terça-feira, 18 de abril de 2017

Única noite livre na semana

Única noite livre da semana. Ú-NI-CA. Confessa, noite livre em casa. Porque noite livre na rua, com os amigos, indo aquele bar que você não queria tanto ir, mas foi assim mesmo porque, afinal, também não queria tanto não ir, a ponto de deixar de ir, aquele bar não conta como noite livre. Conta como o proverbial “ir zoológico dar pipoca aos macacos.” (Raul explica tudo tão bem!).

Única noite livre da semana. Quer dizer. Livre, livre, leve e solto, à toa, a noite não é. Para ser livre você precisa ignorar várias camadas de coisas que precisa fazer. Aquelas coisas importantes que poderiam mudar sua vida se você fosse fazer. Começar a estudar o Novo Código de Processo Civil, para trocaram o Código? Ou aquelas coisas que você deveria fazer, mas, pelamordedeus, hoje é a única noite livre da semana e você não vai usar para, sei lá, ir à academia correr na esteira, arrumar a gaveta da mesa de cabeceira. Sua cabeça é boa em esquecer coisas inconvenientes. Ainda bem. Noite livre, graças à memória seletiva.

Única noite livre da semana, finalmente. Já é quinta. Quase sexta. Sexta não é mais semana, nem livre, porque vai aparecer alguma coisa, sempre aparece. Sexta é um dia traiçoeiro. Complicado. Aparece amigo, aparece zoológico, aparecem aquelas coisas que você vai acreditando que gosta, mas dá uma preguiça de ir na hora. Aquelas coisas que podem ser até que legais. Mas nem sempre são. Igual concerto de música clássica. É bom se não tiver ninguém tossindo ou conversando ou balançando a perna nervosamente, fazendo aquela barulhinho chato com a cadeira. Nhic, nhic, nhic, nhic. Mas sempre tem. O oboé faz lá o barulho de oboé, a nota de oboé, o timbre de oboé. E a cadeira “nhic, nhic, nhic, nhic”. Dá vontade de falar todo gentil “Para de balançar essa de perna, meu senhor, porque eu preciso ouvir o oboé.” Mas não pode falar, porque atrapalha todo mundo. E fica chato para você. A vontade de falar com a pessoa passa. Vira vontade de matar a pessoa. Com um oboé, que agora já parou de tocar. Já está tocando o cello. A cadeira na mesma. A perna na mesma. Sexta-feira é um dia complicado. Traiçoeiro. Não dá para confiar.

Mas hoje é quinta-feira. Única noite livre da semana (já contei?! Ú-NI-CA.) E um monte de coisas boas para fazer. Tem livro para ler. Seriado para ver. Filme para assistir. Videogame para jogar. Tudo coisa boa. Só tem um problema. Tem muita coisa. Dá aquela angústia. Tem que decidir. E decidir não é fácil. Porque se faz uma coisa, na verdade, você deixa de fazer um monte de outras coisas. E dentro de cada coisa, tem um monte de subcoisas. Vai ver filme? No Netflix ou blu-ray? Qual filme?

Sei não, filme dá sono. Você já está com sono. Vai dormir. E aí, já sabe, a única noite livre da semana vira noite dormindo torto no sofá. Filme não. Demora muito. Melhor não. Jogo também não, porque deixa você agitado. Coisa de velho isso de “ficar agitado”. Igual gato naquele horário que gato corre pela casa sem explicação. Coisa de gato velho, deve ser. Você no GTA corre de carro, corre da polícia, corre dos outros que correm para pegar você. Se desligar o jogo vai continuar correndo. Como que dorme depois? Se dormir, corre no sonho. Melhor não. Livro? Sono. Melhor não. Vai de seriado. Mais fácil. Seriado é curtinho. Menos de uma hora. Pílula de diversão. Dá até para olhar um pouco do livro, se não tiver com sono. Ou ver dois capítulos do seriado. Pode ser.

Aí você vai ver o seriado. E, bem, esse não está legal. Não deu liga o episódio. Azar, hein? Justo na única noite livre da semana o capítulo do seriado é chato. Agora não dá mais para começar outra coisa. E você nem tem ânimo para ver outro capítulo do seriado, porque, se esse foi chato, o próximo também. Bate aquela tristeza. Porque você tinha um mundo de coisas para fazer e escolheu errado. Tinha filme. Tinha livro. Tinha GTA. Mas não, você resolveu ver o seriado e deu nisso. Até o bar era melhor que o seriado.


Ainda tenta consertar. Assiste aos últimos episódios do Porta-dos-Fundos. Mas nem ri, porque era a única noite livre da semana. E está desperdiçada. Mas a vida é assim. Uma única noite livre na semana. E você sempre escolha a coisa errada para fazer.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Eles preferem as loiras


Ela se virou de lado. Assestou a orelha no travesseiro. E miou, sorridente:
- Amanhã é seu aniversário...
Ele apenas sorriu de volta, modesto: era. Ela continuou, rouca:
- Pode pedir o que quiser...
Ele arregalou os olhos.
- O que eu quiser?
Ela, lambendo os lábios, a malícia faiscando nas bordas das pupilas:
- Arran...
Ele sentou na cama, apoiando-se nos cotovelos:
- Tudo mesmo?
- Tudo. Tudinho... - disse: tudjinho, com dê e jota.
Ele olhou para o gesso do teto, sonhador:
- Quero que você seja loira!
Ela arregalou os olhos. Sentou-se também.
- Lo-loira? - gaguejou. - Quer... que pinte o cabelo?
- Isso! - Estava ereto, agora. Esfregava as mãos. - Isso! Sempre quis que você fosse loira. Sempre quis.
Ela deitou a cabeça no travesseiro. Fechou os olhos. De olhos fechados, concordou:
- Tá bem. - E depois de um suspiro: - Tá bem...
Na manhã seguinte, ele saiu de casa saltitante, foi trabalhar assobiando uma música dos Travessos. Ela acordou sentindo uma pedra no peito e uma bola de tênis na garganta. Não conseguia se imaginar loira. Ao contrário: sempre se orgulhara dos cabelos negros, jamais tocados por tintura. Loiras... Sabia bem como eram. Vistosas, é verdade. Tinha de admitir que loiras chamavam a atenção. Porém, eram dissimuladas, orgulhosas. Arrogantes, até. Além do mais, a vida inteira desprezara as falsas loiras e suas raízes de cabelo pretas. Que nojo. Mas havia prometido... Que idéia era aquela, "pode pedir o que quiser"? Bem-feito!
Foi um dia difícil. Um dia de angústia. Por que ele pedira aquilo? Não gostava dela como era? Cobiçava alguma loira? Estava ficando com raiva do desgranido.
À tarde, na hora da transformação, o ódio se desfez em soluços. O cabeleireiro teve de lhe buscar um copo d´água com açúcar. Só se sentiu melhor quando saiu do salão e passou por dois homens de terno. Eles a olharam de um jeito que nunca havia sido olhada antes: com gula. Por que os homens olhavam assim para as loiras?
Em casa, mirou-se no espelho. Não conhecia aquela ali refletida. Vestiu sua lingerie mais ousada, uma que nunca tivera coragem de usar. Ele chegou e tomou um susto.
- Meu Deus, é outra mulher!
Era. Foi uma noite de amor única. Nem na época de namorados tiveram uma noite igual. Pela manhã, ele se levantou cansado, mas satisfeito. Ajeitava a gravata para ir trabalhar, quando ela saiu do quarto. Estava já vestida: saia mínima, decote íngreme.
- Onde você vai assim? - espantou-se ele.

- Ao super - respondeu ela, já saindo. Saiu. Ele correu para a janela, perplexo, a tempo de vê-la ondulando pela rua. Ondulando. Queria uma loira. Tinha uma loira.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Metade de Mim

Algo está faltando aqui. Sinto que algo maior do que eu penso está faltando em mim. Olho minhas mãos. Cadê minha mão direita? Cadê meu braço direito? Minha perna?! Metade de mim sumiu!

Eu ainda me sustento como se tivesse todo o corpo, mas sei que só tenho metade. Andando pelas ruas ninguém percebe. Amigos, familiares, conhecidos … como ninguém me alertou?! Metade de mim sumiu!

Tento falar com alguém, num momento oportuno. Ninguém me ouve. Todos me vem inteiro. Muitas vezes sinto partes de mim se reconstituindo, mas de uma forma diferente. Isso não sou eu. Cadê aquela metade de antes? Metade de mim sumiu!

Caminhando, passo em frente de uma vitrine qualquer, numa calçada qualquer. A imagem refletida está inteira. Como um vampiro às avessas. Minha imagem está intacta, talvez por isso ninguém fale nada. Mas não estou inteiro. Metade de mim sumiu!

Vou trabalhar. Porém, uma guerra idiota acabou com o trabalho. Agora tenho mais tempo pra olhar pra mim. Sem espelhos. Sinto muito, Orlane. Metade de você sumiu!

Por alguns momentos me vejo inteiro de novo. Ufa, voltei. Mas não. É só pele, não tem nada por dentro, e essa superfície frágil, quando eu menos espero, explode, revelando, nos piores momentos, a verdade. Metade de mim sumiu!


