Esse é um tempo de magros. Dias atrás, reencontrei um amigo que não via há anos e ele estava com sua esposa que está grávida! O João vai ser pai. O que significa que serei "tio". Cumprimentei- o, dei-lhe um forte abraço e bati em suas costas taptap, e de repente lhe disse:
— Pô, tu estás mais magro.
O rosto do João resplandeceu como se ele tivesse uma lanterna pendurada no queixo. Sorriu seu melhor sorriso, um sorriso de 28 dentes. Baixou os olhos para a barriga e a apalpou.
— Acha mesmo? — perguntou-me, incrédulo.
Eu:
— Acho, ué.
O João inflou o peito:
— Muito obrigado!
Obrigado, agora vê. Digo para um sujeito que ele está magro e ele me agradece. Ou seja: magreza é elogio. Quer agradar alguém? Diga:
— Você é uma pessoa magra.
Quer conquistar uma mulher?
— Para mim, você é a pessoa mais magra desse mundo. Nunca existiu uma pessoa tão magra como você, na minha vida.
Quer lhe dar votos de bom Ano-Novo?
— Desejo muita magreza para você em 2014.
Não era assim, antes. Minha avó vivia comentando:
— Encontrei o Tibúrcio, ontem. Está gooordo, boniiito. — Desse jeito, com três ós e três is. Eu podia imaginar o Tibúrcio, redondinho, vermelho e sorridente, a prosperidade de calça de tergal e suspensórios.
Só que tem o seguinte: os magros mentem. Não todos os magros, verdade, mas os ex-gordos. Você se encontra com um amigo que era gordo, e se surpreende — o cara está que é só o couro e o osso. Só o buraco e catinga, de tão magro. Espanto:
— Nooossa, que regimão, ahn? O que você deixou de comer?
Aí, sabe o que ele diz? Que come de tudo! Jura que não deixou de comer nem carnes, nem doces, nem massas, nem mesmo torresmo. Daqueles bem crocantes acompanhando uma cerva estupidamente gelada.
— É que tenho feito muito exercício — se exibe o ex-gordo.
CONVERSA! O ex-gordo está sofrendo, está passando a alface e chicória e água mineral. Sem gás. Pobre ex-gordo, tudo o que ele queria era um medalhão de picanha gorda, uma panela de feijoada, uma barra de chocolate, um bombom com licor, um quindão, que ex-gordo adora doce.
Por que, então, ele mente? Deixa que respondo: por vergonha. O ex-gordo tem vergonha do preço que paga para satisfazer a própria vaidade. A vaidade só é explícita quando é barata.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Ombro
Depois de muito ponderar, Atílio decidiu:
Vou lamber esse ombro.
Considerou que era uma decisão madura, refletida e, por que não dizer?, sensata. Havia meses que desejava lambê-lo. Ao ombro. E também ao restante de sua proprietária, claro. Agora ambos, ombro e proprietária, estavam centímetros à sua frente. Atílio, a dona do ombro e todos os outros funcionários do escritório tinham sido reunidos pelo chefe, que fazia um comunicado qualquer. O chefe falava no meio da sala, os funcionários ouviam de pé.
Quer dizer: ouviam é força de expressão. Atílio não ouvia nada. Sua atenção, sua alma, seus sentidos tinham sido monopolizados pelo ombro dourado e nu que se oferecia a meio palmo de seu queixo. Atílio analisou-o acuradamente. Seguiu com o olhar a curva suave que descia rumo ao braço. Despencou quase até o cotovelo. Subiu de volta. Deslizou pela depressão formada pela omoplata. Escalou o pescoço delgado e elegante. Retornou outra vez para o centro do ombro adorado. Inalou seu perfume. Oooh. Ela era divina.
Atílio apoiou o peso do corpo em um só pé. Diminuiu ainda mais a distância entre ele e o ombro. Tão lindo, macio e brilhante, tão apetitoso… Atílio sentia-se emocionado. Tamanha perfeição não podia ficar relegada. Um ombro assim perfeito fora criado para dar prazer. Sim, devia lambê-lo. Sim! É o que iria fazer.
Mas, pensando bem, lambê-lo seria a melhor opção? Por que não morder de uma vez? Lógico! Com uma boa mordida, o mordedor capta sensações através não apenas dos dentes, mas também da língua e dos lábios. Serviço completo. Morder, esta é a solução. Morder! NHAM!
Atílio chegou a abrir a boca, chegou a sentir a textura da carne tenra nos molares. Até lembrar de um único senão: uma mordida talvez fosse agressiva demais.
É.
A dona do ombro pode se assustar, gritar, passar para o desforço físico, o que provavelmente não seria bem compreendido pelo pessoal do escritório. Seria um escândalo. Os colegas o chamariam de tarado, o chefe ficaria furioso, ela o acusaria de assédio sexual, e sua mulher, que agora estava na praia com seu filho Cuquinha, descobriria tudo em menos de 12 horas e se separaria dele. Sua vida acabaria ali, com uma simples mordiscada. Não, melhor descartar a mordida. Atílio congratulou a si mesmo pelo seu bom senso. Como uma ideia de tal forma espaventosa pôde germinar em seu cérebro sempre sensato? Só podia ser o verão. O verão fazia isso com ele. O maldito verão com suas minissaias, suas miniblusas, seus ombros expostos.
Aiaiai.
Quem sabe um beijo? Iiiisso, um beijo doce e cândido. Um beijo é um carinho. Impossível recriminar um beijo. Já estava vendo a dona do ombro a suspirar. Ela exclamaria assim:
– Ó!
Atílio aprontou o biquinho. Curvou a nuca. Ia beijar. Mas cogitou: peraí, um beijo em uma superfície lisa como um ombro é tão-somente um roçar de lábios no tecido. Pouco prazer para tanto risco. Além disso, será que um beijo é de fato totalmente seguro? Afinal, há que se computar o fator surpresa. Poucas mulheres estão acostumadas a receber beijos no ombro durante reuniões de trabalho. O inusitado da ação talvez a assuste. Então, que seja uma lambida mesmo, um saudável intermediário que não será agressivo como uma mordida, nem insosso como um beijinho.
Lamber! Schlep!
Atílio sorriu, antegozando o prazer. Começou a salivar. Tirou a linguona para fora. Respirou fundo. E…
…e ela se virou. Virou-se de frente para ele, para seu imenso espanto. Sorria. Parecia feliz. Aproximou-se dele. Cada vez mais, cada vez mais. E… o beijou! Beijou-o nas faces. Uma, duas, três vezes. Sorria, ainda. Falou, enfim:
– Parabéns, Atílio!
Hein? Parabéns? Ele arregalou os olhos. Estava pasmado. Olhou no entorno. Todos sorriam, observando-o. O chefe sorria também.
– Uma bela promoção – a frase saiu do rosto sorridente de um dos colegas.
Promoção? Que promoção? O chefe! O motivo da reunião! Ele, Atílio, tinha sido promovido! Todos o cumprimentavam. Parabéns, parabéns. Atílio sentiu-se despertando. Sorria, agora. Agradeceu a todos. Agradeceu ao chefe. Voltou a olhar para ela. Que continuava sorrindo. Um sorriso diferente de todos os que lhe oferecera até então. Um sorriso em que dançava uma luz maliciosa, uma luz que, Atílio queria crer, era de promessas.
– Parabéns – repetia ela, sem parar. – Parabéns.
Devia ser mesmo uma belíssima promoção.
– Que é isso… – dizia ele, satisfeito.
Sorriu para ela, para a luz em seus olhos. Deixou seu olhar passear mais uma vez por aquele ombro dourado e nu. E agradeceu a Deus por ser verão.
Vou lamber esse ombro.
Considerou que era uma decisão madura, refletida e, por que não dizer?, sensata. Havia meses que desejava lambê-lo. Ao ombro. E também ao restante de sua proprietária, claro. Agora ambos, ombro e proprietária, estavam centímetros à sua frente. Atílio, a dona do ombro e todos os outros funcionários do escritório tinham sido reunidos pelo chefe, que fazia um comunicado qualquer. O chefe falava no meio da sala, os funcionários ouviam de pé.
Quer dizer: ouviam é força de expressão. Atílio não ouvia nada. Sua atenção, sua alma, seus sentidos tinham sido monopolizados pelo ombro dourado e nu que se oferecia a meio palmo de seu queixo. Atílio analisou-o acuradamente. Seguiu com o olhar a curva suave que descia rumo ao braço. Despencou quase até o cotovelo. Subiu de volta. Deslizou pela depressão formada pela omoplata. Escalou o pescoço delgado e elegante. Retornou outra vez para o centro do ombro adorado. Inalou seu perfume. Oooh. Ela era divina.
Atílio apoiou o peso do corpo em um só pé. Diminuiu ainda mais a distância entre ele e o ombro. Tão lindo, macio e brilhante, tão apetitoso… Atílio sentia-se emocionado. Tamanha perfeição não podia ficar relegada. Um ombro assim perfeito fora criado para dar prazer. Sim, devia lambê-lo. Sim! É o que iria fazer.
Mas, pensando bem, lambê-lo seria a melhor opção? Por que não morder de uma vez? Lógico! Com uma boa mordida, o mordedor capta sensações através não apenas dos dentes, mas também da língua e dos lábios. Serviço completo. Morder, esta é a solução. Morder! NHAM!
Atílio chegou a abrir a boca, chegou a sentir a textura da carne tenra nos molares. Até lembrar de um único senão: uma mordida talvez fosse agressiva demais.
É.
