terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A gente vai levando

Nós vivemos no gerúndio. Nós brasileiros. Estamos sempre fazendo, sempre chegando, estamos quase lá, espere um pouquinho, já vai.

Nunca estamos prontos.

O Brasil nunca fica pronto.

É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.

Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio. É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.

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O gerúndio invencível

Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:

– Nós vamos estar disponibilizando.

Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.

Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.

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O gerúndio da vitória

Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:

– Que homem! Não existe homem como você!

Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.

Enfim.

O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:

– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.

Ri:

– Pô, mas então você está no gerúndio...

Ele rebateu:

– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.

Sábio, o meu amigo que adora casadas.

sábado, 27 de outubro de 2012

Rapidinha...

– Jô.
– Fala Deco.
– A gente precisa conversar.
– Tá, deixa só acabar esse bloco e a gente conversa.
– Jô… é sério.
– Eu sei – olha lá a Ritinha vai acabar com a madrasta da Cleide… olha lá.
– Você entende que eu quero conversar e você não quer a devida importância, né?
– Sei, sei, até parece que do dia pra noite ficou sentimental. Essa é a minha função – olha lá o tapa que ela deu! – quem fica emotivo nesse casal aqui sou eu! Pára com isso, Deco. Depois eu te deixo em paz pra você assistir o “raio” do jogo.
– Mas que fique registrado que eu tentei.
– Tá Deco, não atrapalha – ah lá o Jorge Vagner com a Betty! essa não presta mesmo…
– Jô… se a gente não conversar, como vai ser mais pra frente? Dá só um minutinho…
– Deco, no próximo bloco, pô! Óh o barulho, não dá pra ouvir nada.
– Jô… o gato subiu no telhado.
– Ah, que nada! eu dei motivo? você deu motivo? – mas que cafajeste esse Marcos Paulo – A gente tá super bem, não inventa Deco.
– Jô, eu tô tentando te falar faz um tempinho…
– Calma, calma – ah lá… que sem vergonha “essazinha”!
– Jô…
– Pô Deco, pára de falar. Eu fico falando quando você está assistindo jogo? Não! então pronto. Poxa, já falei que quando terminar esse bloco a gente conversa, sabe… fica aí falando sem parar, não dá nem pra ouvir direito… e esse monte de sirene aí fora, pô. Manda esses caras apitarem pra lá…

Os bombeiros não puderam fazer nada, já era tarde para o pobre gatinho.

sábado, 29 de setembro de 2012

Posso Entrar Na Sua Vida?

Marcelo não é um cara muito normal, mas também não chega a ser louco. Ele é do tipo de pessoa que funciona melhor à noite. Pra gente assim, não tem horário melhor do que a madrugada pra se comprar livros. Logo ao entrar na sua livraria 24 horas preferida (a única da cidade) ele se depara com uma mulher bem atraente. Não chega a ser uma Fernanda Lima, mas pelo menos é uma mulher de verdade, não uma brincadeira de mal gosto criada pelos meios de comunicação de massa para fazer os homens sofrerem. Depois de um bom tempo observando-a ele não se contem. Se aproxima lentamente dela e diz:

- Oi, tudo bom?
– Er … tudo …
– …

Marcelo nunca foi bom para fazer essas coisas. Pelo menos neste caso, ela se mostrava curiosa. Nem um pouco simpática, mas no mínimo, intrigada.

- Eu te conheço?
– Não. Mas eu queria te fazer uma pergunta …
– Uñ ? – (típica palavra de quem não quer dizer mais do que “Uñ”, se é que vocês me entendem).
– Posso entrar na sua vida?
– Hãn?! – (agora sim, uma expressão bem mais enfática).
– Po-posso entrar na sua vida?
– Como assim?

Um longo silêncio, seguido de um suspiro do nosso amigo Marcelo :

- É assim … Eu te vi logo que entrei aqui.
– Certo.
– Aí … você estava andando tranquilamente, enrolando a ponta do cabelo como quem enrola a ponta do cabelo com os dedos, bem tranqüila.
– Faz sentido …
– Magicamente, você parou … colocou a ponta do seu cabelo na boca, como quem coloca a ponta do cabelo … hmmm … na boca, e pegou um livro do P.G. Wodehouse …
– Obrigado, Jeev-
– Não, meu nome é Marcelo.
– O nome do livro era “Obrigado, Jeeves”!
– Ah sim … eu sei.

Ela pareceu não ter gostado muito da resposta:

- Grr … Bom, posso ir embora ou tem mais ?
– Você não me respondeu ainda …
– O quê ?
– Se eu posso entrar na sua vida.
– Como assim? Você chega aqui, fala que me viu andando e comendo meu próprio cabelo, como quem come o próprio cabelo (!!) e aí então faz uma pergunta absurda dessas! Qual é o ponto?!
– Bom … (longa pausa) … se essa pergunta é tão absurda assim, talvez seja melhor VOCÊ não entrar na MINHA vida. Muito prazer. Tchau!

Esta, sem dúvida, foi a frase dita por Marcelo da forma mais tranqüila por toda a conversa. Sem pressa, ele se virou, se afastou e começou a folhear as revistas de arquitetura , o que apenas fingia fazer anteriormente.

Alguns momentos depois a moça ainda intrigada, que agora disfarçava folhear revistas de Tunning, decidiu se aproximar e disse:

- Claudecir …

Ele, sem tirar os olhos sobre um artigo muito interessante sobre sofás “chaise-longs” retrucou :

- É Marcelo.
– Eu estou falando que o MEU nome é CLAUDECIR!
– HEIM?!
– Ah, parou de ler, né? Então … Marisa, meu nome é Marisa.
– Po-podia ter me pedido pra parar de ler … Estou em estado de choque, agora!
– (risos)
– Certo … vou tentar apagar a figura do transexual mais atraente que conheci nos últimos tempos e voltar a pensar em você apenas como uma mulher.
– Que bom!
– E então … Quer me falar algo, Marisa?
– Como assim ?
– Como assim o que ?
– Entrar na minha vida? O que você quis dizer com isso?
– O conceito do verbo “entrar” é relativamente compreensível, principalmente para pessoas com o QI mediano. Muitas vezes na Matemática temos dois grup-
– Opa, querido! Eu sei o que significa “entrar”.
– Viu?! Agora eu sei que você tem pelo menos o QI mediano da população. Parabéns!

Marisa fez aquela cara que aparentemente diz “bobinho!” mas que na verdade significa “você tá pensando que eu sou idiota, seu energúmeno!”, e depois perguntou:

- Sério! O que você queria quando me fez a pergunta?
– Por que vocês mulheres acham que as coisas significam mais do que realmente significam? “Que horas são?” não significa “Achei seu relógio interessante, mas essa aparência retrô da alça de vinil pode mostrar que inconscientemente sua infância foi marcada por um trauma de rejeição, personificado aqui, com uma das características mais marcantes do culpado pela sua rejeição, seu pai, reconhecido pela pontualidade.” : “Que horas são?” É apenas uma pergunta que tenta esclarecer a hora certa!