Um dia, quem sabe, a pele voltará a revestir algo inteiro e maciço. Real. E aí, novamente, a imagem voltará a ser fiel ao corpo. Por enquanto, espero. Olhando no espelho e torcendo pra que o meu reflexo inteiro, acelere a minha reconstrução, lenta e vagarosa, doendo um pouquinho, sarando um pouquinho. Aos poucos, porque agora: Metade de mim sumiu!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Infidelidade

– Seu Flávio! O que está acontecendo aqui?!
– Calma aí, seu Gregório! Não vamos fazer um escândalo aqui no meio da rua. Eu posso explicar.
– Não precisa explicar nada! Eu te peguei saindo da banca do seu Matheus! Como ousa a comprar em outra banca de jornal? A minha banca não te satisfaz mais?
– Não é isso seu Gregório. É que eu estava de passagem…
– E resolveu comprar um jornal do seu Matheus rapidinho? É o que todos dizem. Essa geração promíscua! Eu pensei que você fosse diferente.
– Deixe-me terminar de explicar… Eu estava de passagem e parei para comprar um cigarro. Só um cigarrinho, juro! Você sabe que eu sempre compro o jornal de você, né?
– Nem vem com esta história! Então para quê essa sacola?
– Que sacola?
– Esta que você está escondendo aí atrás! Passa para cá!
– Que isso, larga de ser desconfiado seu Gregório! Você não confia mais em mim?
– Deixe-me ver essa sacola! O que? Uma daquelas revistas com DVD?!! Você nunca comprou dessas comigo!
– É que… É que o seu Matheus me deu um desconto.
– Você podia ter falado comigo! Você sabe que também teria dado. Não precisava ir até outra banca! Se lembra daquela vez… snif… Daquela vez que… snif… Você havia perdido aquele número da revista que colecionava… e eu… Eu consegui para você… E é assim que me agradece? Ingrato!
– Mas foi um desconto de 30%!
– E nossos 20 anos de relacionamento? Não contam? Se você tivesse me trocado por uma assinatura eu até compreendia. Iria ser duro, mas entenderia. Sei que é difícil competir com a facilidade da entrega em casa, e ainda com todas aquelas promoções.
– Não, eu nunca faria isso com você.
– Lembra do seu Cláudio? Ele também sempre repetia isso. Não deu 6 meses e o canalha já me trocou por uma assinatura. Quando ele me via fazia questão de atravessar a rua e esconder o rosto, só de vergonha de falar comigo. Mas eu superei. Hoje em dia ele até aparece de vez em quando para comprar uma Veja de domingo. Mas você? Você me trocar por uma revista com DVD do seu Matheus?
– Olha, desculpe seu Gregório. Não pensei em meus atos. Vamos esquecer que isso aconteceu. Confie em mim, prometo que isso nunca mais se repetirá.
– Tudo bem seu Flávio. Desculpe-me também. Acho que me excedi um pouco. Você sempre foi um ótimo cliente.
– Você também é um ótimo jornaleiro! Me dá um abraço aqui!
Seu Matheus que acompanhava a conversa de longe dá uma piscadinha para seu Flávio, este retribui discretamente com um sorrisinho maroto.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Tenho medo de Lula

Sou dos que sentem medo da possibilidade de Lula voltar à Presidência. Admito. Seria horrível e, sim, pode acontecer. Coisas horríveis acontecem. Mais quatro anos andando para trás. Mais quatro anos de atraso. O Brasil vai demorar muito tempo para se recuperar desses governos petistas. Se se recuperar. O PT, com seu discurso de “Elite Branca x Pobres Pretos”, conseguiu instaurar no país um clima de animosidade irracional que não será desfeito tão facilmente. E o pior é que a disputa não é entre a Elite Branca e os Pobres Pretos. A disputa é bem mais rasa, entre governistas e antigovernistas. Não é disputa por ideologia. É por poder.

Lula gosta de se comparar a Getúlio, e ele tem razão. Ambos foram responsáveis por rompimentos do natural processo evolutivo da democracia brasileira. Getúlio deu um golpe num processo democrático regular que vinha desde Floriano Peixoto. Cada vez que escrevo isso, os getulistas modernos, que (assombrosamente) os há, gritam que na época havia fraude eleitoral e que a política “café com leite” revezava as elites paulista e mineira no poder. É verdade. Nenhuma democracia nasce pronta. Nenhuma democracia talvez nunca fique pronta. Prontas são as ditaduras. As democracias vão se aperfeiçoando com o exercício democrático, que não é só exercício do voto, é o exercício da convivência das diferenças.

Há um elogio que deve ser feito a Dilma: seu comportamento é absolutamente respeitoso com a democracia. Por mais acuada, por mais agredida, por mais ameaçada que esteja, ela nunca deu uma única declaração que arranhasse a normalidade da regra democrática, como Lula faz amiúde.

Natural. Lula está muito mais comprometido com o projeto de poder do seu grupo do que Dilma. Afinal, o grupo é DELE. Ele é o capo de tutti capi. Foi nessa condição que Lula golpeou a democracia brasileira, embora de forma muito menos contundente do que Getúlio.

O método foi quase o mesmo.

Externamente, Getúlio se associou aos ditadores da época, como Perón. Tentou até se consorciar a Hitler e Mussolini, mas foi dissuadido pelos dólares americanos. Já Lula se associou aos cubanos, à Venezuela, à Argentina.

Internamente, Getúlio fundou o peleguismo sindical. Que é um dos pontos de apoio de Lula.

Lula conseguiu chegar ao poder pelo voto, como Getúlio em 1950. Lula começou bem, com a ampliação do Bolsa Família e a manutenção da política econômica estabelecida pelo Plano Real. A impressão era de que o Brasil havia entrado num caminho de melhora sistemática e de possível solução de seus dramas históricos.

Aí se deu a traição. Nesse momento. Um presidente operário, simpático à população, com prestígio em todo o mundo, comandando um país com economia em ascensão, com uma indústria diversificada e uma agricultura poderosa, esse presidente e esse país podiam empreender as difíceis e necessárias reformas da escola pública, dos sistemas federativo, tributário, previdenciário e penal, poderiam, com muito esforço e pouco sacrifício, construir uma nação.

Mas Lula tinha o seu projeto particular. Tinha o seu grupo. Foi a eles que Lula dedicou seu empenho. E o Brasil ficou para trás. Esse tempo perdido não será recuperado sem dor. O Brasil perdeu muito por causa de Lula. E o pior nem foram as perdas na economia e na política. O pior foi a perda de esperança.

Sim, tenho medo de Lula. Não, não quero que ele volte. Nunca mais.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Como é Realmente o Brasil



“Como é, realmente, o Brasil?”, pergunta-me Richard, americano que uma só vez afundou os tornozelos pálidos na areia de Copacabana e, desde então, passou a interessar-se por tudo o que se relaciona com o Patropi de Ben Jor e Bündchen. O Brasil vive a desconcertá-lo, suspira.


Penso um pouco antes de responder. Como é, realmente, o Brasil?


Rick diz não saber, por exemplo, se o brasileiro é alegre ou agressivo.


Bem. Decerto que o brasileiro é povo alegre. O que não significa que não seja, também, violento. Curioso isso, porque o Brasil não é um país guerreiro. Os Estados Unidos, sim. Um soldado é olhado com admiração, nos Estados Unidos. As pessoas não deixam que um soldado entre numa fila e, nos restaurantes, não raro ele é dispensado de pagar a conta do jantar. Porque, afinal, os Estados Unidos estão sempre envolvidos em alguma guerra. O Brasil, quase nunca. Mesmo assim, o brasileiro mata, sobretudo outros brasileiros. Em um ano, morrem mais brasileiros assassinados do que todos os americanos mortos em mais de uma década de guerra no Vietnã.


É que é muito fácil arrumar uma arma de fogo no Brasil, conto a Rick, e ele balança a cabeça em sinal de compreensão e lembra que em vários Estados americanos as armas também são livres – no Oregon, você vê um pai com um nenê no colo e uma pistola na cintura. Mas aí quem balança a cabeça sou eu, só que em negativa, para contar que, não, não é o que ele está pensando, não existe essa liberdade de posse de armas no Brasil, só que as pessoas têm armas. O problema é a lei, observo. Não que as leis não sejam boas. São. A Constituição do Brasil é avançada e tudo mais. Mas as leis não são cumpridas. Quer dizer: são cumpridas, mas apenas por quem está dentro da lei. Os descumpridores da lei, quando apanhados e condenados, o que acontece é que a pena deles é muito branda. O que não quer dizer que as cadeias não estejam cheias. Estão. Prende-se bastante, no Brasil, só que muitos que são presos de manhã são soltos à tarde, nem vão para os presídios, e os que vão para os presídios às vezes cumprem penas leves para crimes pesados, embora vários nem tenham sido julgados ainda e continuem presos. Então, a condenação, no Brasil, é terrível e suave ao mesmo tempo, porque muitos pobres que são presos não têm condições de pagar uma defesa decente. Lembre-se, Rick: o Brasil é um país de pobres, mesmo que seja a oitava economia do mundo. Na verdade, o Brasil é rico e o povo é pobre, o Estado arrecada fortunas, mas está sempre quebrado, o que não significa que seja um Estado pequeno, ao contrário, é um Estado gigantesco, porém fraco, ele está em toda parte e se mete em tudo, sem de fato fazer nada, e assim as pessoas ficam esperando muito do Estado e o Estado até concede muito, só que não o que deveria conceder, como educação, segurança e saúde, que ele até concede, mas não como tinha de ser. Aliás, o nosso sistema de saúde é melhor do que o americano, ainda que o americano funcione e o brasileiro, não. Isto é, trata-se de um excelente sistema, pena que não tenha dado certo, como todo o resto, entende?