A dona do ombro pode se assustar, gritar, passar para o desforço físico, o que provavelmente não seria bem compreendido pelo pessoal do escritório. Seria um escândalo. Os colegas o chamariam de tarado, o chefe ficaria furioso, ela o acusaria de assédio sexual, e sua mulher, que agora estava na praia com seu filho Cuquinha, descobriria tudo em menos de 12 horas e se separaria dele. Sua vida acabaria ali, com uma simples mordiscada. Não, melhor descartar a mordida. Atílio congratulou a si mesmo pelo seu bom senso. Como uma ideia de tal forma espaventosa pôde germinar em seu cérebro sempre sensato? Só podia ser o verão. O verão fazia isso com ele. O maldito verão com suas minissaias, suas miniblusas, seus ombros expostos.
Aiaiai.
Quem sabe um beijo? Iiiisso, um beijo doce e cândido. Um beijo é um carinho. Impossível recriminar um beijo. Já estava vendo a dona do ombro a suspirar. Ela exclamaria assim:
– Ó!
Atílio aprontou o biquinho. Curvou a nuca. Ia beijar. Mas cogitou: peraí, um beijo em uma superfície lisa como um ombro é tão-somente um roçar de lábios no tecido. Pouco prazer para tanto risco. Além disso, será que um beijo é de fato totalmente seguro? Afinal, há que se computar o fator surpresa. Poucas mulheres estão acostumadas a receber beijos no ombro durante reuniões de trabalho. O inusitado da ação talvez a assuste. Então, que seja uma lambida mesmo, um saudável intermediário que não será agressivo como uma mordida, nem insosso como um beijinho.
Lamber! Schlep!
Atílio sorriu, antegozando o prazer. Começou a salivar. Tirou a linguona para fora. Respirou fundo. E…
…e ela se virou. Virou-se de frente para ele, para seu imenso espanto. Sorria. Parecia feliz. Aproximou-se dele. Cada vez mais, cada vez mais. E… o beijou! Beijou-o nas faces. Uma, duas, três vezes. Sorria, ainda. Falou, enfim:
– Parabéns, Atílio!
Hein? Parabéns? Ele arregalou os olhos. Estava pasmado. Olhou no entorno. Todos sorriam, observando-o. O chefe sorria também.
– Uma bela promoção – a frase saiu do rosto sorridente de um dos colegas.
Promoção? Que promoção? O chefe! O motivo da reunião! Ele, Atílio, tinha sido promovido! Todos o cumprimentavam. Parabéns, parabéns. Atílio sentiu-se despertando. Sorria, agora. Agradeceu a todos. Agradeceu ao chefe. Voltou a olhar para ela. Que continuava sorrindo. Um sorriso diferente de todos os que lhe oferecera até então. Um sorriso em que dançava uma luz maliciosa, uma luz que, Atílio queria crer, era de promessas.
– Parabéns – repetia ela, sem parar. – Parabéns.
Devia ser mesmo uma belíssima promoção.
– Que é isso… – dizia ele, satisfeito.
Sorriu para ela, para a luz em seus olhos. Deixou seu olhar passear mais uma vez por aquele ombro dourado e nu. E agradeceu a Deus por ser verão.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
A bunda do Alceu
Uma manhã, o Alceu descia no elevador quando viu, pelo espelho da parede, que o vizinho do sétimo estava olhando para a sua bunda. Não havia dúvida, ele estava olhando mesmo. Era um olhar guloso, de quem queria aquela bunda. A bunda dele!
O vizinho não tinha como saber que Alceu o flagrara, o espelho ficava pendurado em cima da porta, num ângulo em que permitia a observação de quem se posicionava no lugar do Alceu e em nenhum outro ponto do elevador. Durante a lenta viagem até o térreo, portanto, Alceu pôde constatar como o outro admirava a sua bunda, uma admiração intensa, concentrada, quase apaixonada.
Alceu sentiu-se constrangido. Corou. Pensou em virar-se de frente para o outro e encará-lo, mas aí ele perceberia que tinha sido visto, e Alceu não queria que isso acontecesse. Afinal, já havia outras pessoas no elevador, inclusive a loira do quinto. Se ele se voltasse para encarar o vizinho do sétimo seria muito… homossexual… Não, Alceu não podia protestar. Mas sentia-se invadido por aquele olhar, sentia-se, sabe-se lá, violado.
O outro não parava de olhar. Olhava com vontade. Alceu pensou na própria bunda. Seria uma bunda feminina? Empinada? Até então, Alceu achava sua bunda normal. Uma bunda como todas as outras. Só que aquele olhar não era um olhar que se dedica a uma bunda normal. Teria Alceu engordado e sua bunda crescido? Estaria ele com um bundão? O que poderia significar isso? Será que outros homens cobiçavam sua bunda? E as mulheres?
Alceu estava perturbado. O elevador enfim chegou ao térreo, as pessoas começaram a se movimentar para sair. O vizinho do sétimo continuava olhando para sua bunda. Não parava de olhar. E, quando Alceu se moveu, o homem… suspirou. Ele suspirou de desejo pela bunda dele! Aquilo, a princípio, enfureceu Alceu. Por pouco ele não girou nos calcanhares, desferiu-lhe um tapa na cara e gritou:
_ Tarado!
Por pouco. Mas, depois, Alceu se conformou. Pensou: então minha bunda é bonita? Nunca havia pensado que uma parte do seu corpo podia ser desejada por outras pessoas. Uma bunda bonita, quem diria? Foi a vez de Alceu suspirar. Com o suspiro entre os dentes, saiu do elevador. E se foi pelo saguão do edifício. Rebolando.
O vizinho não tinha como saber que Alceu o flagrara, o espelho ficava pendurado em cima da porta, num ângulo em que permitia a observação de quem se posicionava no lugar do Alceu e em nenhum outro ponto do elevador. Durante a lenta viagem até o térreo, portanto, Alceu pôde constatar como o outro admirava a sua bunda, uma admiração intensa, concentrada, quase apaixonada.
Alceu sentiu-se constrangido. Corou. Pensou em virar-se de frente para o outro e encará-lo, mas aí ele perceberia que tinha sido visto, e Alceu não queria que isso acontecesse. Afinal, já havia outras pessoas no elevador, inclusive a loira do quinto. Se ele se voltasse para encarar o vizinho do sétimo seria muito… homossexual… Não, Alceu não podia protestar. Mas sentia-se invadido por aquele olhar, sentia-se, sabe-se lá, violado.
O outro não parava de olhar. Olhava com vontade. Alceu pensou na própria bunda. Seria uma bunda feminina? Empinada? Até então, Alceu achava sua bunda normal. Uma bunda como todas as outras. Só que aquele olhar não era um olhar que se dedica a uma bunda normal. Teria Alceu engordado e sua bunda crescido? Estaria ele com um bundão? O que poderia significar isso? Será que outros homens cobiçavam sua bunda? E as mulheres?
Alceu estava perturbado. O elevador enfim chegou ao térreo, as pessoas começaram a se movimentar para sair. O vizinho do sétimo continuava olhando para sua bunda. Não parava de olhar. E, quando Alceu se moveu, o homem… suspirou. Ele suspirou de desejo pela bunda dele! Aquilo, a princípio, enfureceu Alceu. Por pouco ele não girou nos calcanhares, desferiu-lhe um tapa na cara e gritou:
_ Tarado!
Por pouco. Mas, depois, Alceu se conformou. Pensou: então minha bunda é bonita? Nunca havia pensado que uma parte do seu corpo podia ser desejada por outras pessoas. Uma bunda bonita, quem diria? Foi a vez de Alceu suspirar. Com o suspiro entre os dentes, saiu do elevador. E se foi pelo saguão do edifício. Rebolando.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Instinto Selvagem
Há certas coisas que um homem tem de fazer. Não digo obrigações, e sim necessidades. Compulsões. Como a de externar verbalmente sua admiração pela plasticidade das formas de um corpo feminino. Ou, em outras palavras, chamar uma gostosa de gostosa. Nunca fiz isso. Juro por Deus Nosso Senhor. Mas ontem mesmo vi uma moça passando na rua dentro de sua minúscula minissaia e um homem que vinha em sentido contrário, dentro de seu carro. Ela tinha pernas longas e com elas pisava airosamente no mundo. Ele, ao vê-la, trocou a marcha, reduziu a velocidade, abriu o vidro, pôs a cabeça para fora, arriscando-se a bater, e ganiu, entre dentes:
– Gossssstooooosaaaah…
O que ele ganhou com aquilo? Nada. Que utilidade prática teve o ato? Nenhuma. Mas ele teve de fazer. Teve!
A moça, ela não se abalou, não se sentiu ofendida, acho até que gostou, já que se empinou mais e pareceu ter ficado ainda mais garbosa e quase sorriu. O homem, ele seguiu seu caminho e dava a impressão de que estava aliviado, que o peso da existência ficara mais leve sobre suas costas.
Quer dizer: faz bem, isso!
Mas não é civilizado, claro que não. Não se deve sair por aí uivando
gosssstooosaaaah com agá no fim para todas as gostosas que se vir. Então, como o homem redirecionará essa angústia? Como o homem tirará de seu peito todo o sentimento represado? Simples: gritando num campo de futebol. Para isso servem as torcidas. Para descarregar a selvageria ancestral que existe em nós, homens. Porque nós jamais perderemos nossos
laivos animalescos, ao contrário das mulheres, as inventoras da Civilização. Logo, um cara que se descabela numa arquibancada não deveria sair pela rua a latir para as belas mulheres de minissaias sumárias. Mas eles latem. E brigam. E enlouquecem. Algo está errado nisso tudo.
– Gossssstooooosaaaah…
O que ele ganhou com aquilo? Nada. Que utilidade prática teve o ato? Nenhuma. Mas ele teve de fazer. Teve!
A moça, ela não se abalou, não se sentiu ofendida, acho até que gostou, já que se empinou mais e pareceu ter ficado ainda mais garbosa e quase sorriu. O homem, ele seguiu seu caminho e dava a impressão de que estava aliviado, que o peso da existência ficara mais leve sobre suas costas.
Quer dizer: faz bem, isso!
