a campainha. Norton ouviu o som de passos. Viu que alguém espiava pelo olho mágico. Pensou: será que ela está de baby-doll? A porta se abriu. Vestia abrigo. Usava rabo-de-cavalo. Norton piscou, um tantinho decepcionado. Ela olhou para ele, muito séria.
– Entra – disse, e se foi para dentro do apartamento.
Norton vacilou. Entrou. As horas seguintes foram as mais constrangedoras da sua vida. Clarissa lhe serviu uma pizza vulgar e guaraná diet. Mal falou durante o arremedo de jantar. Ele não conseguiu sequer aproximar-se dela. Era como se entre eles houvesse dois volantes e três zagueiros. Pior: Norton experimentou não sabia qual era o resultado do jogo. Apenas ouvia foguetes espocando. Seriam colorados? Ou, glup, gremistas? Não teve coragem de pedir para que ela ligasse o rádio ou a TV. Percebeu que nada ia acontecer. Disse que ia embora. Ela:
– Tá.
Norton foi se dirigindo para a porta. Ela o acompanhou, impaciente. Ele já ia saindo, mas resolveu descobrir o que, afinal, tinha acontecido naquele apartamento. Perguntou. E Clarissa, como se estivesse muito cansada:
– Francamente, estou decepcionada.
E ele, aflito:
– M-mas p-por quê???
Ela, irritada:
– Porque pensei que, enfim, tinha encontrado o marido perfeito, o colorado perfeito!
E bateu a porta, deixando Norton ali parado, querendo morrer.
Norton era também o colorado perfeito. Não perdia um jogo do Inter. Era sócio. Só usava cueca vermelha.
Havia apenas um problema que lhe perturbava a tranquilidade, e esse problema tinha pernas longas e macias, cabelos da cor da laranja do céu e pele levemente dourada pelo sol de Santa Catarina.
Clarissa. Era sua colega de escritório e, por algum motivo, passava o dia a tentá-lo. Fazia insinuações, enviava-lhe sorrisos de malícia, roçava-se nele quando passava por sua mesa e, ao cumprimentá-lo, pespegava-lhe um beijo na comissura dos lábios.
Norton ficava angustiado. Chegava a sonhar com ela. Mas não cogitava de trair sua esposa. Até porque as insinuações de Clarissa não passavam disso: insinuações. Eram só olhares oblíquos, sorrisos de lado, brincadeirinhas picantes. Norton jamais teria a ousadia de assediá-la.
Até o dia em que ela decidiu ser explícita. Estava mais linda do que nunca. Vestia jeans tão apertados que Norton deviam ter sido costurados em volta dela. E uma mini blusa que lhe deixava três centímetros de barriga de fora. Norton olhava para aquela faixa de barriga e sentia uma dor no peito. Ela se aproximava e com ela vinha um cheiro de melão maduro que fazia Norton ter vontade de chorar e chamar pela mãe. Ele até gemia:
– Mãe…
Para afugentar maus pensamentos, concentrava-se em Silvia, sua esposinha. Era como a chamava: “ minha esposinha”. Mas naquele dia não adiantou. Porque, naquele dia, Clarissa se aproximou da mesa dele, agachou-se ao seu lado e sussurrou:
– Quer jantar lá em casa na quarta?
Norton começou a tremer. O ar se lhe sumiu dos pulmões. Gaguejou:
– J… j… j… j…
Queria dizer jantar. Não conseguiu. Ela sorriu. Debruçou-se um pouco mais. Ele sentiu o cheiro quente dela. Lágrimas lhe vieram aos olhos.
– Te espero quarta – ciciou ela, e lhe deu uma mordiscada na orelha. Por Deus! Uma mordiscada!