Richard me olha, piscando. E repete:


– Mas como é, realmente, o Brasil?


Fecho os olhos. Abro.


– Alegre – respondo, suspirando. – Pode dizer pra todo mundo que o Brasil é alegre.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O PT acabou!!!

A estratégia do PT para se defender das denúncias de corrupção que apodreceram o partido pode criar precedente jurídico. Os petistas não negam que tenha havido roubo nos governos Dilma e Lula. Não. Eles se contentam em provar que houve roubo também no governo Fernando Henrique. Já estou vendo os advogados do país se valendo da jurisprudência:
_ É verdade, meritíssimo, o meu cliente é traficante de drogas. Mas o Elias Maluco também é!
_ Sim, senhores do júri, o meu cliente matou, mas 92% dos assassinatos no Brasil não são resolvidos. Por que querem resolver justamente este? A quem interessa condenar o meu cliente?
Compreensível o esforço dos petistas. O PT surgiu como uma bela ideia de que seria possível fazer política ética. Lembro de uma entrevista do Cazuza para o Jô Soares no final dos anos 80, em que ele falava com simpatia da “pureza” dos petistas, que não aceitavam negociatas. Tal era o espírito do PT, ao ser fundado num fevereiro como este, 35 anos atrás. Era essa pureza.
O PT ganhou o poder e perdeu a pureza. “De que adianta ganhar o mundo inteiro, se você perder a própria alma?”, escreveu Marcos, citando Jesus. O PT perdeu a própria alma. Seria melhor não ter conquistado a Presidência, melhor não ganhar o mundo inteiro. Ainda teríamos a ilusão da ideia fundadora do PT: de que fazer política decente é possível.
Quando o PT se apresenta como um novo Adhemar de Barros ou Paulo Maluf, um rouba mas faz do século 21, quando o PT se apresenta como um Robin Hood caboclo, que tira dos ricos para dar aos pobres, quando o PT se justifica argumentando que rouba porque todos roubam, só torna tudo mais triste e sombrio. Porque parece não ser possível.
Antes os petistas dignos reconhecessem que as coisas deram errado, que não saíram como eles queriam, e tentassem de novo, de outra forma, não mais pelo PT. Porque o PT acabou. O PT tomou o rumo de outras legendas históricas do Brasil. O velho PCB de Prestes se liquefez com as contradições da União Soviética, o PTB de Brizola hoje é um balcão de fisiologismos, o MDB de Simon virou uma geleia disforme, o PDS se orgulhava de ser “o maior partido do Ocidente”, mas era sucedâneo da Arena e hoje não existe mais nem como sigla, o PSDB surgiu como um seguidor da moderna social-democracia europeia e se mostrou um servidor da plutocracia paulista, e o PFL… Bem, o PFL sempre foi o PFL.
Hoje, o Brasil não precisa da ladainha supostamente ideológica dos defensores do governo. Ninguém mais acredita nessa conversa de que há uma luta entre os representantes das elites versus os representantes dos pobres. Todos sabemos que só há uma luta, no Brasil: a luta pelo poder.
Hoje, o Brasil não precisa de um bom governo, não precisa nem de um governo competente. Só precisa de um governo honesto. Porque o brasileiro não é um povo de corruptos, como querem fazer crer os interessados na relativização da roubalheira. Corrupto é o governo do PT. Corruptos foram governos passados. Porém, há petistas honestos. Há muita gente dos outros governos que é honesta. A maioria das pessoas que conheço é honesta. O povo brasileiro é tão honesto quanto qualquer povo do mundo.
O PT errou. Muitos outros erraram. Mas a indignação do brasileiro com esses erros já basta para mostrar que isso se tornou intolerável. Que nós iremos em frente. Que é possível. Sim, é possível.

sábado, 17 de janeiro de 2015

O bem e o mal. O certo e o errado

Digamos que você seja poderoso e invencível. Ninguém pode reprimi-lo, ninguém pode batê-lo. O que o impedirá de pegar o que quiser, quando quiser? O outro tem uma mulher que você deseja? Você a toma. Aquela casa é melhor do que a sua? Você expulsa quem nela mora e lá se instala. Você não gosta de um vizinho? Resolve o incômodo metendo-lhe uma bala na têmpora.

O que lhe impediria de fazer isso, se você fosse poderoso, se estivesse fora do alcance do braço da lei?

Talvez apenas a percepção de que essas ações são erradas. De que são… pecados. Eis aí uma noção importante na formação do espírito civilizado do ser humano: a noção do pecado.

Os hebreus inventaram o pecado, mais especificamente os profetas hebreus, por volta do oitavo século antes de Cristo. Até então, as religiões não tinham sentido moral. Mesmo o judaísmo pioneiro não tinha sentido moral. Os homens tentavam agradar a seus deuses com sacrifícios e com adoração a fim de obter benesses ou evitar infortúnios, mas não precisavam ter bom comportamento ou respeitar o próximo.

É verdade que Moisés fez uma tentativa de estabelecimento de padrões éticos antes do ano 1.000 a.C, com os 10 Mandamentos, mas logo os hebreus voltaram aos velhos hábitos. Foram os profetas, sobretudo os três Isaías, que reenquadraram o judaísmo e fundaram a ética ocidental. Foram eles, inclusive, que estabeleceram o domínio masculino no mundo. Todas as religiões tinham poderosas deusas-mães, e o judaísmo também: Aserá era a deusa consorte de Javé, chamada de “a rainha dos céus”. O culto a Aserá foi sufocado para que os homens sufocassem as mulheres, mas isso é assunto para outra crônica. Quero voltar aos três profetas Isaías. O Primeiro Isaías era um Lênin de sandálias. Ele pregava:

“Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe das minhas vistas! Parem de fazer o mal! Aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça! Acabem com a opressão! Lutem pelos direitos do órfão! Defendam a causa da viúva! Que pretendeis ao oprimir o meu povo e esmagar o rosto dos pobres? Ai dos que acumulam casa sobre casa e ajuntam terras e mais terras! Ai dos que promulgam decretos injustos para negar justiça aos necessitados, defraudam o direito dos pobres para explorar as viúvas e roubar os órfãos!”

Pela primeira vez na História, os pobres, os oprimidos, os órfãos e as viúvas tinham voz. Pela primeira vez, alguém criticava os excessos de acumulação de propriedade. Isaías antecipou-se a Thomas Piketty em 28 séculos!

A partir dos profetas hebreus, as religiões tornaram-se morais. O homem não cometia más ações para não desagradar a Deus. Foi uma extraordinária evolução na História da Humanidade.

As religiões não são um mal, apesar de os homens muitas e muitas vezes a utilizarem para o mal. Os terroristas que atacaram a Charlie Hebdo, em Paris, o fizeram em nome da sua crença, mas eles são uma degeneração, como o foram os cruzados cristãos, mil anos atrás.

A Charlie Hebdo é uma revista que critica religiões, todas as religiões, e para isso não se vale da racionalidade ou da ponderação. Ao contrário: as charges da Charlie Hebdo são agressivas, ofensivas e, talvez o pior, sem graça. Há muito a se criticar nos padrões morais que começaram a ser construídos pelos profetas hebreus há 2.800 anos. A dominação masculina, iniciada com o banimento de Aserá, por exemplo, oprime mulheres, mutila-as e as mata historicamente. Ou seja: faz o Mal.

Mas até nisso o caráter moral da religião pode ser um aliado. A Charlie Hebdo erra no seu ataque desrespeitoso às religiões. Os fanáticos religiosos erraram muitíssimo mais no ataque à Charlie Hebdo. Podemos fazer esse julgamento porque tentamos, todos os dias, refletir sobre o que é certo ou errado. Porque aprendemos isso há mais de dois mil e quinhentos anos atrás, com os profetas andrajosos do Oriente Médio.​

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie!!!

Há muita confusão acerca do atentado terrorista em Paris, matando vários cartunistas. Quase só se ouve um lado e não se buscam as raízes mais profundas deste fato condenável mas que exige uma interpretação que englobe seus vários aspectos ocultados pela midia internacional e pela comoção legítima face a um ato criminoso. Mas ele é uma resposta a algo que ofendia milhares de fiéis muçulmanos. Evidentemente não se responde com o assassinato. Mas também não se devem criar as condições psicológicas e políticas que levem a alguns radicais a lançarem mão de meios reprováveis sobre todos os aspectos. Publico aqui um texto do padre Antonio Piber, que é teólogo e historiador e conhece bem a situação da França atual. Ele nos fornece dados que muitos talvez não os conheçam. Suas reflexões nos ajudam a ver a complexidade deste anti-fenômeno com suas aplicações também à situação no Brasil:

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Eu condeno os atentados em Paris, condeno todos os atentados e toda a violência, apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou da paz e me esforço para ter auto controle sobre minhas emoções…
Lembro da frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro, ninguém o merece, acredito na mudança, na evolução, na conversão. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem… Ainda estou constrangido pelos atentados à verdade, à boa imprensa, à honestidade, que a revista Veja, a Globo e outros veículos da imprensa brasileira promoveram nesta última eleição.