Mas não é civilizado, claro que não. Não se deve sair por aí uivando
gosssstooosaaaah com agá no fim para todas as gostosas que se vir. Então, como o homem redirecionará essa angústia? Como o homem tirará de seu peito todo o sentimento represado? Simples: gritando num campo de futebol. Para isso servem as torcidas. Para descarregar a selvageria ancestral que existe em nós, homens. Porque nós jamais perderemos nossos
laivos animalescos, ao contrário das mulheres, as inventoras da Civilização. Logo, um cara que se descabela numa arquibancada não deveria sair pela rua a latir para as belas mulheres de minissaias sumárias. Mas eles latem. E brigam. E enlouquecem. Algo está errado nisso tudo.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Em Homenagem ao Dia do Orgasmo
Essa estou postando em homenagem a Millor Fernandes, um grande escritor, ator, desenhista, e muitas outras qualidades, que infelizmente já nos deixou. Que Deus o tenha.
Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens, muito menos. Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado.
Orgasmo masculino não! É aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa. Diante desse mistério, as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto.
Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema. Vi, outro dia, no programa do Jô Soares, uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Walita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica.
Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela "Periquita" na hora do orgasmo, e chegou à incrível conclusão de que, na hora "H", a "perseguida" dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco "pererecas" juntas ligadas na hora do "aimeudeus!" seriam suficientes para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num Fusca com a bateria arriada.
Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tchan, carregou. É preciso ter cuidado porque isso não é mais "xibiu", é torradeira elétrica! E se der um curto circuito na hora de "virar o zoinho", além de vesgo, a gente sai com mal de Parkinson e com a lingüiça torrada.
Pensei: camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora "H", não tire o tênis nem pise no chão molhado... Pode ser pior!
É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu "biscoito" lá na canequinha de sua namorada, perguntar:
-É 110 ou 220 volts? Se não, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar
"ovo frito no café da manhã."
Esse país não melhora por absoluta falta de criatividade... São as mulheres, a solução contra o apagão.
Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens, muito menos. Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado.
Orgasmo masculino não! É aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa. Diante desse mistério, as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto.
Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema. Vi, outro dia, no programa do Jô Soares, uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Walita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica.
Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela "Periquita" na hora do orgasmo, e chegou à incrível conclusão de que, na hora "H", a "perseguida" dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco "pererecas" juntas ligadas na hora do "aimeudeus!" seriam suficientes para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num Fusca com a bateria arriada.
Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tchan, carregou. É preciso ter cuidado porque isso não é mais "xibiu", é torradeira elétrica! E se der um curto circuito na hora de "virar o zoinho", além de vesgo, a gente sai com mal de Parkinson e com a lingüiça torrada.
Pensei: camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora "H", não tire o tênis nem pise no chão molhado... Pode ser pior!
É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu "biscoito" lá na canequinha de sua namorada, perguntar:
-É 110 ou 220 volts? Se não, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar
"ovo frito no café da manhã."
Esse país não melhora por absoluta falta de criatividade... São as mulheres, a solução contra o apagão.
sábado, 1 de junho de 2013
Ensaio sobre a incessante busca de tudo e a paradoxal onipresença do nada frente a conquista dos objetivos pré-estabelecidos em períodos de total inconsciência da existência, ou não, do passo que leva adiante através de sinuosos caminhos anteriores ao saber de tudo e até mesmo ao encontro do nada.
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Acabou e agora???
Acabou e agora???
domingo, 12 de maio de 2013
A Picanha e o Cupim
Tenho pena do cara do cupim. O garçom, digo. Porque você entra num espeto corrido, senta-se e é sempre igual: todos procuram o cara do salsichão e do coraçãozinho. Um sucesso, o salsichão & coraçãozinho. Mas o garçom responsável sabe que seu momento de celebridade é fugaz como uma paixão de Carnaval. Passados os primeiros minutos, ninguém mais chama o cara do salsichão e do coraçãozinho, e ele só fica de longe, observando em silêncio ressentido o triunfo dos homens que carregam a costelinha, o lombinho, a cebola empanada.
Sim, a glória do salsichão & coraçãozinho é breve. Mas ao menos ele é recebido com algum entusiasmo. Nada que se compare, claro, à festa que espera o cara da picanha. As pessoas passam certo tempo mastigando alcatras e fazendo piadas sobre o vazio, mas o que aguardam de fato é a picanha. É por causa da picanha que estão ali.
Quando o cara da picanha chega, as conversas cessam, os olhares se voltam para ele, todos o solicitam: eu quero!, eu aceito!, mais um pedaço bem fininho! O cara da picanha é eternamente requisitado e seu retorno só deixa de ser reivindicado quando se fica cheio as tampas. Suponho que ganhe mais, o cara da picanha. Ele não é qualquer um. A gente logo percebe pela forma altiva com que se locomove entre as mesas, pelo olhar superior que envia para a vulgar costela.
Agora, quem é realmente desprezado pelo garçom da picanha é o cara do cupim. E não só pelo da picanha: ninguém lhe dá atenção. Ele pára numa mesa. Vai perguntando: cupim?, cupim? Ninguém quer. Nunca. Uns nem se dão o trabalho de responder. Nem olham para ele. Não estou entre esses insensíveis. Sempre observo o cara do cupim. Sei que é um magoado, um humilde rechaçado, triste e perenemente esperançoso com seu cupim intacto.
O cara do cupim deve se sentir como um professor do ensino público. Com uma diferença: o professor, por atender a toda a comunidade, devia ser o mais valorizado. O professor é quem devia ganhar mais e ter as melhores condições de trabalho. Mas não no Brasil. No Brasil, um professor ganha R$ 1 mil e se dê por satisfeito. No Brasil, economiza-se em infra-estrutura e se permite o caos de serviços como o do INSS, SUS e a nossa falida rede de ensino público. No Brasil, o professor da rede pública de ensino é tratado como um fornecedor de cupim, enquanto, na verdade, ele é o da picanha.
Só que é o seguinte: mesmo que o professor fosse o do cupim, mesmo assim não mereceria tal tratamento. Porque o cara do cupim também tem um coração! Eu, inclusive, confesso: não gosto muito de cupim. Prefiro picanha. Mas sempre peço cupim nos espetos-corridos, em desagravo ao cara do cupim. E, se o cara do cupim está por perto quando o da picanha chega, simplesmente recuso a picanha, por mais sumarenta que aparente. Brado:
— Não, obrigado. Prefiro cupim!
Então, noto com júbilo a decepção no rosto orgulhoso do garçom da picanha e o lume agradecido no olhar do tão sofrido cara do cupim.
Sim, a glória do salsichão & coraçãozinho é breve. Mas ao menos ele é recebido com algum entusiasmo. Nada que se compare, claro, à festa que espera o cara da picanha. As pessoas passam certo tempo mastigando alcatras e fazendo piadas sobre o vazio, mas o que aguardam de fato é a picanha. É por causa da picanha que estão ali.
Quando o cara da picanha chega, as conversas cessam, os olhares se voltam para ele, todos o solicitam: eu quero!, eu aceito!, mais um pedaço bem fininho! O cara da picanha é eternamente requisitado e seu retorno só deixa de ser reivindicado quando se fica cheio as tampas. Suponho que ganhe mais, o cara da picanha. Ele não é qualquer um. A gente logo percebe pela forma altiva com que se locomove entre as mesas, pelo olhar superior que envia para a vulgar costela.
Agora, quem é realmente desprezado pelo garçom da picanha é o cara do cupim. E não só pelo da picanha: ninguém lhe dá atenção. Ele pára numa mesa. Vai perguntando: cupim?, cupim? Ninguém quer. Nunca. Uns nem se dão o trabalho de responder. Nem olham para ele. Não estou entre esses insensíveis. Sempre observo o cara do cupim. Sei que é um magoado, um humilde rechaçado, triste e perenemente esperançoso com seu cupim intacto.
O cara do cupim deve se sentir como um professor do ensino público. Com uma diferença: o professor, por atender a toda a comunidade, devia ser o mais valorizado. O professor é quem devia ganhar mais e ter as melhores condições de trabalho. Mas não no Brasil. No Brasil, um professor ganha R$ 1 mil e se dê por satisfeito. No Brasil, economiza-se em infra-estrutura e se permite o caos de serviços como o do INSS, SUS e a nossa falida rede de ensino público. No Brasil, o professor da rede pública de ensino é tratado como um fornecedor de cupim, enquanto, na verdade, ele é o da picanha.
Só que é o seguinte: mesmo que o professor fosse o do cupim, mesmo assim não mereceria tal tratamento. Porque o cara do cupim também tem um coração! Eu, inclusive, confesso: não gosto muito de cupim. Prefiro picanha. Mas sempre peço cupim nos espetos-corridos, em desagravo ao cara do cupim. E, se o cara do cupim está por perto quando o da picanha chega, simplesmente recuso a picanha, por mais sumarenta que aparente. Brado:
— Não, obrigado. Prefiro cupim!
Então, noto com júbilo a decepção no rosto orgulhoso do garçom da picanha e o lume agradecido no olhar do tão sofrido cara do cupim.
domingo, 28 de abril de 2013
Falando no Chuveiro
A maioria das pessoas canta no chuveiro. Pelo menos é o que elas dizem. Eu não, já que as paredes têm ouvido, prefiro poupá-las. Mas sou humano, e se tem um momento em que posso descarregar todas minhas aflições e agonias, é no banho. Só que faço isso de uma forma diferente: eu represento.
Como cronista amador que se preze, eu sempre tento olhar o cotidiano de uma forma inusitada. Isso já me colocou em situações ridículas, como quando deitei no chão do banheiro, debaixo da pia, para entender como é a visão de uma barata se escondendo.
Essa busca incessante por uma análise “descolada” do meu dia-a-dia tem seu ápice no meu banho. Onde faço meu show particular de “Stand-Up Comedy” (aqueles shows onde um humorista fica no palco, sozinho falando um monte de besteiras pra platéia).