Sem se exaltar, mas no limite da provocação, em um tom em que se ambos estivessem na quinta-série a turminha gritaria “YEAAAAAAHHH!!!”, Marcelo respondeu, e continuou:

- Enfim, quis dizer exatamente o que te perguntei.
– Tá! Mas … Você não poderia ter me dito … Er …
– “Você vem sempre aqui?”
– Não … essa é muito batida, você não falaria isso …
– “Ei, Pequena. Posso te pagar um drink?”
– Ótima frase. Pena que 50 anos atrasada. Acho que não … sei lá! Você não poderia ter vindo com qualquer xavequinho minimamente aceitável?
– E o que esse xavequinho significaria “na misteriosa língua das mulheres”?
– “Oi, posso entrar em você?”

Só para esclarecer, amigo, quem disse essa frase foi ela. O papo está meio longo sempre é bom ajudá-lo com essas intervenções. Ele respondeu, um pouco desconcertado de início:

- C-Certo! Não que isso seja uma grande mentir-
– Ei, seu safado! – disse Marisa, dando aquele tapinha no ombro de Marcelo, daqueles que querem dizer “Preciso te recriminar perante a sociedade, mas você mandou bem nessa. Keep moving!”

- O fato é que antes de entrar em você – ao dizer isso, ele rapidamente protegeu o ombro – eu quero saber se você vale a pena. Ou seja : antes do ato físico, o mínimo de afinidade intelectual.
– Não seja cínico! Se eu te atacasse aqui e te puxasse pra transar no banheiro você iria sem pestanejar …
– Olha … num vou mentir pra senhor- outro tapa daqueles no ombro do nosso protagonista – mas, como você realmente me pareceu interessante, talvez algo além dessa divertida forma de entretenimento sexual pode ser experimentado.
– E tudo isso pelo jeito que eu coloquei o cabelo entre os lábios como qu-
– Quem coloca os cabelos entre os lábios! Isso!
– Só por isso?!
– Precisa mais do que isso?!
– Vocês homens são completamente loucos!
Marcelo fingindo uma conversa: – “Que horas são?” “Meia-noite e meia!”. Desculpa, nada de louco nessa conversa.
– O que fazemos então … ?
– Olha, o banheiro está aqui do lado … Andei reconsiderando minhas opiniões e como não quero parecer intransigente, acho, já que é sua vontade, que podemos trans-

Outro tapa, seguido de : – BESTA!

- São seus olhos …
– Vamos lá então … Como eu faço pra deixar você entrar na minha vida?
– Pode começar me dando seu telefone.
– Ok! O número é … – (para preservar a privacidade de nossa querida personagem, não transcreverei aqui o número, mas garanto, é fácil de se decorar).
– Muito bem! Está anotado. Tenho que ir agora, mas te ligo amanhã.
– Então tá.
– Ah, caso você não saiba: quando eu te ligar, você atende, ok? É assim que funciona.

Mais um tapa. Ele continua :

- Olha, acabaram de liberar o banheiro, tem certeza qu-
Desta vez ela só ameaçou o tapa. Marcelo, muito sério, fazia a pose em “T” do golpe final em Karate Kid.
– Vai embora logo, e vê se liga mesmo!
– Sim senhora!

E assim, começou a história do relacionamento entre os personagens desta crônica. Se deu certo ou não, nem eu sei ainda. Só posso dizer que mesmo sem que ambos soubessem, Marcelo já tinha entrado na vida de Marisa. E ninguém pode falar que ele não pediu.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O velho Buk

Lembro bem quando me caiu nas mãos o meu primeiro Bukowski.
Cartas na Rua.
Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina.
Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.
Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê.
Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê.
Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.
Passei a odiar personagens que cofiam.
Um personagem simplesmente não pode cofiar.
Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia.
Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.
Mas o Velho Buk não tinha nada disso.
O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.
Bem.
Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke: – Todas as pessoas precisam ler o John Fante! Uau! Era importante aquilo.
Fui ler o John Fante.
Pergunte ao Pó.
Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk.
E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.
Charles Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou: – Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini.
Gostaria de poder dizer isso.
Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade.
E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.

sábado, 21 de julho de 2012

A Falácia do Solteiro

Poucas frases me provocam tanta vontade de rir como:
- Ah se seu tivesse solteiro! Essa loira ia ver só …

Desculpe amigo, ela não ia ver nada que já não estivesse vendo.

Fico impressionado como a maioria dos homens que namoram/casam/se enrolam/etc. e tal, por um tempo razoável, começam a se sentir como grandes pegadores reprimidos.

Só porque já estão há um tempo com o “burro amarrado na sombra”, sentem que o mundo se transformou num cardápio delicioso de mulheres ao seu dispor que, infelizmente, eles não podem apreciar pela sua condição de “commited” (como dizia o orkut).

Não, amigos indisponíveis! Elas não estão ao seu dispor. Se você se esforçar um pouco pra se lembrar, quando solteiro você passava tanta vontade ao sentar num bar no verão, num sábado a noite, como passa agora, ao tentar disfarçar da sua pequena o olhar praquela morena gostosa de vestidinho, que teima em passar na sua frente o tempo todo, SÓ pra te provocar (nada a ver com o fato dela ser a garçonete daquela área do bar, imagina…).

Ok, devo reconhecer que o parágrafo anterior não se aplica ao Ricardo Mansur, Rodrigo Santoro, George Clooney e mais 3 ou 4. Mas, excluindo esses caras, todos nós, homens desgraçadamente comuns, não fazemos porcaria nenhuma em 90% dessas situações. A única vantagem da solteirice, no caso, é poder olhar pra tal morena sem táticas canalhas de disfarce.

O problema é que nos outros 10% fazemos algo. E aí dependendo das condições normais de temperatura e pressão a bola entra. Gol!!

E são essas bolas criam a tal “Falácia do Solteiro”.

Realmente existem noites (e dias) na solteirice, que seriam dignas de serem contadas pelo Hugh Hefner. Todo homem solteiro tem seus momentos. O grande problema é se enganar sentenciando a coitada da namorada/esposa/rolo/etc. e tal, como a grande culpada pela privação desses momentos mágicos. Mentira. Calúnia!

A moça não tem nada com isso, amigo. Você não ia fazer nada com a garçonete. Eu garanto. Se o relacionamento está bom, dê valor àquela que está com a mão repousada na sua coxa, mesmo você olhando praquela mocréia com um vestido breeega, que você ganha mais.

E pra piorar, existe a fase 2 (e mais perigosa) dessa falácia : o fim de relacionamento.

Conheço muitos caras que depois de décadas pra conseguir sair de um relacionamento doentio, daqueles que só existiam de verdade no status do Facebook, começam a questionar a solteirice, reconsiderando voltar pro inferno que estavam. O motivo?

- Num tenho ninguém pra sair esse sábado! Se for pra ficar sozinho, volto pra Fulana (também conhecida como aquela que xinguei pelos últimos 9 meses da minha vida).

Então, animal! É assim que funciona. Lembra que você vivia reclamando dos sábados que tinha que sair com aqueles amigos idiotas da mala da sua namorada? Pois bem, na solteirice vão existir noites tão chatas como aquelas (e você aí reclamando, sendo que seu PS3 ainda está coberto de pó e já faz 2 semanas que você acabou o namoro!).