A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970, é mais ou menos o que foi o Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita europeia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…

O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet (críticas que foram resolvidas com a demissão sumaria dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã, ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011…

A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”, vítimas de preconceitos e exclusões. Após os atentados do World Trade Center, a situação piorou.

Alguns chamam os cartunistas mortos de “heróis” ou de os “gigantes do humor politicamente incorreto”, outros muitos os chamam de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo, como os comentários políticos de colunistas da Veja, são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.

O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os católicos…

Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. “É preciso” porque? Para que?

Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses, famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerância (ver Caso Dreyfus), como o STF no Brasil, que foi parcial nas decisões nas últimas eleições e no julgar com dois pessoas e duas medidas caos de corrupção de políticos do PSDB ou do PT, deram ganho de causa para a revista.

Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã e contra o cristianismo, se tem dúvidas, procure no Google e veja as publicações que eles fazem, não tenho coragem de publicá-las aqui…

Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência, com trocadilhos infames com “matar” e “explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…

E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Mas piada são sempre preconceituosas, ela transmite e alimenta o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas…

Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus…
Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso, assim como deveria/deve punir a Veja por suas mentiras. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.

“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim…

Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis ou bombas.

Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”. Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados, um deles com granadas!, nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos”, e ela sabe disso).

Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro do atentado, eu não sou Charlie. Je ne suis pas Charlie.

domingo, 30 de novembro de 2014

Detesto esse tal futebol gourmet

Gosto de arquibancadas divididas, por massas gigantescas se possível.
Detesto torcida única, um crime contra o futebol.
Gosto de times entrando em campo um de cada vez, para serem festejados ou vaiados.
Detesto equipes pisando juntas o gramado, ainda mais quando acompanhadas do pessoal da arbitragem.
Gosto de bandeiras, papel picado e bobinas desenrolando no ar.
Detesto torcidas que se comportam como platéias de teatro e se limitam a aplaudir.
Gosto de sinalizadores, não aquele naval, que mata, mas o inofensivo, de efeito meramente visual. E, admito, sinto saudades do espocar dos rojões.
Detesto bandeirinhas de plástico, em geral encomendadas pelo próprio clube ou seus patrocinadores, que coxinhas balançam abobadamente.
Gosto de ver grades e alambrados repletos de faixas. Trapos, como dizem os vizinhos de sudamerica. E grandes bandeiras agitadas até com bola rolando.
Detesto o aspecto asséptico das tais arenas esterilizadas com suas lanchonetes que servem capuccino e são planejadas apenas para esse tal torcedor-cliente.
Gosto de ver a casa lotada, o que só costuma ser possível quando os cartolas cobram pelos ingressos preços compatíveis com o poder de compra do torcedor.

Gosto do apoio incondicional, das vozes incessantes que vêm das arquibancadas e tomam a cancha. Da galera participando dos destinos da peleja.
Detesto animadores de torcida que determinam o que as pessoas devem gritar, cantar.
Gosto do futebol como ele é. Ou como era. Gosto do futebol como sempre foi.
Detesto esse tal futebol gourmet.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A tática infalível de Juliana

Juliana nunca havia se sentido tão nua. Mas estava vestida, o corpo bem coberto: calças jeans justas como se tivesse nascido dentro delas, botas de cano alto até os joelhos e uma blusa tão leve quanto a consciência de um anjo. Ainda assim, sentia-se nua. Os olhares dos homens do lugar arrancavam suas roupas às fatias. Juliana recém chegara ao clube no qual seu marido trabalhava como treinador. Havia estacado à margem do campo de treino, e os olhares dos jogadores a lambiam como se ela estivesse coberta de leite condensado.

Julião, chamava-se o marido técnico. Um durão. Havia sido zagueiro tosco no passado, e o estilo de jogar se lhe infiltrara na alma. Julião era um ser humano tosco que se dizia sincero. Orgulhava-se da sua franqueza, de falar sem subterfúgios, de olhar no olho do interlocutor, aquela coisa. Julião era áspero com todos, era sempre rude. Menos com Mariana. Na frente de Mariana, ele virava suflê. Ela era 30 anos mais jovem, era loira, magra, alta, linda e sorridente. Tratava-o por “Ju”, e só ela podia tratá-lo dessa forma.

Pois um dia Juliana pediu para vê-lo trabalhar. Julião não recusou – não lhe negava nada. Levou-a ao campo.

E foi aí que ela se sentiu nua.

No começo, ficou incomodada. Mas, com o correr do treinamento, os olhares dos jogadores foram cevando-lhe o orgulho de mulher bonita. Era bom ser desejada, era bom saber que os homens cobiçavam seu corpo. Sentiu-se uma pantera, uma cavala, uma cachorra, tudo ao mesmo tempo.

Depois daquela tarde, suas visitas ao clube se tornaram frequentes. Gostava de experimentar a sensação de ser alvo da concupiscência masculina. E cada dia Juliana ia com uma roupa mais ousada. Deixava que antevissem uma faixa de carne dourada de seus ombros redondos, ou um pedaço das suas longas pernas, ou o delicado piercing que lhe feria o umbigo. Eles ensandeciam de desejo. Eles a queriam, como a queriam.

Um dia, de todos, foi o mais especial. Juliana se encostara à porta fechada do vestiário. De repente, ouviu o diálogo entre dois jogadores que estavam parados do outro lado. Um disse:

– O que eu mais queria era ver aquela mulher nua.

Juliana estremeceu. Supunha que falavam dela. Mas seria mesmo? Sentiu palpitações. Apurou o ouvido. O outro jogador como que arfou, e o que disse entre dentes quase a fez desfalecer de contentamento:

– Cara, tudo o que eu quero na vida é ver essa mulher do treinador nuinha! Nuinha em pelo!

E o outro:

– Dou todo o meu salário só para ver aquela mulher sem roupa!

Juliana como que flutuou pelo pátio do estádio. O maior desejo daqueles homens era vê-la nua! O corpo dela suscitava todos aqueles desejos, todas aquelas ânsias. Era maravilhoso. Era um sonho.

Depois disso, Juliana passou a ir ao clube todos os dias. O problema é que o time começou a perder. O grupo de jogadores apresentava dissensões, o vestiário estava desunido. O emprego de Julião entrou em risco. Foi o que ele disse uma noite para Juliana.

– Acho que vou perder o emprego – suspirou, enquanto vestia o pijama de sapinhos que ela lhe dera.

Juliana ficou apreensiva. Não queria que ele trocasse de clube. Não queria perder o contato com os olhares quentes dos jogadores. Mas o time não vencia mais. As brigas no vestiário se sucediam. Ninguém se entendia no clube, e Julião não conseguia mais impor sua autoridade. Até que chegou o dia decisivo.

– Se perdermos domingo, estou na rua – comunicou Julião à sua jovem esposa durante o café da manhã de sexta-feira.

Juliana dormiu mal aquela noite. O sábado ela passou casmurra, em sofrimento silencioso. Na manhã de domingo, resolveu tomar uma atitude. Foi até o hotel onde todos estavam concentrados. Chamou Julião. Ele desceu até o saguão. Antes de lhe dar um beijo de saudação, pegou em seus cotovelos e perguntou:

– Você confia em mim?

Julião estranhou, mas sabia que a mulher falava a sério.

– C-confio – gaguejou.

– Então me deixa falar a sós com os jogadores. Reúna todos em uma sala e depois saia. Preciso de 10 minutos com eles, e nós vamos ganhar o jogo.

Julião quis saber o que ela faria, o que ela diria, mas ela respondeu que não podia contar.

– Dez minutos – repetia, sem cessar. – Preciso apenas de dez minutos para explicar a minha tática.

Julião topou. Não lhe negava nada. Poucos minutos depois, Juliana entrou na sala em que os jogadores foram reunidos. Estavam sentados em cadeiras de ferro. Ela usava um vestidinho de alças e sapatos de salto alto. Parou de pé diante deles. Falou:

– Vou dar agora o que vocês sempre quiseram de mim.

E, com a mão direita, baixou a alça esquerda do vestido, expondo um seio firme de tamanho standard. Com a esquerda, removeu a outra alça, e ambos os seios se mostraram aos jogadores. Formavam um lindo par. Aí ela empurrou o vestido para além da cintura fina, das ilhargas sinuosas, das coxas fortes, dos joelhos redondos, das canelas lisas. O vestido pousou nos escarpins. Os jogadores estavam sem fôlego. Juliana continuou ali parada, só de calcinha, escarpins e piercing. Levou as mãos às tiras das calcinhas. O meia-esquerda começou a gemer baixinho.

– Se nós vencermos hoje – miou ela. – Tiro o resto antes do próximo jogo.

E entrou no vestido outra vez. E foi-se embora.

As preleções de Juliana tornaram-se célebres no clube. O time ganhou o campeonato. E Julião jamais descobriu qual era, afinal, a tática revolucionária concebida por sua mulher.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A tal da elite branca

Inventaram agora essa história de elite branca. Por favor. Uma das poucas vantagens que o Brasil realmente tem em relação a TODOS os outros países do mundo é a miscigenação. No Brasil, as etnias de fato se misturam, e o fazem com naturalidade.