Pelas minhas contas, já fiz mais de 500 espetáculos, discutindo sobre os mais variados assuntos: A trajetória do sabonete num banho comum (num dia sem muita idéia), a trajetória do sabonete num banho a dois (na época em que eu era feliz), e diversos assuntos mais.
Mas na última temporada, confesso, só um assunto surge na minha cabeça. Eu entro no palco, abrem-se as torneiras e começo: “Quando um não quer, dois não fazem muitas coisas (pausa para os pingos me aplaudirem) : Brigam, conversam, jogam pingue-pongue, se beijam, namoram e até, a não ser em casos extremos, copulam.
Toda e qualquer forma de relacionamento humano depende única e exclusivamente da vontade (ou necessidade) das pessoas envolvidas.
Quando A e B se encontram, temos 4 situações possíveis:
-O A quer e o B também, isso é bom, veremos risadas, beijos, abraços, carinhos … enfim … como diria Tim Maia, o que importa é o amooor!
-O A quer e o B não. Partindo-se do pressuposto que o A é um homem e o B é uma mulher, a situação se complica. Veremos vários copos de cerveja na mão do A pra conseguir abordar o B, veremos papinhos ridículos como: Belle e Sebastian pra mim é TUDO!, veremos o A se expondo ao ridículo e o B vendo seu ego crescer, crescer e crescer. Veremos os amigos do A rachando o bico da cara dele depois do pé na bunda que ele tomará, e finalmente, veremos o
B beijando outro A logo depois, só porque ele é mais “in” que o primeiro.
-O A não quer e o B quer. Se continuarmos pensando na condição anterior, dizer que o A não quer é só uma questão de tempo. O B tem diversos recursos para mudar a opinião de A, a não ser que esse B seja tão feio que pareça um W, e o A esteja ainda sóbrio.
-A e B não querem. Isso é bom, aliás, é a mais fácil de todas a situações. Nada acontece.
Não tenha dúvida que as situações 2 e 3 são responsáveis por quase todos os problemas da humanidade.”
E por aí vai …
O mais interessante é que quanto pior está a vida, mais engraçado fica o show. Já teve caso da água se recusar a entrar pelo ralo, até eu atender aos pedidos de “bis”, quase afogado dentro do box. Se as coisas continuarem assim, tenho medo de inundar o bairro. Afogado no sucesso.
Como cronista amador que se preze, eu sempre tento olhar o cotidiano de uma forma inusitada. Isso já me colocou em situações ridículas, como quando deitei no chão do banheiro, debaixo da pia, para entender como é a visão de uma barata se escondendo.
Essa busca incessante por uma análise “descolada” do meu dia-a-dia tem seu ápice no meu banho. Onde faço meu show particular de “Stand-Up Comedy” (aqueles shows onde um humorista fica no palco, sozinho falando um monte de besteiras pra platéia).
Pelas minhas contas, já fiz mais de 500 espetáculos, discutindo sobre os mais variados assuntos: A trajetória do sabonete num banho comum (num dia sem muita idéia), a trajetória do sabonete num banho a dois (na época em que eu era feliz), e diversos assuntos mais.
Mas na última temporada, confesso, só um assunto surge na minha cabeça. Eu entro no palco, abrem-se as torneiras e começo: “Quando um não quer, dois não fazem muitas coisas (pausa para os pingos me aplaudirem) : Brigam, conversam, jogam pingue-pongue, se beijam, namoram e até, a não ser em casos extremos, copulam.
Toda e qualquer forma de relacionamento humano depende única e exclusivamente da vontade (ou necessidade) das pessoas envolvidas.
Quando A e B se encontram, temos 4 situações possíveis:
-O A quer e o B também, isso é bom, veremos risadas, beijos, abraços, carinhos … enfim … como diria Tim Maia, o que importa é o amooor!
-O A quer e o B não. Partindo-se do pressuposto que o A é um homem e o B é uma mulher, a situação se complica. Veremos vários copos de cerveja na mão do A pra conseguir abordar o B, veremos papinhos ridículos como: Belle e Sebastian pra mim é TUDO!, veremos o A se expondo ao ridículo e o B vendo seu ego crescer, crescer e crescer. Veremos os amigos do A rachando o bico da cara dele depois do pé na bunda que ele tomará, e finalmente, veremos o
B beijando outro A logo depois, só porque ele é mais “in” que o primeiro.
-O A não quer e o B quer. Se continuarmos pensando na condição anterior, dizer que o A não quer é só uma questão de tempo. O B tem diversos recursos para mudar a opinião de A, a não ser que esse B seja tão feio que pareça um W, e o A esteja ainda sóbrio.
-A e B não querem. Isso é bom, aliás, é a mais fácil de todas a situações. Nada acontece.
Não tenha dúvida que as situações 2 e 3 são responsáveis por quase todos os problemas da humanidade.”
E por aí vai …
O mais interessante é que quanto pior está a vida, mais engraçado fica o show. Já teve caso da água se recusar a entrar pelo ralo, até eu atender aos pedidos de “bis”, quase afogado dentro do box. Se as coisas continuarem assim, tenho medo de inundar o bairro. Afogado no sucesso.
terça-feira, 16 de abril de 2013
A Dentista
Minha dentista se chama Patrícia. Paty. Imagino que seja com ipsilone, fica mais fino. Linda, Paty.
Há tempo queria conversar com ela. Fazer uma tentativa. Por que não? Mas não conseguia.
No consultório, eu estava sempre com a boca aberta, cheia de algodão. Ou com aquele maldito sugador pendurado. Também tem outra: no consultório, me sentia em terrível posição de inferioridade. Puxa, aquela mulher me esburaca a dentina, me torce os nervos, me raspa os tártaros. Aquela mulher, literalmente, me conhece por dentro. E o que sei dela? No máximo, que suas gengivas são rosadas e seus dentes reluzentes pastilhas brancas. No consultório não dava. Não mesmo.
Durante muito tempo, sonhei em encontrar Paty na noite. Nunca tive essa sorte. Aí, no fim de semana, fui para o Litoral. Águas Belas. Local com uma bela praia e não muito cheia e me hospedei na casa do meu amigo Gabriel, com a turma. Tudo bem, tudo legal.
Enfim, lá estava eu, em Águas Belas. Manhã de sábado. Decidi sair sozinho pela praia, os amigos ainda dormiam, tinham bebido demais na noite anterior. Fui, distraidão, a água do mar me penteando os cabelinhos da canela. Então a vi. Minha dentista. De biquíni! Nossa, que biquíni miudinho. Havia Patrícia por todos os lados, em volta daquele paninho mínimo.
A chance pela qual esperava chegara. Mas o que dizer para ela?
Tinha que ser algo especial. Algo que a interessasse. Ela agora se estendia de costas na cadeirinha de plástico. Por que não pensei antes no que falar? Estava cada vez mais perto. O que será que pode chamar a atenção dela? Faltavam poucos metros. O que a interessaria, sem erro? Ela virou a cabeça para o lado. Reconheceu-me. Sorriu. O sorriso me animou.
É agora, pensava. É agora.
Precisava decidir rápido. O que a interessaria? O quê?
– Oi – cumprimentei, ajoelhando-me ao seu lado.
O que falar? O que falar? O que falar?
– Oi – ela respondeu.
Um oi lindo. Muito bem pronunciado. Muito bem acentuado. Comecei a suar.
– Paty...
– Sim? – ela se apoiou nos cotovelos para me ouvir.
– Sabe, eu estava pensando, desde a última vez que nos encontramos...
– A última consulta?
– Isso. A última consulta.
– Que é que tem?
– Bom... – tomei a decisão ali, naquele instante. Uma ideia muito boa. Na verdade, uma ideia genial. – É que estava pensando nos pré-molares.
– Hein? – consegui surpreendê-la. Gol do Brasil.
– Os pré-molares – um assunto perfeito. Era certo que ela se interessava por isso.
– Os teus pré-molares? Algum problema com eles?
– Não. Os pré-molares em geral. Filosoficamente falando. É que, sabe, Paty – toquei no braço dela para gerar intimidade. – Estou impressionado com o poder dos pré-molares, toda aquela capacidade que eles têm de morder. Isso tem me deixado muito inquieto. Nem durmo mais à noite.
Paty me olhou espantada. Senti que tinha capturado a atenção dela. Estava no caminho certo. Resolvi sofisticar.
– E tem mais – acrescentei.
– Mais? – um pouco receosa.
– Os caninos.
– Os caninos?
– Os caninos. Eles rasgam maravilhosamente. Li em algum lugar que, no tempo em que éramos homens das cavernas, nossos caninos eram bem mais desenvolvidos. Será verdade?
– Pode ser... – Paty já estava sentada na ponta da cadeira, alerta, certamente embasbacada com meus conhecimentos odontológicos. Sim, senhor, os dentistas acham que são os únicos a saber sobre dentes e bocas em geral.
– Mas não existe nada que me fascine mais do que os sisos – prossegui, entusiasmado. – Veja, Paty: durante milênios tivemos sisos, mas nos últimos anos os dentistas os têm arrancado das bocas, para que os outros dentes não acavalem. É verdade isso ou não é? Diga: é verdade?
– Verdade, verdade – os olhos de Paty se arregalaram. Admiração pura, certamente.
– Pois aí o que começou a acontecer? Tu sabes? Diga: tu sabes?
– N-não...
– As crianças estão nascendo sem siso! – eu agora falava alto, empolgado com o sucesso do meu assunto. – Formidável! É a evolução das espécies! Darwin puro! É fantástico, Paty! – gritava. – Fantástico! Não acha fantástico, Paty?
Ela se levantou da cadeirinha. Levantei-me também. Limpei a areia dos joelhos.