Enfim … não sou a favor da solteirice, nem do comprometimento. Apenas sou a favor das coisas feitas pelos motivos certos.

Se está com alguém e na média a relação está legal. Fique feliz! Isso é cada vez mais raro.

Se está solteiro, curta! E aproveita o lado bom disso sem medo, mesmo que a carência bata na porta de vez em quando.

A sabedoria está em se reconhecer que mesmo com os motivos certos (seja comprometido, seja solteiro) terão momentos que o outro lado vai parecer muito mais divertido. E não se pode culpar ninguém por isso. É assim que as coisas funcionam. Não se pode ter tudo.

domingo, 17 de junho de 2012

Salada de Frutas

Aquele parecia ser apenas mais um almoço comum. Eu estava na fila do buffet de um simpático restaurante por quilo próximo ao meu trabalho. Distraído, preocupado em nada além do que escolher a comida. Só isso.

Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).

Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.

Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.

Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.

Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.

Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.

Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.

De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.

Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.

Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.

Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.

Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.

Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.

Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.

Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.

Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.

Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?

Fui embora.

Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.

Talvez nem tudo ainda esteja perdido …

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Devagar, Divagar Ou De Vagar

Foi bom me avisar
Que a ponte estava livre
Mas não era fácil atravessar
E lá foi bom me despistar
Mas seu mapa era tão lindo
Que eu não consegui me desgrudar (me desgrudar)

E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar

A um passo de acertar
O tempo das sementes
Que já começaram a brotar
Então vá, vá colher e abraçar
Que as flores estão vivas
Perfumando a casa em que vamos morar (vamos morar)


E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar

Me espere pro jantar
Tô indo com amigos
Por quem acabei de me apaixonar
Me dá, vontade que me dá
Saudade que só passa
Tendo eu e você no mesmo lugar (no mesmo lugar)


E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar

Gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar (devagar)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um novo Homem

Homem. Ser forte. Duro, Insensível. Nunca derrama uma lágrima. Homem afinal. Arruma a torneira, troca o pneu. Homem. Forte. Insensível.

Bela descrição para tempos atrás. Hoje o homem evoluiu. Sente, ama, chora. E que evolução podemos dizer. Afinal negar instintos é um atraso incalculável. “Oh yes i was a great pretender!”. Mas não finjo mais.

O novo homem gosta de falar que ama, não deixa de assumir quando está com medo e amigo-irmão merece beijo no rosto. Lógico que sem boiolice. “Sô macho pô”.

Isso é tanto verdade que os papos nas mesas de bar andam mudando. Os homens não procuram mais a maior quantidade e sim qualidade. Frases como “Vamo catá as piriguete!!!” estão dando lugar a “Preciso arrumar uma mulher direita”.

O espírito de coletividade continua como sempre mas foi desviado para novos usos. Em vez de ” Vou agitar aquela perva pra você” ouve-se “Cara, eu não vou deixar você cair no mundo da putaria de novo.”

Existem novos homens compromissados também. Hoje em vez de aproveitar qualquer brecha pra sair escondido, faz questão de levar a cônjuge ou ao menos avisar onde, quando e com quem vai. Não por controle e sim por respeito. O novo homem compromissado já deixa a mulher sentindo saudade. Ele aprendeu a valorizar pois sabe que a demanda está altíssima mas a oferta mínima.

Por tudo isso, mulheres deliciem-se, pois cada vez mais encontramos homens que ligam pra dizer que estão com saudade, correm de mulheres prosmícuas e só esperam por você pra dizer: “Eu te amo”. Mas preparem-se, pois se um dia você estiver num sítio, ouvir um barulho e pedir pra ele ver o que é não estranhem se ele estiver embaixo da cama.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sandy, UFC e um Fantástico Mundo no Domingo a Noite

Domingão.

Eu, no comando, trocando de canais.

Aí, de repente, o extraordinário.

A frágil Sandy no meio dos brutamontes do UFC.

Não é Fantástico?

Um deles, com seus braços de lenhador, sua cara de torcedor dos Gaviões da Fiel e suas tatuagens horrendas (como são feias essas tatuagens que cobrem um braço inteiro), confessava ser uma manteiga.

Ficou com os olhos cheios de lágrimas.

Não é mais do que Fantástico?

É.

Aí a doce Sandy visitava a cozinha dos rapazes.

Uma baderna.

Então a delicada moça ia para o quarto com eles.

Quer dizer, ia ao quarto deles.

Então, mais do que nunca, o inusitado.

Eles mostraram para ela as suas cuequinhas.

Cuequinhas coloridas.

Cuequinhas de super-herói.

Que fofos!

Sem dúvida, o UFC é inofensivo.

Um joguinho de bons meninos de cuequinha de gibi.

Dormi confortado.

Um outro mundo é possível.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Como encarar a dor?

Estava eu navegando pela internet, quando me deparei com um post sobre dor. Mais especificamente sobre um estudo que indica que olhar para a fonte da dor pode reduzir a sensação dela.

O estudo trata obviamente de dores físicas, mas a primeira coisa que pensei foi: "E pra dor psicológica?".

Bem, ainda que seja muito bonito falar que devemos encarar a dor, reconhecer e enfrentar seja lá o que/quem esteja causando, não consigo acreditar que seja verdadeiramente a melhor opção. Ao menos não sempre.

Acredito sim que problemas devem ser encarados, sempre, e qualquer que seja. Mas problemas são diferentes de dores. Afinal, se você quebrou um braço (problema), mesmo o engessando (solução) não se livra da dor (errr...dor). A dor é consequência de um problema que é a causa.

Eu sou um tanto masoquista. Quando estou com torcicolo fico forçando o pescoço no sentido em que está o problema. Não sei porque, acho que vai ajudar. Então me exponho muitas vezes a dor achando que um tratamento de choque pode resolver seja lá o que for. Ou resolve ou me mata logo de uma vez.

Não funciona. Certos problemas se alimentam de atenção. Com atenção ganham relevância e com relevância já viu né? Assim, entendo que certas dores devem ser enterradas, sepultadas e se posssível, esquartejadas para que fique impossível de ser rastreada. Se precisar tomar analgésico, anestésico, seja o que for, que seja. O que importa é deixar essa dor escondida, sufocada, pra que aos poucos morra sem ar, asfixiada pela falta de atenção.

A pesquisa indica que em vez de virar o rosto ao sentir dor, é melhor encará-la. Tudo bem, a próxima vez que bater meu dedinho contra uma quina farei isso, mas quando derem com uma marreta no meu coração vou fingir que não é comigo.

PS: Happy Valentine's Day nessa segunda! Rs...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Caindo de maduro

Se tem uma pergunta que me faço constantemente é: “O que é amadurecer?”. Não é nem questão de curiosidade, é para uso próprio, senão, como farei para saber se eu estou amadurecendo.

Depois que me livrei do peso de achar que amadurecer era se iludir com estabilidade, se vestir com roupas desconfortáveis e basicamente fazer todo o resto que esperam que você faça, fiquei meio perdido.

Eu poderia aceitar que sim, aos 30 anos eu já deveria estar casado, ter filhos, um excelente emprego(pois bom já tenho), só me embriagar em churrascos de amigos próximos e ter a certeza que levaria uma bronca da esposa quando chegasse em casa. Não seria confortável, mas seria mais...simples.