Nos Estados Unidos existem tantas variedades étnicas quanto no Brasil, mas a miscigenação por aqui é mais custosa, as raças ainda se protegem homiziando-se em guetos, casando-se entre si. No Brasil, todos, japoneses, negros, alemães, anões, cafuzos, mamelucos, índios, brancos, azuis, todos são brasileiros.

É óbvio que existe racismo no Brasil — existe em toda parte do mundo. Mas a discriminação maior no Brasil é a social. Nos Estados Unidos havia racismo até nas leis. Não há mais. Eles fizeram ações afirmativas, puniram com rigor manifestações racistas e deram oportunidades iguais a todos. Hoje, negros ocupam cargos importantes, inclusive o mais importante. No Brasil falta precisamente isso _ oportunidades iguais. Não é seccionando a sociedade que se vai alcançar a igualdade. Ao contrário. Há que se unir. Se todos tiverem oportunidades iguais, questões raciais também serão atenuadas.

Donde a perversidade dessa conversa de elite branca. Tenho lido muito isso. Balela de quem quer parecer paladino na luta contra as desigualdades. Descrevem a tristeza dos que ficam do lado de fora do jogo do Brasil, assistindo às lágrimas a passagem dos privilegiados que têm ingresso. Uma jequice. Na Copa da Alemanha foi assim. Na do Japão também. Na Olimpíada de Londres, da mesma forma. Não há novidade. Um bilhão de pessoas querem assistir a um jogo desses, alguém vai ter que ver pela TV.

O ingresso do futebol é muito caro para o pobre. Oh! O ingresso para ver o Chico Buarque não é barato, nem o do show da Madonna, nem a entrada do cinema. Pelé não ganhava um milhão por mês. Fred ganha. Assim, ver Fred é mais caro do que era ver Pelé.

A elite branca xingou a presidente. Quem garante que pobres e pretos não o fariam? Essa elite branca é “branca” de fato? Existem “brancos” de fato no Brasil? Será que existe mesmo essa divisão, pobres e pretos a favor do governo, elite branca contra? Esse é um governo só para pretos e pobres? Como é que se faz para conseguir um governo para todos?

A falta de educação não tem cor nem classe social. Aconteceu em Itaquera, acontece em todo lugar. A falta de educação grassa no Brasil, basta ler o que brasileiros escrevem em comentários de blog e redes sociais a respeito das pessoas com quem não concordam.

Aliás, isso de presidentA. Será que os petistas inteligentes e ilustrados não vêem que isso é uma babaquice? Isso não valoriza a mulher coisa nenhuma, isso a ridiculariza. Quem é o taipa que fala presidentA sem achar estranho?
A propósito, havia no Brasil uma propaganda do TSE, não sei se está passando ainda. É para incentivar as mulheres a concorrer a cargos públicos. A mulher da propaganda pergunta: “Até quando vamos deixar que ELES falem por nós?” Mas como? Um homem não pode representar mulheres no parlamento? Temos que votar por gênero, homem vota em homem, mulher vota em mulher? É assim?

Elite branca, presidentA e outros que tais são apostas na divisão, na ruptura social. Não levam a nada. Ou, antes: não levam a nada de bom.

sábado, 17 de maio de 2014

Um livro, uma história...

Uma tarde, faz já algum tempo, recebi uma ligação estranha. Uma voz de mulher identificando-se como enfermeira. Dizia ter livros para me dar, muitos livros. Livros para me dar! Gosto disso.

A mulher contou que cuidava de uma paciente com 99 anos de idade,uma senhora que vivia sozinha em sua casa próximo ao centro da cidade. Durante todas aquelas décadas, a senhora acumulara livros à mancheia. Agora, no fim da sua jornada nesse Vale de Lágrimas, enfraquecida por doenças, acamada, os livros não lhe serviam mais e, como em geral acontece, a família não sabia o que fazer com eles. Donde, a ligação. Eu queria os livros? Uau! Claro que queria!

Combinei de buscá-los num sábado pela manhã. Passei dias imaginando a biblioteca que transferiria para minha casa. O porta-malas do meu carro seria suficiente para carregá-los? Teria de buscar caixas no supermercado? Que autores me esperavam?

Na data aprazada, cheguei ao endereço que a enfermeira havia me dado, uma casa antiga, preservando a arquitetura original da metade do século passado, próximo ao centro da cidade. Quem abriu a porta foi uma jovem: a enfermeira. Uma dia antes, a velhinha se mudara para o hospital.

A moça me conduziu até algumas pilhas de volumes atirados no parquê da sala. Dezenas de livros. Centenas, talvez. Agachei-me para examiná-los. Mal conservados, empoeirados, alguns já sem a capa. Muitos escritos em francês, outros tantos em espanhol, a maioria “romances de moças” do meio do século passado. Os títulos se assemelhavam: o marido ideal, a noiva feliz, a paixão realizada, o homem da minha vida, amores, amores, amores sem fim. De todos aqueles livros, só um me interessou. Um único.

Suspirei. Ergui-me. O estilo dos livros despertou-me uma suspeita. Perguntei à enfermeira se podia ver mais da casa. Ela concordou. Guiou-me pelas peças amplas, atulhadas de mobiliário. O lugar parecia ter sido congelado nos anos 50. Como essas residências de casais que têm filhos já adultos, filhos que já se emanciparam e foram embora, viver suas próprias vidas em seus próprios apartamentos. A casa dos pais fica cristalizada no passado, no tempo em que as crianças davam-lhe alma. Assim era a casa da velhinha, com seus porta-retratos, seus abajures, suas cristaleiras.

Voltei para as pilhas de livros. Peguei o único que havia considerado aproveitável. Virei-me para a enfermeira:

– Desculpe perguntar, mas essa senhora… ela é solteira?

– É – confirmou.– Noventa e nove anos e nunca se casou, apesar de ter sido bem bonita quando jovem. Nunca teve um homem, um namorado, nada. Sabe…– a enfermeira vacilou – ela era virgem… Mas, esses dias, enquanto cuidava dela, ela se ergueu na cama e perguntou se eu era sua filha…

Olhando para o livro que tinha nas mãos, mal acreditei em toda aquela história. Era redonda demais. Era como se fosse um filme. Como uma das histórias romanescas que embalaram a imaginação da dona do apartamento em sua juventude. Porque o livro,o único livro interessante dentre tantos que ela havia guardado em sua longa vida, era um clássico de Gabriel García Márquez:

“Cem Anos de Solidão”.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os crimes de abril de 1964

O primeiro assassinato aconteceu às 3h45 da manhã do dia 2 de abril quando o presidente da Câmara de Deputados, Ranieri Mazzilli, foi empossado na presidência da República com João Goulart ainda em território brasileiro. Assassinato da Constituição. Depois disso, todos os crimes foram cometidos. O jornalista Eurilo Duarte, no livro “Os idos de março e a queda em abril”, organizado e publicado, ainda em 1964, pelo golpista Alberto Dines, então diretor do Jornal do Brasil, não teve como negar: “Dia 3 de abril: calcula-se em 10 mil o número de prisões pela polícia e pelo exército. Entre os presos, o físico Mário Schemberg, professor de Física Nuclear da Universidade de São Paulo”. Mais: “A caravana policial leva tudo, e investigadores são vistos carregando máquinas de escrever, somar, enciclopédias”.

Até Alberto Dines teve de reconhecer: “A primeira lista de prisões foi atroz. As arbitrariedades iniciais, sufocantes. Os mandatos cassados e os expurgos dos dias seguintes foram um choque. A única saída era desprezar Jango, porque fora a sua leviandade, fora a ambição primária dos que o rodeavam as causadoras do expurgo”. Como eram antas os jornalistas conservadores de 1964! Apoiaram a implantação de uma ditadura achando que era a democracia. Carregaram nos braços, no combate à corrupção de esquerda, o rei dos corruptos de direita, o governador de São Paulo Adhemar de Barros, que, dado o golpe, passou a exigir cassações para que a “revolução” pudesse “cumprir o seu objetivo”. Os taipas brincaram com fogo.

Alguns, como Antonio Callado, que se tornaria escritor bajulado, lambuzou-se na lama das suas imagens grotescas: “Jango puxou vários gatilhos. Ao que se sabe, muitos cirurgiões lhe garantiram, através dos anos, que poderia corrigir o defeito que tem na perna esquerda. Mas o horror à ideia de dor física fez com que Jango jamais considerasse a sério o conselho. Talvez por isso tenha cometido seu suicídio indolor na Páscoa”. Um cara que escreve isso é um pulha.

Um medíocre. Era, como hoje, ser moderninho.

Callado, com essa verve, seria, se vivo fosse, colunista da Veja e parceiro dos lacerdinhas.

Ele era capaz de muito pior. Sobre o exílio de Jango no Uruguai: “No mais, o tédio de Dona Maria Teresa, a procurar casa, a levar as crianças à praia, com saudades do Brasil e do carro novo em folha, uma Mercedes verde, tipo esporte, que Jango não tinha querido que ela estreasse, para evitar ostentação. Agora, Dona Maria Teresa, não tem mais o marido Presidente e nem tem o carro (…) Haverá ainda algum futuro político para esse líder de apenas 40 anos? Parece pouco provável (…) E quando, eventualmente, chegar à Presidência da República um homem de esquerda, Jango talvez reapareça como vice”.

A isso se chamava de jornalismo. Alguns sentem saudades desses tempos de suposta profundidade e alta qualidade. O jornalismo brasileiro dos anos 1950 e 1960 era pura ideologia. Não mudou.