– A-acho. Olha, vou ter que dar uma saída, não posso conversar agora.
– Mas, Paty, temos tanto a conversar. A periodontia, por exemplo. Adoro a periodontia, Paty – segurei no braço dela, tentando detê-la.
– Me larga!
– O mundo das gengivas, Paty! Quero falar sobre o mundo das gengivas!
– Sai! Sai!
Paty se livrou de mim num repelão. Foi-se, correndo, espalhando areia, fugindo como se eu fosse algum maníaco.
O que terá acontecido?
Minha conversa estava tão boa... Tentei tudo para agradá-la e ainda assim ela não reconheceu.
Oh, Deus, não há como entender as mulheres, realmente.
Há tempo queria conversar com ela. Fazer uma tentativa. Por que não? Mas não conseguia.
No consultório, eu estava sempre com a boca aberta, cheia de algodão. Ou com aquele maldito sugador pendurado. Também tem outra: no consultório, me sentia em terrível posição de inferioridade. Puxa, aquela mulher me esburaca a dentina, me torce os nervos, me raspa os tártaros. Aquela mulher, literalmente, me conhece por dentro. E o que sei dela? No máximo, que suas gengivas são rosadas e seus dentes reluzentes pastilhas brancas. No consultório não dava. Não mesmo.
Durante muito tempo, sonhei em encontrar Paty na noite. Nunca tive essa sorte. Aí, no fim de semana, fui para o Litoral. Águas Belas. Local com uma bela praia e não muito cheia e me hospedei na casa do meu amigo Gabriel, com a turma. Tudo bem, tudo legal.
Enfim, lá estava eu, em Águas Belas. Manhã de sábado. Decidi sair sozinho pela praia, os amigos ainda dormiam, tinham bebido demais na noite anterior. Fui, distraidão, a água do mar me penteando os cabelinhos da canela. Então a vi. Minha dentista. De biquíni! Nossa, que biquíni miudinho. Havia Patrícia por todos os lados, em volta daquele paninho mínimo.
A chance pela qual esperava chegara. Mas o que dizer para ela?
Tinha que ser algo especial. Algo que a interessasse. Ela agora se estendia de costas na cadeirinha de plástico. Por que não pensei antes no que falar? Estava cada vez mais perto. O que será que pode chamar a atenção dela? Faltavam poucos metros. O que a interessaria, sem erro? Ela virou a cabeça para o lado. Reconheceu-me. Sorriu. O sorriso me animou.
É agora, pensava. É agora.
Precisava decidir rápido. O que a interessaria? O quê?
– Oi – cumprimentei, ajoelhando-me ao seu lado.
O que falar? O que falar? O que falar?
– Oi – ela respondeu.
Um oi lindo. Muito bem pronunciado. Muito bem acentuado. Comecei a suar.
– Paty...
– Sim? – ela se apoiou nos cotovelos para me ouvir.
– Sabe, eu estava pensando, desde a última vez que nos encontramos...
– A última consulta?
– Isso. A última consulta.
– Que é que tem?
– Bom... – tomei a decisão ali, naquele instante. Uma ideia muito boa. Na verdade, uma ideia genial. – É que estava pensando nos pré-molares.
– Hein? – consegui surpreendê-la. Gol do Brasil.
– Os pré-molares – um assunto perfeito. Era certo que ela se interessava por isso.
– Os teus pré-molares? Algum problema com eles?
– Não. Os pré-molares em geral. Filosoficamente falando. É que, sabe, Paty – toquei no braço dela para gerar intimidade. – Estou impressionado com o poder dos pré-molares, toda aquela capacidade que eles têm de morder. Isso tem me deixado muito inquieto. Nem durmo mais à noite.
Paty me olhou espantada. Senti que tinha capturado a atenção dela. Estava no caminho certo. Resolvi sofisticar.
– E tem mais – acrescentei.
– Mais? – um pouco receosa.
– Os caninos.
– Os caninos?
– Os caninos. Eles rasgam maravilhosamente. Li em algum lugar que, no tempo em que éramos homens das cavernas, nossos caninos eram bem mais desenvolvidos. Será verdade?
– Pode ser... – Paty já estava sentada na ponta da cadeira, alerta, certamente embasbacada com meus conhecimentos odontológicos. Sim, senhor, os dentistas acham que são os únicos a saber sobre dentes e bocas em geral.
– Mas não existe nada que me fascine mais do que os sisos – prossegui, entusiasmado. – Veja, Paty: durante milênios tivemos sisos, mas nos últimos anos os dentistas os têm arrancado das bocas, para que os outros dentes não acavalem. É verdade isso ou não é? Diga: é verdade?
– Verdade, verdade – os olhos de Paty se arregalaram. Admiração pura, certamente.
– Pois aí o que começou a acontecer? Tu sabes? Diga: tu sabes?
– N-não...
– As crianças estão nascendo sem siso! – eu agora falava alto, empolgado com o sucesso do meu assunto. – Formidável! É a evolução das espécies! Darwin puro! É fantástico, Paty! – gritava. – Fantástico! Não acha fantástico, Paty?
Ela se levantou da cadeirinha. Levantei-me também. Limpei a areia dos joelhos.
– A-acho. Olha, vou ter que dar uma saída, não posso conversar agora.
– Mas, Paty, temos tanto a conversar. A periodontia, por exemplo. Adoro a periodontia, Paty – segurei no braço dela, tentando detê-la.
– Me larga!
– O mundo das gengivas, Paty! Quero falar sobre o mundo das gengivas!
– Sai! Sai!
Paty se livrou de mim num repelão. Foi-se, correndo, espalhando areia, fugindo como se eu fosse algum maníaco.
O que terá acontecido?
Minha conversa estava tão boa... Tentei tudo para agradá-la e ainda assim ela não reconheceu.
Oh, Deus, não há como entender as mulheres, realmente.
domingo, 17 de março de 2013
Todos os psicanalistas são felizes
Não confio muito em técnicos de futebol que tenham sido cracaços de bola. O técnico ideal é o que foi um pereba esforçado, quando jogador. Técnicos não são como psicanalistas. Esses, os psicanalistas, os psiquiatras, os terapeutas todos, eles PRECISAM ser felizes. Porque, puxa, a função de um terapeuta é interpretar a alma do seu paciente, desenhar com essa interpretação um mapa e usá-lo para guiar o paciente à felicidade, não é? Tem de ser.
Afinal, quem está totalmente feliz procura um terapeuta? A resposta é: não. A primeira intenção do paciente, portanto, é descobrir o caminho para a beatitude, para a satisfação plena. Ou seja: torna-se indispensável, ao terapeuta, conhecer o caminho da paz, caso contrário seu paciente continuará a tatear no pântano sombrio da infelicidade.
Os terapeutas são como aquelas mulheres dos institutos de beleza. Pense: o troço se chama “instituto de beleza”. Quer dizer: uma instituição destinada a tornar bela a sua clientela, com o perdão da rima. Logo, uma mulher que trabalha num instituto de beleza deve ser bonita. Ou pelo menos ela há de estar no ponto mais alto do seu potencial de beleza. Entenda: o Destino, esse debochado, pode muito bem não haver aquinhoado a moça com os traços mais harmônicos, não há necessidade de ela ter uma boca carnuda de Angelina Joulie ou um nariz orgulhoso de Nicole Kidman, mas tudo tem de estar direitinho com ela. Ela não pode, por exemplo, usar casaco. Nem coque, pelamor de Deus.
O técnico de futebol, não. Não existe tal exigência. Ao contrário: ele NÃO DEVE ser craque. A antiga craqueza, no caso do técnico, às vezes até atrapalha. O craque é intuitivo, ele joga quase que por instinto, a intimidade com a bola está registrada no seu DNA. Logo, lhe é complicado ensinar o que faz com tamanha naturalidade. Um jovem jogador não sabe dominar a bola? O ex-craque não compreende como é possível. Para ele, dominar a bola é como fazer seu pâncreas funcionar. Funciona, pronto.
Agora, quem se esforçou para aprender, quem teve de entender o jogo para poder superar as dificuldades impostas pela Natureza, esse será um bom técnico. Porque o conhecimento vem da dor, entende? Da DOR. Você quer ser maduro, você quer compreender a vida, você quer a sabedoria? Extraia isso tudo dos seus momentos de sofrimento. Não sofra, apenas, rapaz; entenda por que você sofre.
Afinal, quem está totalmente feliz procura um terapeuta? A resposta é: não. A primeira intenção do paciente, portanto, é descobrir o caminho para a beatitude, para a satisfação plena. Ou seja: torna-se indispensável, ao terapeuta, conhecer o caminho da paz, caso contrário seu paciente continuará a tatear no pântano sombrio da infelicidade.
Os terapeutas são como aquelas mulheres dos institutos de beleza. Pense: o troço se chama “instituto de beleza”. Quer dizer: uma instituição destinada a tornar bela a sua clientela, com o perdão da rima. Logo, uma mulher que trabalha num instituto de beleza deve ser bonita. Ou pelo menos ela há de estar no ponto mais alto do seu potencial de beleza. Entenda: o Destino, esse debochado, pode muito bem não haver aquinhoado a moça com os traços mais harmônicos, não há necessidade de ela ter uma boca carnuda de Angelina Joulie ou um nariz orgulhoso de Nicole Kidman, mas tudo tem de estar direitinho com ela. Ela não pode, por exemplo, usar casaco. Nem coque, pelamor de Deus.
O técnico de futebol, não. Não existe tal exigência. Ao contrário: ele NÃO DEVE ser craque. A antiga craqueza, no caso do técnico, às vezes até atrapalha. O craque é intuitivo, ele joga quase que por instinto, a intimidade com a bola está registrada no seu DNA. Logo, lhe é complicado ensinar o que faz com tamanha naturalidade. Um jovem jogador não sabe dominar a bola? O ex-craque não compreende como é possível. Para ele, dominar a bola é como fazer seu pâncreas funcionar. Funciona, pronto.