Seguindo o caminho dos “rebeldes”, em que amadurecer é uma questão bem mais complexa do que contas e protocolos sociais, fico bem perdido sobre o que deveria estar fazendo o homem maduro. Deveria parar de gastar o dinheiro que não tem em viagens e brinquedos? Deveria se preocupar mais com o futuro? Deveria ter um plano de previdência privada?

Acho que não. Acho que tais questões tem mais a ver com a personalidade de cada um e de como estes obtém paz de espírito no presente. Amadurecer deve estar mais no fundo. Deve ser mais pessoal.

Daí eu penso que a cada dia que passa me sinto mais sozinho. Não solitário, sozinho. Não porque me abandonaram, mas porque eu percebi isso, antes que uns, depois de outros.

Não importa quantos amigos você tenha, se é casado ou solteiro, se sua família é unida ou não. Em nossas análises, decisões, perguntas, sempre estamos sozinhos. Não dá pra trazer alguém para dentro de nossas cabeças. Não dá para fazê-los sentir o que sentimos quando encaramos cada opção. Não dá para imprimir em seus dnas, nossas dificuldades físicas, muito menos compartilhar nosso repertório de experiências.

Felizes ou tristes, estamos sozinhos, e o que entendemos como companhia são as projeções de todos que nos cercam. As outras pessoas não estão juntas de nós, e sim o que esperamos e enxergamos delas. Que sim, podem ser impressões corretas, mas sejamos realistas, quanto de você mesmo é mostrado pro mundo? Quanto do que te define está trancafiado e não é compartilhado nem mesmo com seu consciente?

Talvez amadurecer esteja relacionado com a essa epifania. Com essa lucidez que transforma completamente nossa percepção de mundo. Mexe com nossa tolerância, empatia e expectativas para com o mundo, e esse povo todo que está em cima dele.

Quem sabe amadurecer seja entender esse mundo, aceitá-lo e não enlouquecer. Não entrar em profunda melancolia causada pelo que nos prometeram por anos e anos. Pela clara realização de que não existe mundo feliz, família feliz ou coletivo algum feliz. Existe indivíduo, feliz, triste ou qualquer outro estado de espírito. Este indivíduo pode ter a sorte de sincronizar sua felicidade com a dos outros, ou pode simplesmente não dar importância. Pode entender que o mundo não tem que ficar excitado porque ele está feliz, nem compreensivo porque ele está triste.

Hoje, esse indivíduo aqui do outro lado da tela está apreensivo, amedrontado, desamparado. Mas eu entendo que o mundo não. Eu entendo que meus amigos estão cada um em seu estado, e eles não são menos amigos meus por isso. Não digo que não doa, não digo que não queria que o mundo parasse para olhar pra mim, que todos parassem de rir enquanto eu choro. É falta de respeito. Assumo, pois já desisti de mentir para mim mesmo. Mas fazer o que? Não posso mais fazer como antigamente e espernar. Eu amadureci, né?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

10 coisas que um Homem pode aprender com os Bebês

• Não seguro o choro.

Você conseguiu a sua primeira refeição chorando, mais tarde o seu primeiro brinquedo e algumas pessoas até o seu primeiro carro. Não tenha vergonha de chorar, não faça manha, só não tenha medo de se expor.

• Faça apenas o que você sabe fazer bem.

O bebê sabe fazer necessidades, chorar e mamar. Ele não sai por ai tentando dirigir um trator. Ele não da um passo maior que a perna, ele vai com calma aprendendo uma coisa de cada vez. Pense nos seus projetos que deram errado, quantos realmente nunca iriam dar certo e quantos foram executados antes da hora?

• Não tenha medo de pedir ajuda.

Quando a coisa apertar “corra pra mamãe” sem vergonha nenhuma. Corra pra namorada, esposa, companheira, etc. Peça ajuda por que sozinho não conseguimos nada.

• Observe mais e fale menos.

Nunca subestime o poder da observação. Se as mulheres falam mais é por que têm mais coisas (e muito mais interessantes) à dizer. Preste atenção pode ter certeza que sua taxa de sucesso ao tentar conquista-las irá subir exponencialmente.



• Sorria mais vezes ao dia.

Realmente um sorriso te leva longe. Sorria por motivos mais simples, não seja tão exigente, as felicidade esta nas pequenas coisas.

• Ame sua família.

Com o tempo a tendência é nos distanciarmos de quem nos criou. Esta certo que crescemos e precisamos ter nossas próprias vidas, mas faça de um costume um almoço ou jantar uma vez por semana, você nunca sabe por quanto tempo os terá na sua vida.

• Coma direito.

Tudo bem o bebê não tem opção então é muito mais fácil. Mas tente comer coisas mais saudáveis. Não abra mão do junk food se ela te faz feliz, mas não esqueça que você vai envelhecer e vai precisar de todas as vitaminas que hoje a falta passa despercebida.

• Esteja cheiroso o tempo inteiro.

O perfume marca um momento, você tem que ter certeza que irão lembrar de você como uma pessoa cheirosa. Você pode falar que as vezes é impossível estar com cheiro de banho, por exemplo no fim da balada. Isso não é desculpa. Não economize na hora de comprar desodorante, compre um que fique até o outro dia de manhã, lave o rosto toda vez que for ao banheiro para evitar o cheiro de suor e deixe sempre um perfume no porta luvas do carro.

• Durma o quanto puder.

Balada atrás de balada + acordar cedo pra trabalhar vai ter deixar acabado antes dos 40. Valorize mais suas horas de sono e escolha com mais discernimento quais baladas valem a pena você ir.

• Não tenha medo de crescer.

Não pense na passagem de anos como envelhecimento. Pense em amadurecimento.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ela foi experimentar um biquíni

Ela disse que ia só experimentar um biquíni, bem ligeirinho, e entrou na loja. Fiquei na porta, esperando. O que mais poderia fazer, senão ficar na porta, esperando? Suspirei. Olhei para a calçada do outro lado da rua, para me distrair. Um cachorro preto, desses vira-latas, de tamanho médio, dormia enrodilhado em frente a uma padaria fechada. Não havia nada aberto àquela hora, só a loja de biquínis. Voltei-me novamente para dentro da loja.

As atendentes, umas quatro ou cinco, me olhavam lá do fundo. O que estariam pensando? "Aí está mais um babaca na porta, esperando a namorada escolher biquíni". Acho que riam de mim. Só podiam estar rindo. Também, o cara fica mesmo com jeito de abobado esperando alguém numa porta de loja. Tinha apoiado o peso do corpo no pé direito; troquei para o esquerdo. O cachorro preto do outro lado da rua acordou, piscou uma ou duas vezes, mas não fez menção de se levantar.

A namorada havia sumido. Devia estar no provador. Quanto tempo uma mulher leva para experimentar um ou dois biquínis? Um biquíni é tão pequeno… Tirar os chinelos é rápido, zupt, zupt, dois segundos. As calças? Basta baixar o zíper, abrir um botão, arriar uma perna, depois outra. Digamos, cinco segundos. Mais a blusa, puxada pela cabeça, acomodada com critério no gancho da parede, outros cinco segundos. Total: 17 segundos.