Na época, caluniar quase não dava processo. O único jeito de resolver era à bala.

A luta armada no Brasil, resistência das esquerdas à ditadura, começou depois do golpe.

A imprensa, apoiando os defensores do golpe, tenta alterar essas datas.


Só para constar relutei muito antes de postar um texto sobre esse golpe civil-militar mas por ter escutado tantas asneiras sobre pessoas defendendo essa mancha escura em nossa história resolvi me manisfestar.

sábado, 15 de março de 2014

Beija Eu

Nos flashes coloridos, ela se movia tenaz. Seu quadril, feito uma batedeira orbital, visitava as imediações de seu corpo perfeito com a velocidade de um daqueles bonequinhos de corda. O lábio inferior mordido sem esforço, sem tipo, só desejo. O cabelo lhe caía ao rosto como uma cortina de seda, revelando e escondendo as janelas de sua alma.

Ele, atordoado, segurava o copo de vodka a meia altura, molhando os pés de quem esbarrava. Tolos, não haviam notado a mulher mais espetacular do planeta, bem ali, ao lado de um senhor de meia idade girando as mãos como girava-se na idade média.

Dessa vez não poderia culpar o álcool que roubava o espaço do sangue em suas veias, muito menos os sete meses e meio que estava sem fazer sexo. Nem com ele mesmo. Era um chamado, como as sereias atraíam os velhos lobos do mar. Era magnetismo que o fazia atravessar a pista de dança para conhecer aquele espetáculo. Aquela batedeira orbital.

Como numa equação perfeita eles se entreolharam, sem escolha, sem apresentação, se outros casais diziam ter química, estes não. Tinham física, circundavam o mesmo ponto como fossem elétron e próton, agitados para se fundirem no mesmo núcleo.

Pernas enroscadas, ele a envolvia com um dos braços enquanto o outro segurava o copo de vodka, perigosamente próximo as mãos giratórias do senhor de meia idade. Ela apoiava os pulsos em seus ombros, as mãos ficavam penduradas de maneira relaxada, tocando com as pontas dos dedos seu trapézio.

A temperatura subiu, e com ela foi o copo de vodka, arremessado com um golpe certeiro do senhor de meia idade em direção ao globo de espelhos. As respirações ofegantes, sincronizadas é claro, eram divididas ao pé do ouvido, como quem quer mostrar o quanto está fora de si. Livre da vodka ele a laçou com o braço direito pela cintura, o movimento lançou seus cabelos dourados para trás revelando seu rosto assustado e excitado. Sem fechar os olhos, lentamente se aproximaram, o olhar dele era clássico, depois de seis doses de vodka, entreaberto, o dela estranhamente apreensivo, como se encarasse um desafio.

Ele finalmente a beijou, e o mundo parecia estar em câmera lenta. Para ele, desde que encostou seus lábios aos dela, tudo parecia moroso como uma canção de João Gilberto, o tempo realmente não passava, seu gosto, os movimentos de sua língua, as escapadas que deixavam suas bochechas e queixo úmidos, aquele beijo parecia que nunca acabaria. Mas acabou. E depois de toda aquela tensão. ele finalmente a olhou nos olhos e disse:

- Sabe, eu tenho uma teoria. Não acredito que beijos sejam bons ou ruins. Eles simplesmente se encaixam ou não. Mas hoje eu percebi que estou errado. Seu beijo é como tentar alcançar um pudim de jiló no fundo de um copo longo e isso não deve agradar nem um Chow Chow no Cio.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pobre Brasil

Quando o Brasil era comandado pela direita, o governo era corrupto, truculento e conservador. Agora, que é comandado pela esquerda, o governo é igualmente corrupto, leniente com a violência e permissivo. Nos anos 60 e 70, o CCC, Comando de Caça aos Comunistas, empastelava jornais e espancava jornalistas. Nos anos 20 do século 21, os Black Blocks apedrejam jornais e assassinam jornalistas com bombas.
Que diferença faz para quem tem seu patrimônio destruído ou é agredido? Que diferença faz para os quatro filhos do cinegrafista que morreu nesta segunda-feira se seus assassinos são jovens universitários de esquerda ou playboys da direita? Será que os jovens que agridem gente para que a passagem de ônibus seja mais barata vão até a casa em que morava o cinegrafista dizer a seus filhos que eles nunca mais verão o pai?
A sociedade brasileira tem a consciência pesada por causa da ditadura, o que não é um sentimento ruim. Só quem tem algum caráter é torturado pelo remorso. Mas, no caso brasileiro, tenho dúvidas se é remorso de fato. Tenho mais a impressão de que é medo de provocar a ira de quem manda, protesta e acusa.
É por isso que o Brasil talvez seja o único país do planeta que não tem nenhum político que assuma ser de direita, salvo figuras folclóricas como Bolsonaro e Feliciano. Não, não, no Brasil todos são do centro para a esquerda. É um país inteiro torto para um lado. Por que não pode, no Brasil, o político ser de direita e decente, respeitado por suas opiniões mesmo por quem não concorde com elas? Por que todo político de direita tem de ser conservador e reacionário?
E por que todo político de esquerda tem de ser irresponsável? Por que todo político de esquerda tem sempre de trabalhar pela desestabilização? Não pode alguém ser de esquerda e ser consciente e equânime, mesmo quando a razão está do outro lado?
A direita enriqueceu seus apaniguados com a corrupção. Empresários lucraram selvagemente, embora ditadores como Geisel, Médici e Figueiredo jamais tenham colocado um centavo ilícito no bolso. A esquerda desvia dinheiro da corrupção para puxadinhos do Estado, ONGs escusas, organizações que sonham com o terrorismo, mas que não tem cacife suficiente para ser.
Qual é o melhor roubo? Nós temos que escolher entre um e outro? Só existem Malufs e Pizzolatos no Brasil?
O Brasil melhorou economicamente, da redemocratização para cá. Moralmente, está a um passo da falência. Tudo pode no Brasil, desde acorrentar um menino negro num poste do Rio, como se fosse um pelourinho, até disparar um morteiro na orelha de um repórter. Tudo pode. Basta você alegar que é de esquerda. Ou ser de direita e apoiar o governo da esquerda. Ou não ser porcaria nenhuma, mas estar do lado vencedor, na hora da vitória. Tudo pode.
Pobre Brasil.
Pobres filhos do Brasil.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Vestidinho

Ela era uma dessas mulheres cheias de opinião. Uma mulher inteligente. Até meio feminista. Estávamos juntos já há algum tempo. Ela trabalhava logo cedo, aí pelas nove horas. Eu, só à tarde.

Numa dessas manhãs, estava na cama, deitadão, enquanto ela se vestia. Fiquei observando. Gosto de observar as mulheres quando elas se vestem de manhã. Afofei o travesseiro, juntei as mãos atrás da nuca e pus-me em feliz contemplação.

Ela assestou a calcinha e mirou-se no espelho para conferir o resultado. Pareceu aprovar o que viu. Eu também. Depois, calçou os sapatos, uma sandália de tiras. Exatamente assim, em cima das sandálias e dentro da calcinha mínima, ela foi até o armário e escolheu um vestido. E botou aquele vestido.

Um vestido pequeninho. Mas miúdo, miudinho! Só para ter idéia: as rendas da calcinha ficavam de fora. Dei um pulo na cama. Falei sem pensar, num impulso, eu que nem sou de falar essas coisas para uma mulher. Mas falei. Falei mesmo. O seguinte:
— Tu não vais sair assim!

Ela parou. Me olhou:
— Como é que é?

Não recuei. Tinha ido longe demais. Não ia voltar atrás. Confirmei:
— Tu não vais sair assim!

Ela sorriu:
— Por que não?

E eu:
— Porque eu não quero! Imagina: as tuas calcinhas estão aparecendo! Todo mundo vai ver as rendas da tua calcinha! Não vai!
— Não vou por que tu não quer, é isso?

Não podia mais voltar daquele ponto. Confirmei:
— Exatamente! Não vai porque eu não quero!

Naquele momento, pensei: ela é uma mulher inteligente, cheia de opinião, não vai admitir meu veto. Vamos ter sérios problemas, agora. Vamos discutir, vamos brigar, vai ser medonho.

Mas não. Ela abriu um sorriso cheio de dentes, uns 80 dentes, sentou-se na beira da cama, pegou minha mão e a pôs entre as mãozinhas macias de creme Nívea. E miou:
— Foi a coisa mais linda que tu já me disseste…

Depois, trocou de roupa toda faceira e se foi sorrindo. Fiquei lá, deitado na cama, perplexo, mas compreendi: com as mulheres, realmente, a gente precisa saber o que quer.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ah é?