Agora, quem se esforçou para aprender, quem teve de entender o jogo para poder superar as dificuldades impostas pela Natureza, esse será um bom técnico. Porque o conhecimento vem da dor, entende? Da DOR. Você quer ser maduro, você quer compreender a vida, você quer a sabedoria? Extraia isso tudo dos seus momentos de sofrimento. Não sofra, apenas, rapaz; entenda por que você sofre.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
A gente vai levando
Nós vivemos no gerúndio. Nós brasileiros. Estamos sempre fazendo, sempre chegando, estamos quase lá, espere um pouquinho, já vai.
Nunca estamos prontos.
O Brasil nunca fica pronto.
É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.
Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio. É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.
-
O gerúndio invencível
Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:
– Nós vamos estar disponibilizando.
Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.
Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.
-
O gerúndio da vitória
Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:
– Que homem! Não existe homem como você!
Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.
Enfim.
O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:
– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.
Ri:
– Pô, mas então você está no gerúndio...
Ele rebateu:
– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.
Sábio, o meu amigo que adora casadas.
Nunca estamos prontos.
O Brasil nunca fica pronto.
É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.
Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio. É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.
-
O gerúndio invencível
Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:
– Nós vamos estar disponibilizando.
Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.
Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.
-
O gerúndio da vitória
Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:
– Que homem! Não existe homem como você!
Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.
Enfim.
O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:
– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.
Ri:
– Pô, mas então você está no gerúndio...
Ele rebateu:
– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.
Sábio, o meu amigo que adora casadas.
sábado, 27 de outubro de 2012
Rapidinha...
– Jô.
– Fala Deco.
– A gente precisa conversar.
– Tá, deixa só acabar esse bloco e a gente conversa.
– Jô… é sério.
– Eu sei – olha lá a Ritinha vai acabar com a madrasta da Cleide… olha lá.
– Você entende que eu quero conversar e você não quer a devida importância, né?
– Sei, sei, até parece que do dia pra noite ficou sentimental. Essa é a minha função – olha lá o tapa que ela deu! – quem fica emotivo nesse casal aqui sou eu! Pára com isso, Deco. Depois eu te deixo em paz pra você assistir o “raio” do jogo.
– Mas que fique registrado que eu tentei.
– Tá Deco, não atrapalha – ah lá o Jorge Vagner com a Betty! essa não presta mesmo…
– Jô… se a gente não conversar, como vai ser mais pra frente? Dá só um minutinho…
– Deco, no próximo bloco, pô! Óh o barulho, não dá pra ouvir nada.
– Jô… o gato subiu no telhado.
– Ah, que nada! eu dei motivo? você deu motivo? – mas que cafajeste esse Marcos Paulo – A gente tá super bem, não inventa Deco.
– Jô, eu tô tentando te falar faz um tempinho…
– Calma, calma – ah lá… que sem vergonha “essazinha”!
– Jô…
– Pô Deco, pára de falar. Eu fico falando quando você está assistindo jogo? Não! então pronto. Poxa, já falei que quando terminar esse bloco a gente conversa, sabe… fica aí falando sem parar, não dá nem pra ouvir direito… e esse monte de sirene aí fora, pô. Manda esses caras apitarem pra lá…
Os bombeiros não puderam fazer nada, já era tarde para o pobre gatinho.
– Fala Deco.
– A gente precisa conversar.
– Tá, deixa só acabar esse bloco e a gente conversa.
– Jô… é sério.
– Eu sei – olha lá a Ritinha vai acabar com a madrasta da Cleide… olha lá.
– Você entende que eu quero conversar e você não quer a devida importância, né?
– Sei, sei, até parece que do dia pra noite ficou sentimental. Essa é a minha função – olha lá o tapa que ela deu! – quem fica emotivo nesse casal aqui sou eu! Pára com isso, Deco. Depois eu te deixo em paz pra você assistir o “raio” do jogo.
– Mas que fique registrado que eu tentei.
– Tá Deco, não atrapalha – ah lá o Jorge Vagner com a Betty! essa não presta mesmo…
– Jô… se a gente não conversar, como vai ser mais pra frente? Dá só um minutinho…
– Deco, no próximo bloco, pô! Óh o barulho, não dá pra ouvir nada.
– Jô… o gato subiu no telhado.
– Ah, que nada! eu dei motivo? você deu motivo? – mas que cafajeste esse Marcos Paulo – A gente tá super bem, não inventa Deco.
– Jô, eu tô tentando te falar faz um tempinho…
– Calma, calma – ah lá… que sem vergonha “essazinha”!
– Jô…
– Pô Deco, pára de falar. Eu fico falando quando você está assistindo jogo? Não! então pronto. Poxa, já falei que quando terminar esse bloco a gente conversa, sabe… fica aí falando sem parar, não dá nem pra ouvir direito… e esse monte de sirene aí fora, pô. Manda esses caras apitarem pra lá…
Os bombeiros não puderam fazer nada, já era tarde para o pobre gatinho.
sábado, 29 de setembro de 2012
Posso Entrar Na Sua Vida?
Marcelo não é um cara muito normal, mas também não chega a ser louco. Ele é do tipo de pessoa que funciona melhor à noite. Pra gente assim, não tem horário melhor do que a madrugada pra se comprar livros. Logo ao entrar na sua livraria 24 horas preferida (a única da cidade) ele se depara com uma mulher bem atraente. Não chega a ser uma Fernanda Lima, mas pelo menos é uma mulher de verdade, não uma brincadeira de mal gosto criada pelos meios de comunicação de massa para fazer os homens sofrerem. Depois de um bom tempo observando-a ele não se contem. Se aproxima lentamente dela e diz:
- Oi, tudo bom?
– Er … tudo …
– …
Marcelo nunca foi bom para fazer essas coisas. Pelo menos neste caso, ela se mostrava curiosa. Nem um pouco simpática, mas no mínimo, intrigada.
- Eu te conheço?
– Não. Mas eu queria te fazer uma pergunta …
– Uñ ? – (típica palavra de quem não quer dizer mais do que “Uñ”, se é que vocês me entendem).
– Posso entrar na sua vida?
– Hãn?! – (agora sim, uma expressão bem mais enfática).
– Po-posso entrar na sua vida?
– Como assim?
Um longo silêncio, seguido de um suspiro do nosso amigo Marcelo :
- É assim … Eu te vi logo que entrei aqui.
– Certo.
– Aí … você estava andando tranquilamente, enrolando a ponta do cabelo como quem enrola a ponta do cabelo com os dedos, bem tranqüila.
– Faz sentido …
– Magicamente, você parou … colocou a ponta do seu cabelo na boca, como quem coloca a ponta do cabelo … hmmm … na boca, e pegou um livro do P.G. Wodehouse …
– Obrigado, Jeev-
– Não, meu nome é Marcelo.
– O nome do livro era “Obrigado, Jeeves”!
– Ah sim … eu sei.
Ela pareceu não ter gostado muito da resposta:
- Grr … Bom, posso ir embora ou tem mais ?
– Você não me respondeu ainda …
– O quê ?
– Se eu posso entrar na sua vida.
– Como assim? Você chega aqui, fala que me viu andando e comendo meu próprio cabelo, como quem come o próprio cabelo (!!) e aí então faz uma pergunta absurda dessas! Qual é o ponto?!
– Bom … (longa pausa) … se essa pergunta é tão absurda assim, talvez seja melhor VOCÊ não entrar na MINHA vida. Muito prazer. Tchau!
Esta, sem dúvida, foi a frase dita por Marcelo da forma mais tranqüila por toda a conversa. Sem pressa, ele se virou, se afastou e começou a folhear as revistas de arquitetura , o que apenas fingia fazer anteriormente.
Alguns momentos depois a moça ainda intrigada, que agora disfarçava folhear revistas de Tunning, decidiu se aproximar e disse:
- Claudecir …
Ele, sem tirar os olhos sobre um artigo muito interessante sobre sofás “chaise-longs” retrucou :
- É Marcelo.
– Eu estou falando que o MEU nome é CLAUDECIR!
– HEIM?!
– Ah, parou de ler, né? Então … Marisa, meu nome é Marisa.
– Po-podia ter me pedido pra parar de ler … Estou em estado de choque, agora!
– (risos)
– Certo … vou tentar apagar a figura do transexual mais atraente que conheci nos últimos tempos e voltar a pensar em você apenas como uma mulher.
– Que bom!
– E então … Quer me falar algo, Marisa?
– Como assim ?
– Como assim o que ?
– Entrar na minha vida? O que você quis dizer com isso?
– O conceito do verbo “entrar” é relativamente compreensível, principalmente para pessoas com o QI mediano. Muitas vezes na Matemática temos dois grup-
– Opa, querido! Eu sei o que significa “entrar”.
– Viu?! Agora eu sei que você tem pelo menos o QI mediano da população. Parabéns!
Marisa fez aquela cara que aparentemente diz “bobinho!” mas que na verdade significa “você tá pensando que eu sou idiota, seu energúmeno!”, e depois perguntou:
- Sério! O que você queria quando me fez a pergunta?
– Por que vocês mulheres acham que as coisas significam mais do que realmente significam? “Que horas são?” não significa “Achei seu relógio interessante, mas essa aparência retrô da alça de vinil pode mostrar que inconscientemente sua infância foi marcada por um trauma de rejeição, personificado aqui, com uma das características mais marcantes do culpado pela sua rejeição, seu pai, reconhecido pela pontualidade.” : “Que horas são?” É apenas uma pergunta que tenta esclarecer a hora certa!
Sem se exaltar, mas no limite da provocação, em um tom em que se ambos estivessem na quinta-série a turminha gritaria “YEAAAAAAHHH!!!”, Marcelo respondeu, e continuou:
- Enfim, quis dizer exatamente o que te perguntei.