Mas deixemos por 20. Trinta, até. Outros 30 para experimentar um biquíni, 30 se mirando no espelho, mais 30 para outro biquíni e 30 se admirando de novo. Operação completa, contando que ela precisa vestir as calças e a blusa de novo, uns quatro minutos. Arredondando, cinco. É bastante, cinco. Tudo bem, as mulheres são demoradas mesmo, cinco é razoável.

Mas já se haviam passado cinco minutos, quem sabe oito ou nove, o cachorro se erguera preguiçosamente e farejava o ar sem grande interesse. Juntei as mãos às costas num gesto que, lembro, meu avô repetia muito. Depois cruzei os braços diante do peito. Levei as mãos à cintura. Cocei a cabeça. Suspirei outra vez.

Ouvi risadas femininas. Ah, mas aquelas gurias da loja estavam tirando o maior sarro de mim, isso era certo. Muito engraçado, de fato, um imbecil parado na frente de uma loja, sem fazer nada, só observando um cachorro preto na calçada. Aliás, onde é que estava o maldito cachorro preto? Como conseguira sumir tão rapidamente? Bom, talvez não tivesse sido tão rápido — eu devia estar há uns 20 minutos ali. Não queria mais olhar lá para dentro, para aquelas atendentes debochadas, e agora o cachorro se fora.
Oh, Cristo.

Ah, salvação: uma mosca acabara de pousar na vidraça da vitrine. Uma mosca gorda, dessas de verão, lerdas. São alvos fáceis, essas moscas obesas de verão, ainda mais se pousam em vidraças. Por que as moscas engordam no verão? Nós humanos engordamos no inverno. Feijoada e tal. Tive ganas de esmagá-la, mas não tinha nada à mão, um jornal, nada.

Um jornal viria a calhar, mesmo de anteontem. Para ler algo. Até a lista telefônica seria bem-vinda naquele momento de tédio absoluto, de minutos pastosos e angustiantes, como se estivesse afundando na areia movediça. Deixei a mosca ali, passeando pelo vidro. A namorada não saía do provador. Quanto tempo? Trinta e cinco minutos? Quarenta? Não era possível que demorasse tanto assim para experimentar um biquinizinho minúsculo.

Foi me dando uma irritação. Uma irritação, uma irritação, uma irritação.

Uma irritação.

Li em algum lugar que, se você está sozinho e se aborrece, então você não é boa companhia nem para você mesmo. Provavelmente sou uma péssima companhia, porque estava mortalmente chateado de estar comigo mesmo. Como eu estava me chateando a mim próprio, Jesus. Por que eu tinha de estar naquele lugar, onde o tempo não passava, onde nada acontecia, onde tudo parou? Quanto tempo fiquei ali? Pareceram horas.

Quando ela finalmente surgiu, suspirei de alívio. Era como se eu estivesse saindo do presídio. Mas, para minha surpresa, ela veio de mãos vazias.

— E o biquíni? — perguntei, aflito.

E ela, indo-se da loja:

— Não gostei de nada. Vou procurar outra loja, para ver se encontro algo melhor.

sábado, 24 de setembro de 2011

O marido perfeito

Norton era o marido perfeito. Passava o dia cobrindo a mulher Silvia de atenções. Comprava-lhe Sonhos de Valsa. Massageava-lhe os pés com Creme Nívea. Até colou aquele decalco no vidro do carro: “ Eu amo a minha esposa”.

Norton era também o colorado perfeito. Não perdia um jogo do Inter. Era sócio. Só usava cueca vermelha.

Havia apenas um problema que lhe perturbava a tranquilidade, e esse problema tinha pernas longas e macias, cabelos da cor da laranja do céu e pele levemente dourada pelo sol de Santa Catarina.

Clarissa. Era sua colega de escritório e, por algum motivo, passava o dia a tentá-lo. Fazia insinuações, enviava-lhe sorrisos de malícia, roçava-se nele quando passava por sua mesa e, ao cumprimentá-lo, pespegava-lhe um beijo na comissura dos lábios.

Norton ficava angustiado. Chegava a sonhar com ela. Mas não cogitava de trair sua esposa. Até porque as insinuações de Clarissa não passavam disso: insinuações. Eram só olhares oblíquos, sorrisos de lado, brincadeirinhas picantes. Norton jamais teria a ousadia de assediá-la.

Até o dia em que ela decidiu ser explícita. Estava mais linda do que nunca. Vestia jeans tão apertados que Norton deviam ter sido costurados em volta dela. E uma mini blusa que lhe deixava três centímetros de barriga de fora. Norton olhava para aquela faixa de barriga e sentia uma dor no peito. Ela se aproximava e com ela vinha um cheiro de melão maduro que fazia Norton ter vontade de chorar e chamar pela mãe. Ele até gemia:

– Mãe…

Para afugentar maus pensamentos, concentrava-se em Silvia, sua esposinha. Era como a chamava: “ minha esposinha”. Mas naquele dia não adiantou. Porque, naquele dia, Clarissa se aproximou da mesa dele, agachou-se ao seu lado e sussurrou:

– Quer jantar lá em casa na quarta?

Norton começou a tremer. O ar se lhe sumiu dos pulmões. Gaguejou:

– J… j… j… j…

Queria dizer jantar. Não conseguiu. Ela sorriu. Debruçou-se um pouco mais. Ele sentiu o cheiro quente dela. Lágrimas lhe vieram aos olhos.

– Te espero quarta – ciciou ela, e lhe deu uma mordiscada na orelha. Por Deus! Uma mordiscada!

Norton tremia. Clarissa passou o resto do dia olhando para ele e sorrindo. A cada sorriso, os dedos dos pés de Norton se encolhiam. Ele repetia, para si mesmo:

– Ai, mãe… ai, mãe…

Quando chegou em casa, só pensava no convite: quarta, jantar na casa dela… Foi aí que se flagrou: quarta era o dia do jogo do Inter! Puta que pariu, como poderia aceitar um convite daqueles para o dia do jogo do Inter??? Ainda mais que era a decisão da Libertadores! Quer dizer: mais um motivo para não trair sua esposinha. Isso. Decidido. Não trairia a esposinha.

Mesmo tendo tomado a resolução, Norton sonhou a noite inteira com Clarissa nua. Totalmente nua. Foi trabalhar resolvido a ignorá-la. Mas ela… ela… ela veio de minissaia! À vista daquelas pernas sem fim, Norton balbuciou, com uma voz que não parecia ser a dele:

– É de verdade? Aquele convite?

Ela, dengosa, chegando perto, muito perto, disse, apenas:

– Quarta-feira…

Ele miou:

– O Inter joga na quarta-feira.

– Quarta-feira…

Norton correu para o banheiro. Trancou-se lá dentro. Lavou o rosto. E pensou em sua esposinha.

– Ai, esposinha – gemeu. – Ai…

Norton passou mal durante os dias subsequentes. Não conseguia dormir. Nem decidir o que fazer.

Ele, conhecido na cidade como o marido perfeito, o colorado perfeito, ele que se orgulhava de seu matrimônio e de seu coloradismo, ele agora, por uma noite de prazer, sentia abalarem-se suas mais caras convicções.