- É. Tem gente que não tem simancol mesmo?
- Quem amor?
- O pessoal lá do trabalho.
- Mas o que aconteceu?
- Sabe o Leivinha?
- Leivinha?
- É, o Leivinha.
- Que Leivinha amor?
- O Leivinha, aquele que no churrasco do Ramos dormiu com mão na pança, embaixo do sol.
- Ah! Sei, sei.
- Então, ele foi transferido há pouco tempo para o meu departamento. Graças a ele, não poderemos viajar no fim do ano.
- Mas como assim? Não acredito! Você diz no Natal e Ano Novo?
- Exato.
- Você está louco que eu não vou pra praia. Tô até fazendo dieta pra vestir o biquininho.
- Pois pode voltar a comer seu meio-kilo de bolinho de chuva diário. O lugar mais longe que iremos nesse final de ano é Diadema.
- Não acredito nisso. Isso é um ultraje, uma afronta, um obséquio. Vou matar esse Leivinha, acabar com a raça dele, fazer ele pegar leptospirose. Mas o que ele fez mesmo?
- Então, o Pit Bull, nosso chefe de departamento, veio nos perguntar se conseguiríamos terminar todos os relatórios relativos a esse ano antes do Natal, pra ver se daria para emendarmos os feriados.
- Entendi.
- Ele me perguntou e prontamente respondi que tinha certeza que ficariam.
- E ficariam?
- Não tenho idéia. Mas provável que não.
- Imaginei.
- Mas isso não importa, o negócio é que logo depois de responder, passei a bola pro Leivinha, se ele confirmasse o que eu disse, no dia 23 estaríamos queimando o chão.
- Queimando o chão?
- É amor, indo embora.
- Eu sei o que significa, só não sabia que alguém ainda falava isso.
- Bem, que seja. Pra ajudar a besta do Leivinha, quando perguntei pra ele sobre a os relatórios, já preparei o terreno. Perguntei daquele jeito que pela entonação você já saca a resposta. Sabe?
- Não.
- Daquele em que já se sabe o que se quer dizer sem precisar continuar.
- Bem, que seja, como foi?
- Falei pra ele “eu acho que dá pra terminar Leivinha, será?”
- E?
- E ele falou que não tinha certeza, que seria difícil.
- E daí?
- E daí que o Pit Bull já encerrou o assunto. Sem emenda.
- Mas você mesmo me disse que provavelmente não daria. Que culpa tem o Leivinha?
- Tem culpa em não ter entendido minha mensagem.
- Que era?
- Ele teria que ter respondido “é lógico”.
- Mas como ele ia saber?
- É óbvio. Se eu pergunto “Será?” a resposta automática é “É lógico”.
- Como assim óbvio? Nunca soube disso.
- Como não? Vivo falando essas coisas.
- Nunca ouvi.
- Você que não presta atenção.
- Me dê algum exemplo então.
- Fácil, é só lembrar da nossa briga do réveillon do ano passado.
- Nem me fala do ano passado.
- Não vou entrar no mérito da discussão, mas lembra como começou?
- Lembro.
- E como foi?
- Eu falei pra você que minha mãe ia ficar sozinha lá na casa de Caçapava no ano novo e você respondeu com aquele seu jeitinho “Ah é?”.
- Exato. Esse jeitinho. Porquê você ficou brava com um simples “Ah é?”
- Porquê te conheço seu vigarista. Estava querendo dizer “Ah é? Fooooooda-se!”
- Então.
- Então o que? Achava que eu não ia ficar brava? É minha mãe.
- Não! Tô falando sobre o jeito de falar. Você percebeu o meu tom sem eu falar, o Leivinha não.
- Ah!Agora entendi.
- Por isso nós vamos ter que ficar pra passagem do ano da Paulista mesmo.
- Vamos nada!
- Como assim?
- Você acha que depois do que passei no réveillon passado vou ficar mofando aqui em São Paulo? Aqui ó! Vou pra praia me esticar o dia inteiro lá no Gonzaga pra voltar preta.
- Mas amor, eu acabei de te falar que o escritório não vai emendar.
- Emenda por conta própria, não quero nem saber.
- Não posso, o último cara que fez isso com o Pit, perdeu o emprego. Encontrei o sujeito uns dois meses atrás, quase bati na carroça de papelão dele. Se eu emendar vou ter o mesmo futuro.
- Ah é?

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Calma, eu posso explicar tudo!!!

Algumas situações são perfeitas pra se pensar na vida e ter idéias. Ao contrário do que muita gente pensa, “fazer nada” não ajuda muito. Nesta condição, rapidamente você se distrai e começa a pensar em coisa que não interessa ou o que é bem pior, se pega cutucando uma cutícula, contando quantas azulejos tem a parede da cozinha, enfim, logo você perde o foco.

Para mim, o ideal é buscar ações simples e absolutamente mecânicas que anestesiem o lado “Ei! Fala comigo!” do cérebro. Dirigir, lavar a louça, caminhar ou tomar banho, são alguns exemplos disso. É num desses momentos que normalmente temos os “estalos” que podem ajudar muito na resolução de grandes dilemas ou, como na passagem que vou contar a seguir, podem te colocar em situações absolutamente surreais.

Sempre que preciso “pensar na vida” eu pego meu carro e saio pra dirigir pela madrugada. Se for dia de semana, melhor. Pouquíssimos carros na rua, sem hora pra se chegar em lugar nenhum.

Lembro de certa vez há muitos anos atrás que fiz isso, estava circulando pelo meu bairro, bem devagar, olhando pra Lua, em segunda marcha, sem acelerar, deixando apenas a marcha-lenta do carro levá-lo, mais ou menos na velocidade que ficam os carros de segurança privada.

Tive então meu primeiro “estalo genial”! Abri a porta fiquei olhando o asfalto passando devagarzinho. A gente não percebe que apesar de estarmos parados dentro do carro, estamos andando. Meio idiota isso, mas divertido. Seinfeld disse uma vez : “O mais legal de um carro é que quando estamos nele, estamos parados, mas estamos andando … e estamos pra fora, mas estamos dentro de um lugar. 4 coisas de uma só vez!”

Muito bem, eram três e meia da madrugada, eu cruzando um quarteirão a 20 Km/h, com a porta aberta, olhando o chão, vendo as faixas brancas aparecerem e sumirem vagarosamente. Aí vem o “segundo estalo” – “Bom … se eu sair do carro agora, ele continua andando e eu posso correr atrás dele e entrar de novo …” – a razão tenta aparecer – “Não … não … que bobagem!” -, só tenta – “Bobagem nada! Ia ser bem engraçado…”

Já passei da idade de respeitar muito a razão em prol de uma experiência antropológica desse tipo. Rapidamente, antes que eu mudasse de idéia, tirei o cinto de segurança, abri mais a porta, me assegurei que mesmo que ela batesse, poderia ser aberta por fora, olhei pra frente e pelo espelho conferindo pela última vez que o carro estava bem no meio da rua e que nenhum outro carro andava por perto, e então pulei.

Ao tocar meu pé no asfalto comprovei de maneira concreta a frase dita pelo comediante americano. De um estado absolutamente inerte, tive que dar uma corridinha meio desequilibrada pra não cair de cara no chão.

Quando me “estabeleci” fora do carro, continuei caminhando e olhei pra frente. Lá ia meu bom e velho companheiro de quatro rodas pela rua, devagarzinho, em seu primeiro “vôo-solo”. Ouvi o barulho do atrito do pneu com o chão se misturando ao som do motor e do rádio. Não costumamos ouvir isso de dentro do carro.

Comecei a rir, corri, segurei a porta, olhei para o interior do carro. Pensei em qual pé colocaria pra dentro primeiro, mas achei melhor não pré-definir nada porque quando pensamos muito neste tipo de ação, caímos. No meio dessas resoluções todas, pulei pra dentro.

Perfeito! Tudo perfeito! Fechei a porta, segurei o volante e tive então um ataque de riso – “Genial! GENIAL!” – eu dizia enquanto ria.

Me animei (aí que mora o perigo), pensei novamente “ E se eu corresse pra ver o carro de frente?” ri muito, novamente – “E mais! Se fizesse isso cruzando uma rua!!” mais gargalhadas!

No quarteirão seguinte, não me agüentei. Repeti o procedimento de saída, bati a porta do carro por fora e saí correndo como um louco, no meio da rua, em frente ao carro, rindo.

Cheguei na esquina, vi que não vinha carros de nenhum dos lados, corri mais um pouco e sentei no meio-fio, iniciando outro ataque de riso, olhando o meu carro, sozinho, com seus faróis acesos, quase em câmera lenta, firme e decidido atravessar a rua, mesmo que sem seu motorista.

Quando ele chegou ao meio do cruzamento, parei de rir um pouco e fiquei me divertindo com aquela cena absolutamente non-sense. Me distraí, o carro passou por mim e quando levantei para começar a andar atrás dele, ouvi -“Piiiiiiuuuuuuuuuu”.

- Ah, não! – pensei.

Um carro de policia surgiu do nada, entrando na rua que meu carro estava, e deu um sinal para o teórico motorista do Celta Preto parar o carro.

Eu fiquei momentaneamente congelado. Meu carro seguia confiante, sem dar a mínima pra polícia. Já estavam no meio da quadra. “Piiiiiuuuuuuuu” – mais uma sirene. E dessa vez eles ligaram um holofote pra tentar ver o condutor.

Sem pensar, saí correndo. Por sorte, meu carro estava bem regulado e alinhado. Rapidamente alcancei a caravana, passei pelos policiais que me olharam um pouco ressabiados. Não resisti, balancei a cabeça e acenei com a mão:

- Boa noite! – sem respostas deles.

Continuei correndo. Pensei em passar pelo carro e entrar numa rua qualquer e desistir do resgate, mas lembrei da cena do Forrest Gump, quando ele pula de um de seus barcos para cumprimentar seu velho amigo, Tenente Dan. Pra quem não viu o filme, o barco se espatifa num cais. Não queria um final próximo para meu querido carrinho mesmo sabendo que não havia um cais por perto.