– Tá! Mas … Você não poderia ter me dito … Er …
– “Você vem sempre aqui?”
– Não … essa é muito batida, você não falaria isso …
– “Ei, Pequena. Posso te pagar um drink?”
– Ótima frase. Pena que 50 anos atrasada. Acho que não … sei lá! Você não poderia ter vindo com qualquer xavequinho minimamente aceitável?
– E o que esse xavequinho significaria “na misteriosa língua das mulheres”?
– “Oi, posso entrar em você?”
Só para esclarecer, amigo, quem disse essa frase foi ela. O papo está meio longo sempre é bom ajudá-lo com essas intervenções. Ele respondeu, um pouco desconcertado de início:
- C-Certo! Não que isso seja uma grande mentir-
– Ei, seu safado! – disse Marisa, dando aquele tapinha no ombro de Marcelo, daqueles que querem dizer “Preciso te recriminar perante a sociedade, mas você mandou bem nessa. Keep moving!”
- O fato é que antes de entrar em você – ao dizer isso, ele rapidamente protegeu o ombro – eu quero saber se você vale a pena. Ou seja : antes do ato físico, o mínimo de afinidade intelectual.
– Não seja cínico! Se eu te atacasse aqui e te puxasse pra transar no banheiro você iria sem pestanejar …
– Olha … num vou mentir pra senhor- outro tapa daqueles no ombro do nosso protagonista – mas, como você realmente me pareceu interessante, talvez algo além dessa divertida forma de entretenimento sexual pode ser experimentado.
– E tudo isso pelo jeito que eu coloquei o cabelo entre os lábios como qu-
– Quem coloca os cabelos entre os lábios! Isso!
– Só por isso?!
– Precisa mais do que isso?!
– Vocês homens são completamente loucos!
Marcelo fingindo uma conversa: – “Que horas são?” “Meia-noite e meia!”. Desculpa, nada de louco nessa conversa.
– O que fazemos então … ?
– Olha, o banheiro está aqui do lado … Andei reconsiderando minhas opiniões e como não quero parecer intransigente, acho, já que é sua vontade, que podemos trans-
Outro tapa, seguido de : – BESTA!
- São seus olhos …
– Vamos lá então … Como eu faço pra deixar você entrar na minha vida?
– Pode começar me dando seu telefone.
– Ok! O número é … – (para preservar a privacidade de nossa querida personagem, não transcreverei aqui o número, mas garanto, é fácil de se decorar).
– Muito bem! Está anotado. Tenho que ir agora, mas te ligo amanhã.
– Então tá.
– Ah, caso você não saiba: quando eu te ligar, você atende, ok? É assim que funciona.
Mais um tapa. Ele continua :
- Olha, acabaram de liberar o banheiro, tem certeza qu-
Desta vez ela só ameaçou o tapa. Marcelo, muito sério, fazia a pose em “T” do golpe final em Karate Kid.
– Vai embora logo, e vê se liga mesmo!
– Sim senhora!
E assim, começou a história do relacionamento entre os personagens desta crônica. Se deu certo ou não, nem eu sei ainda. Só posso dizer que mesmo sem que ambos soubessem, Marcelo já tinha entrado na vida de Marisa. E ninguém pode falar que ele não pediu.
- Oi, tudo bom?
– Er … tudo …
– …
Marcelo nunca foi bom para fazer essas coisas. Pelo menos neste caso, ela se mostrava curiosa. Nem um pouco simpática, mas no mínimo, intrigada.
- Eu te conheço?
– Não. Mas eu queria te fazer uma pergunta …
– Uñ ? – (típica palavra de quem não quer dizer mais do que “Uñ”, se é que vocês me entendem).
– Posso entrar na sua vida?
– Hãn?! – (agora sim, uma expressão bem mais enfática).
– Po-posso entrar na sua vida?
– Como assim?
Um longo silêncio, seguido de um suspiro do nosso amigo Marcelo :
- É assim … Eu te vi logo que entrei aqui.
– Certo.
– Aí … você estava andando tranquilamente, enrolando a ponta do cabelo como quem enrola a ponta do cabelo com os dedos, bem tranqüila.
– Faz sentido …
– Magicamente, você parou … colocou a ponta do seu cabelo na boca, como quem coloca a ponta do cabelo … hmmm … na boca, e pegou um livro do P.G. Wodehouse …
– Obrigado, Jeev-
– Não, meu nome é Marcelo.
– O nome do livro era “Obrigado, Jeeves”!
– Ah sim … eu sei.
Ela pareceu não ter gostado muito da resposta:
- Grr … Bom, posso ir embora ou tem mais ?
– Você não me respondeu ainda …
– O quê ?
– Se eu posso entrar na sua vida.
– Como assim? Você chega aqui, fala que me viu andando e comendo meu próprio cabelo, como quem come o próprio cabelo (!!) e aí então faz uma pergunta absurda dessas! Qual é o ponto?!
– Bom … (longa pausa) … se essa pergunta é tão absurda assim, talvez seja melhor VOCÊ não entrar na MINHA vida. Muito prazer. Tchau!
Esta, sem dúvida, foi a frase dita por Marcelo da forma mais tranqüila por toda a conversa. Sem pressa, ele se virou, se afastou e começou a folhear as revistas de arquitetura , o que apenas fingia fazer anteriormente.
Alguns momentos depois a moça ainda intrigada, que agora disfarçava folhear revistas de Tunning, decidiu se aproximar e disse:
- Claudecir …
Ele, sem tirar os olhos sobre um artigo muito interessante sobre sofás “chaise-longs” retrucou :
- É Marcelo.
– Eu estou falando que o MEU nome é CLAUDECIR!
– HEIM?!
– Ah, parou de ler, né? Então … Marisa, meu nome é Marisa.
– Po-podia ter me pedido pra parar de ler … Estou em estado de choque, agora!
– (risos)
– Certo … vou tentar apagar a figura do transexual mais atraente que conheci nos últimos tempos e voltar a pensar em você apenas como uma mulher.
– Que bom!
– E então … Quer me falar algo, Marisa?
– Como assim ?
– Como assim o que ?
– Entrar na minha vida? O que você quis dizer com isso?
– O conceito do verbo “entrar” é relativamente compreensível, principalmente para pessoas com o QI mediano. Muitas vezes na Matemática temos dois grup-
– Opa, querido! Eu sei o que significa “entrar”.
– Viu?! Agora eu sei que você tem pelo menos o QI mediano da população. Parabéns!
Marisa fez aquela cara que aparentemente diz “bobinho!” mas que na verdade significa “você tá pensando que eu sou idiota, seu energúmeno!”, e depois perguntou:
- Sério! O que você queria quando me fez a pergunta?
– Por que vocês mulheres acham que as coisas significam mais do que realmente significam? “Que horas são?” não significa “Achei seu relógio interessante, mas essa aparência retrô da alça de vinil pode mostrar que inconscientemente sua infância foi marcada por um trauma de rejeição, personificado aqui, com uma das características mais marcantes do culpado pela sua rejeição, seu pai, reconhecido pela pontualidade.” : “Que horas são?” É apenas uma pergunta que tenta esclarecer a hora certa!
Sem se exaltar, mas no limite da provocação, em um tom em que se ambos estivessem na quinta-série a turminha gritaria “YEAAAAAAHHH!!!”, Marcelo respondeu, e continuou:
- Enfim, quis dizer exatamente o que te perguntei.
– Tá! Mas … Você não poderia ter me dito … Er …
– “Você vem sempre aqui?”
– Não … essa é muito batida, você não falaria isso …
– “Ei, Pequena. Posso te pagar um drink?”
– Ótima frase. Pena que 50 anos atrasada. Acho que não … sei lá! Você não poderia ter vindo com qualquer xavequinho minimamente aceitável?
– E o que esse xavequinho significaria “na misteriosa língua das mulheres”?
– “Oi, posso entrar em você?”
Só para esclarecer, amigo, quem disse essa frase foi ela. O papo está meio longo sempre é bom ajudá-lo com essas intervenções. Ele respondeu, um pouco desconcertado de início:
- C-Certo! Não que isso seja uma grande mentir-
– Ei, seu safado! – disse Marisa, dando aquele tapinha no ombro de Marcelo, daqueles que querem dizer “Preciso te recriminar perante a sociedade, mas você mandou bem nessa. Keep moving!”
- O fato é que antes de entrar em você – ao dizer isso, ele rapidamente protegeu o ombro – eu quero saber se você vale a pena. Ou seja : antes do ato físico, o mínimo de afinidade intelectual.
– Não seja cínico! Se eu te atacasse aqui e te puxasse pra transar no banheiro você iria sem pestanejar …
– Olha … num vou mentir pra senhor- outro tapa daqueles no ombro do nosso protagonista – mas, como você realmente me pareceu interessante, talvez algo além dessa divertida forma de entretenimento sexual pode ser experimentado.
– E tudo isso pelo jeito que eu coloquei o cabelo entre os lábios como qu-
– Quem coloca os cabelos entre os lábios! Isso!
– Só por isso?!
– Precisa mais do que isso?!
– Vocês homens são completamente loucos!
Marcelo fingindo uma conversa: – “Que horas são?” “Meia-noite e meia!”. Desculpa, nada de louco nessa conversa.
– O que fazemos então … ?
– Olha, o banheiro está aqui do lado … Andei reconsiderando minhas opiniões e como não quero parecer intransigente, acho, já que é sua vontade, que podemos trans-
Outro tapa, seguido de : – BESTA!
- São seus olhos …
– Vamos lá então … Como eu faço pra deixar você entrar na minha vida?
– Pode começar me dando seu telefone.
– Ok! O número é … – (para preservar a privacidade de nossa querida personagem, não transcreverei aqui o número, mas garanto, é fácil de se decorar).
– Muito bem! Está anotado. Tenho que ir agora, mas te ligo amanhã.