Então, a quarta-feira chegou. Clarissa, mais linda do que as Cataratas do Iguaçu, dizia:

– Marido perfeito, colorado perfeito: é hoje.

À noite, Norton saiu de casa dizendo que ia ao jogo. De fato, sua intenção era essa. Porém, quando deu por si, estava em frente à casa dela. Pensou naquelas pernas. Em tocá-las. Em lambê-las. E salivou como um lobo.

Raciocinou: vai ser só hoje, só um dia e nunca mais! Vou continuar sendo o marido perfeito, o colorado perfeito, vou, vou!

Saiu correndo do carro. Nem fechou a porta. Subiu as escadas do edifício de dois em dois degraus.

A excitação tomava conta de seu corpo, o sangue latejava em suas frontes. Parou diante da porta do apartamento. Respirou fundo. Acionou a campainha. Norton ouviu o som de passos. Viu que alguém espiava pelo olho mágico. Pensou: será que ela está de baby-doll? A porta se abriu. Vestia abrigo. Usava rabo-de-cavalo. Norton piscou, um tantinho decepcionado. Ela olhou para ele, muito séria.

– Entra – disse, e se foi para dentro do apartamento.

Norton vacilou. Entrou. As horas seguintes foram as mais constrangedoras da sua vida. Clarissa lhe serviu uma pizza vulgar e guaraná diet. Mal falou durante o arremedo de jantar. Ele não conseguiu sequer aproximar-se dela. Era como se entre eles houvesse dois volantes e três zagueiros. Pior: Norton experimentou não sabia qual era o resultado do jogo. Apenas ouvia foguetes espocando. Seriam colorados? Ou, glup, gremistas? Não teve coragem de pedir para que ela ligasse o rádio ou a TV. Percebeu que nada ia acontecer. Disse que ia embora. Ela:

– Tá.

Norton foi se dirigindo para a porta. Ela o acompanhou, impaciente. Ele já ia saindo, mas resolveu descobrir o que, afinal, tinha acontecido naquele apartamento. Perguntou. E Clarissa, como se estivesse muito cansada:

– Francamente, estou decepcionada.

E ele, aflito:

– M-mas p-por quê???

Ela, irritada:

– Porque pensei que, enfim, tinha encontrado o marido perfeito, o colorado perfeito!

E bateu a porta, deixando Norton ali parado, querendo morrer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Tudo

Natan era o típico canastrão. Aproximava-se das mulheres sempre ronronando, sempre com um sorriso enviesado, sempre com uma sobrancelha levantada. Fazia algum sucesso porque era meia-esquerda (todos sabem que os meias-esquerdas fazem sucesso com as mulheres). E se gabava disso. Vivia falando de suas conquistas, dizendo que era gostoso.

– Sou totoso… – se vangloriava.

Tríssia o odiava.

Tríssia era uma mulher sofisticada. A psicóloga do clube. Alta, morena clara, ela não andava; deslizava pelo mundo a um palmo do chão. Jamais levantava a voz, jamais fazia um gesto brusco, jamais se alterava. Era uma rainha. Por isso detestava aquele falastrão.
Natan sentia a repulsa de Tríssia e se mantinha à distância. Até porque Tríssia não dava confiança a homem nenhum. Nenhum! Tríssia não precisava de homens. Tríssia era soberana.
Mas um dia ela foi ao clube de minissaia.

Tríssia jamais usava minissaia no trabalho, mas naquele dia fazia calor, ela se sentia bem, sentia-se sensual e
bela e algo ousada. Pulou dentro de uma minissaia negra como seus cabelos e foi, ondulando de cima de suas pernas compridas e apessegadas.

Natan viu. Foi como se tivesse engolido um paralelepípedo. Ficou entre angustiado e emocionado. Tomou uma decisão. Pela primeira vez, entrou no gabinete de Tríssia. Abriu a porta num repelão. Ela estava parada ao lado de um armário. Levou um susto.

– O que foi? – espantou-se ela, levando a mão ao peito.

Natan se aproximou gingando. Estava sério como Tríssia jamais vira. Olhava-a nos olhos. Ela recuou. Bateu com as costas no armário.

– Que foi? – repetiu, cada vez mais assustada.

Ele chegou bem perto. Parou a centímetros do rosto dela. Olhou-a de baixo para cima, olhou-a bem, olhou-a toda. Respirou fundo, como se sorvesse seu cheiro. E disse, enfim, num gemido rouco:

– Vou fazer… “tudo”… contigo.

Frisou aquele “tudo”. Aquele tudo explodiu na boca de Natan e reboou no ouvido de Tríssia. Ela arregalou os olhos. Sua surpresa foi tamanha que não conseguiu sequer reagir. Nem teve tempo: Natan já havia lhe dado as costas e saíra para o treino.

Só depois de passado o assombro é que a indignação tomou conta de Tríssia. Mas aquele tipinho era mesmo um abusado, um convencido, um desavergonhado. O que ele estava pensando?

O incidente abalou a manhã de Tríssia. Ela marchava de um lado para outro do gabinete, fula. Ao meio-dia, foi almoçar com Lívia, a secretária do Departamento de Futebol. Desabafou:

– Tu acreditas que o Natan entrou no meu gabinete e disse que ia fazer tudo comigo?

Lívia parou de comer:

– Ele disse? Tudo? Disse mesmo?
– Disse. Bem assim: “Tudo”.
– Aiai…

Tríssia arregalou os olhos:

– Que quer dizer esse suspiro?
– Aiai…
– Lívia! Tu e aquele canalha? Não acredito!
– Tudo… Aiai… Tudo…
– Lívia!

Mas Lívia estava fora do ar, e fora do ar ficou até o final do almoço. Tríssia voltou para o trabalho intrigada. Quando passava pelo pátio, Natan passou por ela. Ciciou, mais com os lábios do que com a voz, a cara de cafajeste reluzindo de lascívia:

– Tudo…

E se foi para o campo outra vez. Tríssia estava irritada com aquela situação. Entrou no gabinete e encontrou Luciana, a mulher do presidente do clube.

– Que aconteceu? – perguntou Luciana. – Tu pareces braba.
– E estou! Aquele Natan! Aquele ridículo!
– Que é que tem?
– Deu para dizer que vai fazer tudo comigo!

Luciana deu um gritinho. E a agarrou pelos ombros:

– Não! Ele disse tudo?
– Isso: tudo – Tríssia estava perplexa.

Que reação era aquela da mulher do presidente?

– Meu Deus! Tu és uma mulher de sorte.
– Lu!

Lu não respondeu. Saiu do gabinete, afogueada, repetindo: mulher de sorte, mulher de sorte, tudo, tudo…

Tríssia passou o resto do dia perturbada. Foi para casa pensando naquilo: tudo, tudo. O que seria “tudo”? Por volta das dez da noite, a campainha soou. Ela foi atender. Abriu a porta, e lá estava ele. Natan. Olhava-a em silêncio. Uma sobrancelha erguida. O sorriso de lado. Por algum motivo, Tríssia não se surpreendeu. Apenas o puxou pela mão e o levou para o quarto. Ia resolver aquilo de vez. Vinte minutos depois, ele abotoava a camisa, preparando-se para ir embora. Tríssia, frustrada, reclamou:

– Isso é “tudo”? Tudo? Por favor!