Abri então a porta do carro, o holofote da polícia veio diretamente para o meu rosto, olhei para a viatura, acenei um “oi” tímido e atrapalhado e me joguei para dentro carro.

Obviamente, os policiais aceleraram e ligaram a sirene. Eu coloquei meu cinto, dei seta e encostei.

Fiquei esperando dentro do veículo, nervoso, mas tentando me conter .

Os dois guardas vieram em minha direção empunhando seus revólveres. Liguei a luz de cortesia pra mostrar que eu não estava fazendo nenhum movimento suspeito. Quando o policial se aproximou, não resisti e novamente disse :

- Boa noite, senhor.

Não sem razão, ele estranhou mais ainda minha aparente calma e tentou responder:

- É … Boa noite … – rapidamente ele recuperou a compostura e disse alto – Mão na cabeça e pode ir saindo do carro.
- Ok. Posso desligá-lo ?
- Heim?
- Senhor, eu sei que parece esquisito, mas meu carro está com um problema no câmbio e não posso desengatá-lo, se eu soltar meu pé da embreagem, ele anda.

O guarda ficou me olhando com aquela cara de “ele acha que eu sou idiota, mas vou ver até onde isso vai”:
- Ok.

Desliguei o carro, e lentamente saí.
- Documentos e pode virar de costas com as mãos no teto do carro.

Até pensei em começar a explicar o inexplicável, mas apenas fiz o que ele me mandou. Rapidamente ele pegou minha carteira e fez um sinal para que seu parceiro me revistasse. Viram que eu não apresentava nenhum objeto suspeito e me pediram então para ficar de frente pra eles.

Eu, sem a menor idéia do que esperar, virei e abaixei a cabeça.

Vi que o nome do policial que analisava meus documentos era “Ten. Saraiva”, mais clichê impossível. Eles já não empunhavam suas armas mais. Bom sinal. Ele devolveu meus documentos e apenas disse :

- Tá bêbado, Cidadão?
- Nem um pouco, senhor.

Ele sinalizou positivamente com a cabeça. Depois de um breve silêncio. Perguntou :
- E essa baboseira do problema do câmbio. Mentira, né?
- Sim senhor.
- Sei …

Algo no olhar do tal “Saraiva” me passava tranqüilidade. Não sei porquê, achei melhor não mentir mais.
- E existe alguma explicação decente pro que aconteceu ali ? – disse ele apontando para a esquina.

Posso dizer que vi o filme da minha vida passando na minha frente. Pensei em milhões de desculpas, mas respirei fundo, então e respondi:
- Não …

Ele me olhava como se quisesse ainda saber algo. Respirei fundo de novo e comecei a falar, lentamente:
- A única coisa que posso dizer ao senhor … é : sabe aqueles momentos da vida em que você é sua pior companhia?

Ele fez cara de “explique melhor”. Eu obedeci.
- Aqueles momentos em que a gente tem certeza que não deveria fazer algo, mas mesmo sem um bom motivo vai lá e faz?

Ele me observou, olhou para seu parceiro, voltou seus olhos para mim, levantou sua mão esquerda e com o dedão apertou a aliança :
- Tá vendo esse anel?
- Sim senhor.
- Eu já fiz isso aí 2 vezes. – pausa – E ontem, descobri da pior forma possível, que pela 3ª vez, lá tava eu fazendo algo que sempre soube que não devia.
- Bom … pelo menos, no início o senhor parecia ter um bom motivo, não?
- Mas 3 vezes?! Será que um homem não é burro o suficiente pra errar por 2 vezes? O cara vai lá e erra a 3ª!
- É … complicado.
- Complicado não, amigo. O nome disso é burrice!
- Não, em momento algum eu qui-
- Eu tou falando de mim, pode ficar tranqüilo! Aliás … faz o seguinte, pega seu carro, liga ele, vai embora e só me promete que nunca mais você vai fazer uma estupidez dessas!
- Prometo, sim senhor.
- E quer saber, pega essa aliança!
- Heim?!
- É! Já que eu sou uma mula, pelo menos vou deixar isso com você, como um lembrete pra ver se finalmente alguém aprende a largar a mão de ser estúpido!
- Mas senhor ?

Neste momento o segundo guarda, até então mudo, tentou falar. Agora eu podia vê-lo melhor, era bem mais jovem. O Tenente o fuzilou com seu olhar, mas ainda sim o jovem prosseguiu:
- Ele saiu do próprio veic-
- Que que você tá falando, ô menino? – interrompeu o mais velho.
- Não … nada, senhor! Mas é que o que esse rapaz fez é um absur-
- Estupidez! Ele fez uma estupidez grande, não foi? – olhando pra mim.

Eu confirmei acenando com a cabeça. Ele continuou :
- O que você quer que eu coloque na ficha dele. O meliante está sendo detido porque é um estúpido!? É isso?
- Não, nã-
- Porque se for por isso, você vai ter que me algemar junto. E se ele é réu primário, eu já sou reincidente, e pelo grau da minha estupidez, eles vão ser obrigados aprovar a pena de morte só pra mim!!

Sem combinar, eu e o jovem guarda falamos juntos :
- Calma, senhor …
- Calma o cacete! É isso. Pronto! Eu sou um grande estúpido, você é outro estúpido, e meu parceiro que quer fazer tudo como manda a cartilha da escola militar acabou de provar que a estupidez não passa longe dele também!

Silêncio. Depois de alguns segundos ele estendeu a mão com a sua aliança.
- Pega!
Eu permaneci imóvel. Ele gritou:
- Eu tou mandando! Ou você prefere ir pra DP contar sua historinha pro delegado, que não está enfrentando nenhum tipo de problema pessoal?
- É … não, não. Ok, eu pego.
- Muito bem. E você! – disse para o outro – Esquece tudo que viu aqui! Eu sei que te colocaram comigo pra você aprender os procedimentos corretos da ronda noturna, mas definitivamente eu não tou numa fase boa pra isso. OKÁ?!
- S-s-sim, senhor. – respondeu, mais assustado do que eu, o jovem guarda.
- Entendidos então!

Eu segurava a aliança numa mão, os documentos na outra, atônito. Eles voltaram para a viatura, ligaram o carro, e ao passar ao meu lado, o ainda enfurecido Ten. Almeida gritou :
- Vai pra casa, Alemão! Hoje você deu sorte!

Eu fui, meio bobo e com a certeza de que tinha passado por um dos momentos mais absurdos e improváveis de toda minha vida.

Chegando lá, até pensei em tomar um banho pra esfriar cabeça. Mas, corri pra cozinha e comecei a contar os azulejos. Bem mais seguro! Vai que eu tenho outro “estalo” no banho …

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Pessoas magras mentem

Esse é um tempo de magros. Dias atrás, reencontrei um amigo que não via há anos e ele estava com sua esposa que está grávida! O João vai ser pai. O que significa que serei "tio". Cumprimentei- o, dei-lhe um forte abraço e bati em suas costas taptap, e de repente lhe disse:

— Pô, tu estás mais magro.

O rosto do João resplandeceu como se ele tivesse uma lanterna pendurada no queixo. Sorriu seu melhor sorriso, um sorriso de 28 dentes. Baixou os olhos para a barriga e a apalpou.

— Acha mesmo? — perguntou-me, incrédulo.

Eu:

— Acho, ué.

O João inflou o peito:

— Muito obrigado!

Obrigado, agora vê. Digo para um sujeito que ele está magro e ele me agradece. Ou seja: magreza é elogio. Quer agradar alguém? Diga:

— Você é uma pessoa magra.

Quer conquistar uma mulher?

— Para mim, você é a pessoa mais magra desse mundo. Nunca existiu uma pessoa tão magra como você, na minha vida.

Quer lhe dar votos de bom Ano-Novo?

— Desejo muita magreza para você em 2014.

Não era assim, antes. Minha avó vivia comentando:

— Encontrei o Tibúrcio, ontem. Está gooordo, boniiito. — Desse jeito, com três ós e três is. Eu podia imaginar o Tibúrcio, redondinho, vermelho e sorridente, a prosperidade de calça de tergal e suspensórios.

Só que tem o seguinte: os magros mentem. Não todos os magros, verdade, mas os ex-gordos. Você se encontra com um amigo que era gordo, e se surpreende — o cara está que é só o couro e o osso. Só o buraco e catinga, de tão magro. Espanto:

— Nooossa, que regimão, ahn? O que você deixou de comer?

Aí, sabe o que ele diz? Que come de tudo! Jura que não deixou de comer nem carnes, nem doces, nem massas, nem mesmo torresmo. Daqueles bem crocantes acompanhando uma cerva estupidamente gelada.

— É que tenho feito muito exercício — se exibe o ex-gordo.

CONVERSA! O ex-gordo está sofrendo, está passando a alface e chicória e água mineral. Sem gás. Pobre ex-gordo, tudo o que ele queria era um medalhão de picanha gorda, uma panela de feijoada, uma barra de chocolate, um bombom com licor, um quindão, que ex-gordo adora doce.

Por que, então, ele mente? Deixa que respondo: por vergonha. O ex-gordo tem vergonha do preço que paga para satisfazer a própria vaidade. A vaidade só é explícita quando é barata.