Norton tremia. Clarissa passou o resto do dia olhando para ele e sorrindo. A cada sorriso, os dedos dos pés de Norton se encolhiam. Ele repetia, para si mesmo:
– Ai, mãe… ai, mãe…
Quando chegou em casa, só pensava no convite: quarta, jantar na casa dela… Foi aí que se flagrou: quarta era o dia do jogo do Inter! Puta que pariu, como poderia aceitar um convite daqueles para o dia do jogo do Inter??? Ainda mais que era a decisão da Libertadores! Quer dizer: mais um motivo para não trair sua esposinha. Isso. Decidido. Não trairia a esposinha.
Mesmo tendo tomado a resolução, Norton sonhou a noite inteira com Clarissa nua. Totalmente nua. Foi trabalhar resolvido a ignorá-la. Mas ela… ela… ela veio de minissaia! À vista daquelas pernas sem fim, Norton balbuciou, com uma voz que não parecia ser a dele:
– É de verdade? Aquele convite?
Ela, dengosa, chegando perto, muito perto, disse, apenas:
– Quarta-feira…
Ele miou:
– O Inter joga na quarta-feira.
– Quarta-feira…
Norton correu para o banheiro. Trancou-se lá dentro. Lavou o rosto. E pensou em sua esposinha.
– Ai, esposinha – gemeu. – Ai…
Norton passou mal durante os dias subsequentes. Não conseguia dormir. Nem decidir o que fazer.
Ele, conhecido na cidade como o marido perfeito, o colorado perfeito, ele que se orgulhava de seu matrimônio e de seu coloradismo, ele agora, por uma noite de prazer, sentia abalarem-se suas mais caras convicções.
Então, a quarta-feira chegou. Clarissa, mais linda do que as Cataratas do Iguaçu, dizia:
– Marido perfeito, colorado perfeito: é hoje.
À noite, Norton saiu de casa dizendo que ia ao jogo. De fato, sua intenção era essa. Porém, quando deu por si, estava em frente à casa dela. Pensou naquelas pernas. Em tocá-las. Em lambê-las. E salivou como um lobo.
Raciocinou: vai ser só hoje, só um dia e nunca mais! Vou continuar sendo o marido perfeito, o colorado perfeito, vou, vou!
Saiu correndo do carro. Nem fechou a porta. Subiu as escadas do edifício de dois em dois degraus.
A excitação tomava conta de seu corpo, o sangue latejava em suas frontes. Parou diante da porta do apartamento. Respirou fundo. Acionou a campainha. Norton ouviu o som de passos. Viu que alguém espiava pelo olho mágico. Pensou: será que ela está de baby-doll? A porta se abriu. Vestia abrigo. Usava rabo-de-cavalo. Norton piscou, um tantinho decepcionado. Ela olhou para ele, muito séria.
– Entra – disse, e se foi para dentro do apartamento.
Norton vacilou. Entrou. As horas seguintes foram as mais constrangedoras da sua vida. Clarissa lhe serviu uma pizza vulgar e guaraná diet. Mal falou durante o arremedo de jantar. Ele não conseguiu sequer aproximar-se dela. Era como se entre eles houvesse dois volantes e três zagueiros. Pior: Norton experimentou não sabia qual era o resultado do jogo. Apenas ouvia foguetes espocando. Seriam colorados? Ou, glup, gremistas? Não teve coragem de pedir para que ela ligasse o rádio ou a TV. Percebeu que nada ia acontecer. Disse que ia embora. Ela:
– Tá.
Norton foi se dirigindo para a porta. Ela o acompanhou, impaciente. Ele já ia saindo, mas resolveu descobrir o que, afinal, tinha acontecido naquele apartamento. Perguntou. E Clarissa, como se estivesse muito cansada:
– Francamente, estou decepcionada.
E ele, aflito:
– M-mas p-por quê???
Ela, irritada:
– Porque pensei que, enfim, tinha encontrado o marido perfeito, o colorado perfeito!
E bateu a porta, deixando Norton ali parado, querendo morrer.
Assinar:
Postagens (Atom)