Ele, da porta:

– Beibe, você ainda não está preparada para “tudo”.

E foi embora.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Trabalho para tirar o ronco

Domingo de manhã. Acordando da primeira noite fora de casa. E estava com fome. Maldita mulher, sempre reclamando do ronco. Já não bastava ter passado a dormir na sala, as portas cerradas, pra não acordar ninguém? Já não bastava a humilhação da vizinha de cima ficar fofocando pro condomínio inteiro que ali no andar ninguém conseguia dormir? Precisava expulsar de casa?

O estômago roncou novamente. Tinha saído enxotado. “Ou você dá um jeito nisso, ou eu resolvo do meu jeito”, aos gritos. “Do meu jeito”, o que ela queria dizer? Maldita mulher, sempre reclamando. Na rua atrás da praça, viu que tinha um trabalho de macumba na encruzilhada. Chegou perto pra dar uma olhada: uma galinha preta, num prato sobre uma toalha vermelha, algumas velas, e farinha de acompanhamento. E ele adorava uma galinha caipira.

“Melhor não mexer nisso. Deve ter mau-encanto”, pensou. Vai ver tinha sido a vizinha a encomendar o trabalho. Ou então a própria mulher. Não era possível. Será que era isso que ela queria dizer com “resolver do meu jeito”? Agora estava metida com coisas do além? Maldita mulher, sempre.

Foi pro boteco. No lugar da cerveja e do rabo-de-galo que durava horas em dias normais, foi logo pra cachaça. Uma branquinha. Uma amarela. Outra de umburana. Abusou: pediu duas salineiras. Maldita mulher. Depois perdeu a conta.

No final da tarde, o dinheiro tinha acabado. Foi embora, e agora era a vez da barriga roncar furiosamente. E como roncava! Ah, maldita. Ao passar novamente pela encruzilhada, achou uma solução: de joelhos, fez um sinal-da-cruz. Elevou os braços aos céus, numa reverência solene, não fosse o desequilíbrio da caninha. “Reza quebra O mau-encanto”, raciocinou.

Apagou as velas uma a uma, com as mãos raspou a farofa pra dentro da cumbuca e pegou um pedaço grande de galinha. Ele adorava galinha caipira. Limpou a cara com a toalha encarnada. De barriga cheia e cabeça vazia, devia estar curado. Já não tinha mais nada a dizer à mulher.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Tic tac tic tac

Preciso tomar banho! Onde diabos está a minha toalha? Cadê o relógio! Ponte que partiu, vou chegar atrasado no trabalho pela terceira vez nessa semana! A toalha! Onde eu deixei a toalha?

Tic tac tic tac...

Acho que peguei tudo: celular, carteira, dinheiro pro ônibus. Não, não peguei o dinheiro do ônibus. Também não peguei a carteira. Cadê a porcaria do celular? E não coloquei a gravata. Volta tudo. Saco.

Tic tac tic tac...

Se eu for por dentro eu chego no ponto mais rápido? Acho que não, vou pela avenida mesmo. Caracas, esqueci de pegar o meu crachá! Dane-se, pego um provisório lá no prédio. E esse maldito ônibus que não chega?

Tic tac tic tac...

Só um elevador funcionando? Ta de brincadeira comigo? Ir de escada? Minha filha, eu trabalho no décimo oitavo, é, no último andar dessa porcaria de prédio que nunca está com os quatro elevadores funcionando.

Tic tac tic tac...

Alguém sabe me dizer por que meu computador não liga? Já tentei de tudo, mas... peraí, acho que ligou. Não, não ligou. Ligou sim! Apagou. Agora foi. Ta lerdo... Quem deixou esse papel na minha mesa? É claro que eu perdi a reunião!

Tic tac tic tac...

Aquela auditoria, qual era o projeto que eu tinha que auditar hoje? Alguém viu um cronograma por aí? O telefone? Fala que eu estou em reunião por que agora não posso atender nem entidade mediúnica! Cadê o amaldiçoado projeto?

Tic tac tic tac...

Três auditorias hoje! Adeus almoço, adeus cafezinho. Adeus banheiro, adeus, adeus. Abaixa esse som, infeliz! Adoro Sá e Guarabyra, mas ouvir Sobradinho agora não! Tenho que fazer outra coisa, mas não estou lembrando o quê agora. Adeus, adeus...

Tic tac tic tac...

A última auditoria! Até que enfim! Será que ainda tem ônibus na rua? Eu precisava fazer alguma coisa hoje, mas acho que vai ficar para amanhã. E-mail enviado com sucesso. Adeus, adeus, e-mail. Essa música não vai sair nunca da minha cabeça. Adeus, adeus...

Tic tac tic tac...

A crônica!!! A crônica de amanhã! Não escrevi a crônica de amanhã!!! Liga de novo, máquina maldita, liga! Não trava! Os leitores vão ficar tiririca da vida comigo! Vamos lá, página em branco. Será que ainda tem ônibus? Táxi a essa hora é uma facada.

Tic tac tic tac...

Bom, melhor que nada. Ainda encontrei meu cronograma. Quatro auditorias amanhã.
Adeus, adeus...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um pouco de tudo

- Olá tudo bem? Então você é o famoso Cristiano?
- Não tanto quanto eu gostaria.
- Hehehe, bem que seu pai me falou que você era diferente.
- Diferente? Como assim?
- Ah, meio assim, tchop-tchura.
- Tchop-Tchura?
- É, meio assim alternativo…
- Ahhh…
- Mas me fale garoto, no que posso te ajudar?
- Olha Paulo, não sei se meu pai te adiantou alguma coisa. Mas eu estava precisando de um emprego mesmo. Como o senhor trabalha em diferentes áreas achei que poderia ter alguma coisa interessante.
- Sim claro. Faço de tudo pelo seu pai. Um grande homem. Ajuda a todos.
- É, é mesmo.
- Uma vez estávamos pescando no Pantanal e ele salvou minha vida.
- Jacaré?
- Não, ia levar pro rancho uma paraguaia chamada Ramon. Ele que impediu.
- Jura, ele te avisou?
- Não, ele tinha me dado uma daquelas cápsulas de alho para espantar mosquito. Descobri que espanta travesti também.
- Hummm…entendi…
- Mas me fale. No que você gostaria de trabalhar.
- Bem, pra ser bem sincero com o senhor não tenho idéia.
- Não tem idéia? Como assim? Você não é formado?
- Sou sim. Em comunicação social.
- Então, perfeito. Estava precisando de alguém para criar os banners que colocamos nas lojas. Tem um moço do financeiro que faz pra gente, mas não gosto muito. Você pode fazer como eu sempre quis. Te passo o que quero e você cria.
- Hummm…é…pode ser…
- Que foi? Não gostou da idéia?
- Imagina senhor. Gostei sim. Mas é que imagino que o senhor tenha ótimas idéias, seria inútil na empresa. Queria fazer algo que fosse útil de verdade.
- Entendo. Bem, você precisa me ajudar então senhor Cristiano. Do que entende?
- De tudo.
- De tudo? Como assim?
- É sou maníaco por informação, então acabo entendendo um pouco de tudo.
- Então ótimo. É só escolher. Nosso departamento de vestuário está precisando de gente. Você entende de moda?
- Entendo.
- Então pronto, fica na parte de novos designs.
- Olha, eu entendo, mas não sei desenhar nada. O máximo que sairia seria as roupas da Turma da Mônica.
- Hummm…entendo. E tecnologia? Você entende?
- Entendo sim senhor.
- Fantástico. Nosso administrador de redes pediu licença para ir ver a pré-estréia do último filme do Homem-Aranha e nunca mais voltou. Você entende de computadores?
- Entendo sim senhor, mas apesar de conhecer os tipos de servidores, sistema de senhas, permissão de conteúdo e gerenciamento de arquivos, não sei lhufas de administração de redes. Não controlaria bem o acesso nem a um Pense Bem.
- Hummm…então deixa eu entender…
- Sim.
- Você disse que entende um pouco de tudo.
- Isso.
- Diz que conhece todo tipo de assunto.
- Isso.
- Você por acaso entende tudo de alguma coisa.
- Errr…creio que não.
- Então você não entende é de nada.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carta de intenção de amor

Exupéry diz que somos eternamente responsáveis pelo que cativamos. Alguém aí, em alguma rede social, esses dias postou que a maior covardia de um homem é despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de amá-la. Pois bem, é isso mesmo?

Quando primeiro confrontei as duas frases, pensei dizer no fundo a mesma coisa. Mas me precipitei. O pai do “Pequeno Príncipe” não dá ponto sem nó. Realmente somos responsáveis pelo que cativamos. Na verdade, somos responsáveis por qualquer coisa que façamos. Afinal, se escolhemos aquele caminho (e não se engane, você sempre escolhe por si próprio), temos que arcar com qualquer conseqüência por vir. Da maneira que bem entendermos, mas somos obrigados a lidar. Agora para a outra frase, que o Google de início me disse que era do Bob Marley, mas na real é do poeta Augusto Branco, bem, essa eu contesto.

Contesto porque o escritor faz um belo elogio aos homens, dando a entender que sabemos - de verdade - o que raios fizemos de certo para despertar o amor de uma mulher.

Não temos plano, não somos calculistas, saímos tentando a conquista como jogávamos Street Fighter aos 12 anos. Apertamos todos os botões ao mesmo tempo. Soco baixo, chute médio, pra cima, pra baixo e pula. Ás vezes sai uma voadora, ou um golpe fatal. As mulheres sabem disso, nem que seja inconscientemente, afinal, só elas sabem as bobagens que falamos e fazemos achando que estamos abafando.

Admito sim, alguns de nós nascem predestinados e outros aprendem com tempo. Ao longo dos anos descobrimos que uma tática é eficiente para um tipo de alvo e inútil para outro. Aprendemos contragolpes, esquiva, defesa, e o espancamento de botões diminui. Porém, quando o bicho pega, volta em toda sua glória.

Certas táticas podem ser consideradas desleais no entanto. Mandar flores, dizer que está apaixonado, levar café na cama. Me pergunto então: temos de ter uma carta de intenção de amor para demonstrar afeto e carinho? Uma mensagem de texto dizendo que se lembrou da pessoa, uma lembrança comprada em viagem porque é a cara dela ou um convite para um evento familiar são proibidos? Galanteadores e românticos são persona non grata?

Se for isso, afirmo que sou – e sempre serei - um grandessíssimo covarde. Já peço desculpas a qualquer mulher com que possa me relacionar. Uma hora ou outra vou te telefonar pra dizer que estou com saudade. Quem sabe te levar pra jantar num restaurante que não posso pagar, só porque sei que é seu sonho. Até quem sabe, no alto da minha covardia, te dedique um texto brega em que diga que depois que te conheci, nunca mais fui o mesmo. Pura covardia.

Não culpo Augusto Branco, ele também é um covarde. Coitada da mulher pra quem ele escreveu este texto abaixo. Afinal, poeta só escreve pra conquistar mulher. E ele deu uma bela rasteira.


TODO AMOR

A maior covardia de um homem

É despertar o amor de uma mulher

Sem ter a intenção de amá-la
Nenhum homem vale as lágrimas de uma mulher

Nenhum homem é merecedor de fechar um sorriso feminino

O homem que despreza o coração de uma mulher doce e pura

É, sem dúvida, um tolo

E sequer é merecedor do sentimento de desprezo
Mas o maior erro de uma mulher

É acreditar que encontrará em um homem

O Amor que apenas dentro dela está
Quando um homem ama uma mulher

É apenas ele o agraciado

Por que a mulher já é em si toda a beleza

Toda a graça

E todo o amor…

Augusto Branco

terça-feira, 19 de abril de 2011

Eu não pego ninguém. (E você também não.)

“Homens não entendem que a gente bate o olho neles e decide se daria ou não. Se vamos dar é outra história.”. Parei pra pensar na afirmação da minha amiga e concordei plenamente. Inclusive, acredito que não só dar como beijar.

Se tem um prazer que tenho nessa vida é conhecer o “backstage” da minha própria vida. Aquelas informações que acabamos sabendo depois que algo aconteceu. Uma daquelas coisas que vivem influenciando nossa vida diretamente, mas não temos a mínima idéia no momento.

Pois bem, na grande maioria das vezes que tive acesso a esse tipo de informação, percebi que meus méritos eram menores do que imaginava. Percebo que não conquistei aquela mulher com meu senso de humor inteligente, não foram meus dentes brancos que a trouxeram até minha boca, muito menos minha personificação de John Travolta na pista da balada. Sempre acabo descobrindo que ela já tinha me aceitado bem antes. Fosse no Facebook, no “oi” ou qualquer outro contato. Quando eu nem estava destilando todo meu charme.

Isso quer dizer que somos pegos? Não! Como bem disse a Carolina, elas decidem se dariam ou não. Dar é outra história. E é aí que a gente entra, não como Casanovas conquistadores e sim como Homers Simpsons. Nos concentrando pra não estragar o que está funcionando, como fazemos tantas vezes. Duh!

Basta não falarmos (muita) coisa errada, não termos bafo, não tentarmos pegar a amiga dela ao mesmo tempo (se quiser um ménage, pegue uma primeiro, depois seja bom o suficiente para convence-la a adicionar a amiga a brincadeira). Se nos atentarmos a esses detalhes, nos damos bem.

Agora será que é possível achar a fonte? Fazer com que elas desejem dar pra gente? Acho que não, não como uma ciência exata. As coisas podem mudar, de repente ela pode te achar atraente após anos, ou ela mesma mudar e decidir que em certo momento quer algo que abominou no passado. Mas isso é mérito nosso? Só se for por acidente.

Assim aceito essa verdade de braços abertos, pois no fundo, no fundo, sempre soubemos que o controle nunca esteve em nossa mão. Sempre (ou quase sempre) sentimos que tivemos um sorte desgraçada delas terem se convencido a ficar conosco. De certa forma é libertador assumir que nós não pegamos ninguém. Só fazemos menos besteiras que outros.