– Então tá.
– Ah, caso você não saiba: quando eu te ligar, você atende, ok? É assim que funciona.
Mais um tapa. Ele continua :
- Olha, acabaram de liberar o banheiro, tem certeza qu-
Desta vez ela só ameaçou o tapa. Marcelo, muito sério, fazia a pose em “T” do golpe final em Karate Kid.
– Vai embora logo, e vê se liga mesmo!
– Sim senhora!
E assim, começou a história do relacionamento entre os personagens desta crônica. Se deu certo ou não, nem eu sei ainda. Só posso dizer que mesmo sem que ambos soubessem, Marcelo já tinha entrado na vida de Marisa. E ninguém pode falar que ele não pediu.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O velho Buk
Lembro bem quando me caiu nas mãos o meu primeiro Bukowski.
Cartas na Rua.
Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina.
Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.
Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê.
Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê.
Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.
Passei a odiar personagens que cofiam.
Um personagem simplesmente não pode cofiar.
Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia.
Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.
Mas o Velho Buk não tinha nada disso.
O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.
Bem.
Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke: – Todas as pessoas precisam ler o John Fante! Uau! Era importante aquilo.
Fui ler o John Fante.
Pergunte ao Pó.
Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk.
E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.
Charles Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou: – Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini.
Gostaria de poder dizer isso.
Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade.
E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.
Cartas na Rua.
Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina.
Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.
Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê.
Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê.
Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.
Passei a odiar personagens que cofiam.
Um personagem simplesmente não pode cofiar.
Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia.
Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.
Mas o Velho Buk não tinha nada disso.
O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.
Bem.
Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke: – Todas as pessoas precisam ler o John Fante! Uau! Era importante aquilo.
Fui ler o John Fante.
Pergunte ao Pó.
Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk.
E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.
Charles Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou: – Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini.
Gostaria de poder dizer isso.
Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade.
E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.
sábado, 21 de julho de 2012
A Falácia do Solteiro
Poucas frases me provocam tanta vontade de rir como:
- Ah se seu tivesse solteiro! Essa loira ia ver só …
Desculpe amigo, ela não ia ver nada que já não estivesse vendo.
Fico impressionado como a maioria dos homens que namoram/casam/se enrolam/etc. e tal, por um tempo razoável, começam a se sentir como grandes pegadores reprimidos.
Só porque já estão há um tempo com o “burro amarrado na sombra”, sentem que o mundo se transformou num cardápio delicioso de mulheres ao seu dispor que, infelizmente, eles não podem apreciar pela sua condição de “commited” (como dizia o orkut).
Não, amigos indisponíveis! Elas não estão ao seu dispor. Se você se esforçar um pouco pra se lembrar, quando solteiro você passava tanta vontade ao sentar num bar no verão, num sábado a noite, como passa agora, ao tentar disfarçar da sua pequena o olhar praquela morena gostosa de vestidinho, que teima em passar na sua frente o tempo todo, SÓ pra te provocar (nada a ver com o fato dela ser a garçonete daquela área do bar, imagina…).
Ok, devo reconhecer que o parágrafo anterior não se aplica ao Ricardo Mansur, Rodrigo Santoro, George Clooney e mais 3 ou 4. Mas, excluindo esses caras, todos nós, homens desgraçadamente comuns, não fazemos porcaria nenhuma em 90% dessas situações. A única vantagem da solteirice, no caso, é poder olhar pra tal morena sem táticas canalhas de disfarce.
O problema é que nos outros 10% fazemos algo. E aí dependendo das condições normais de temperatura e pressão a bola entra. Gol!!
E são essas bolas criam a tal “Falácia do Solteiro”.
Realmente existem noites (e dias) na solteirice, que seriam dignas de serem contadas pelo Hugh Hefner. Todo homem solteiro tem seus momentos. O grande problema é se enganar sentenciando a coitada da namorada/esposa/rolo/etc. e tal, como a grande culpada pela privação desses momentos mágicos. Mentira. Calúnia!
A moça não tem nada com isso, amigo. Você não ia fazer nada com a garçonete. Eu garanto. Se o relacionamento está bom, dê valor àquela que está com a mão repousada na sua coxa, mesmo você olhando praquela mocréia com um vestido breeega, que você ganha mais.
E pra piorar, existe a fase 2 (e mais perigosa) dessa falácia : o fim de relacionamento.
Conheço muitos caras que depois de décadas pra conseguir sair de um relacionamento doentio, daqueles que só existiam de verdade no status do Facebook, começam a questionar a solteirice, reconsiderando voltar pro inferno que estavam. O motivo?
- Num tenho ninguém pra sair esse sábado! Se for pra ficar sozinho, volto pra Fulana (também conhecida como aquela que xinguei pelos últimos 9 meses da minha vida).
Então, animal! É assim que funciona. Lembra que você vivia reclamando dos sábados que tinha que sair com aqueles amigos idiotas da mala da sua namorada? Pois bem, na solteirice vão existir noites tão chatas como aquelas (e você aí reclamando, sendo que seu PS3 ainda está coberto de pó e já faz 2 semanas que você acabou o namoro!).
Enfim … não sou a favor da solteirice, nem do comprometimento. Apenas sou a favor das coisas feitas pelos motivos certos.
Se está com alguém e na média a relação está legal. Fique feliz! Isso é cada vez mais raro.
Se está solteiro, curta! E aproveita o lado bom disso sem medo, mesmo que a carência bata na porta de vez em quando.
A sabedoria está em se reconhecer que mesmo com os motivos certos (seja comprometido, seja solteiro) terão momentos que o outro lado vai parecer muito mais divertido. E não se pode culpar ninguém por isso. É assim que as coisas funcionam. Não se pode ter tudo.
- Ah se seu tivesse solteiro! Essa loira ia ver só …
Desculpe amigo, ela não ia ver nada que já não estivesse vendo.
Fico impressionado como a maioria dos homens que namoram/casam/se enrolam/etc. e tal, por um tempo razoável, começam a se sentir como grandes pegadores reprimidos.
Só porque já estão há um tempo com o “burro amarrado na sombra”, sentem que o mundo se transformou num cardápio delicioso de mulheres ao seu dispor que, infelizmente, eles não podem apreciar pela sua condição de “commited” (como dizia o orkut).
Não, amigos indisponíveis! Elas não estão ao seu dispor. Se você se esforçar um pouco pra se lembrar, quando solteiro você passava tanta vontade ao sentar num bar no verão, num sábado a noite, como passa agora, ao tentar disfarçar da sua pequena o olhar praquela morena gostosa de vestidinho, que teima em passar na sua frente o tempo todo, SÓ pra te provocar (nada a ver com o fato dela ser a garçonete daquela área do bar, imagina…).
Ok, devo reconhecer que o parágrafo anterior não se aplica ao Ricardo Mansur, Rodrigo Santoro, George Clooney e mais 3 ou 4. Mas, excluindo esses caras, todos nós, homens desgraçadamente comuns, não fazemos porcaria nenhuma em 90% dessas situações. A única vantagem da solteirice, no caso, é poder olhar pra tal morena sem táticas canalhas de disfarce.
O problema é que nos outros 10% fazemos algo. E aí dependendo das condições normais de temperatura e pressão a bola entra. Gol!!
E são essas bolas criam a tal “Falácia do Solteiro”.
Realmente existem noites (e dias) na solteirice, que seriam dignas de serem contadas pelo Hugh Hefner. Todo homem solteiro tem seus momentos. O grande problema é se enganar sentenciando a coitada da namorada/esposa/rolo/etc. e tal, como a grande culpada pela privação desses momentos mágicos. Mentira. Calúnia!
A moça não tem nada com isso, amigo. Você não ia fazer nada com a garçonete. Eu garanto. Se o relacionamento está bom, dê valor àquela que está com a mão repousada na sua coxa, mesmo você olhando praquela mocréia com um vestido breeega, que você ganha mais.
E pra piorar, existe a fase 2 (e mais perigosa) dessa falácia : o fim de relacionamento.
Conheço muitos caras que depois de décadas pra conseguir sair de um relacionamento doentio, daqueles que só existiam de verdade no status do Facebook, começam a questionar a solteirice, reconsiderando voltar pro inferno que estavam. O motivo?
- Num tenho ninguém pra sair esse sábado! Se for pra ficar sozinho, volto pra Fulana (também conhecida como aquela que xinguei pelos últimos 9 meses da minha vida).
Então, animal! É assim que funciona. Lembra que você vivia reclamando dos sábados que tinha que sair com aqueles amigos idiotas da mala da sua namorada? Pois bem, na solteirice vão existir noites tão chatas como aquelas (e você aí reclamando, sendo que seu PS3 ainda está coberto de pó e já faz 2 semanas que você acabou o namoro!).
Enfim … não sou a favor da solteirice, nem do comprometimento. Apenas sou a favor das coisas feitas pelos motivos certos.
Se está com alguém e na média a relação está legal. Fique feliz! Isso é cada vez mais raro.
Se está solteiro, curta! E aproveita o lado bom disso sem medo, mesmo que a carência bata na porta de vez em quando.
A sabedoria está em se reconhecer que mesmo com os motivos certos (seja comprometido, seja solteiro) terão momentos que o outro lado vai parecer muito mais divertido. E não se pode culpar ninguém por isso. É assim que as coisas funcionam. Não se pode ter tudo.
domingo, 17 de junho de 2012
Salada de Frutas
Aquele parecia ser apenas mais um almoço comum. Eu estava na fila do buffet de um simpático restaurante por quilo próximo ao meu trabalho. Distraído, preocupado em nada além do que escolher a comida. Só isso.
Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).
Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.
Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.
Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.
Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.
Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.
Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.
De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.
Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.
Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.
Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.
Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.
Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.
Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.
Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.
Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.
Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?
Fui embora.
Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.
Talvez nem tudo ainda esteja perdido …
Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).
Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.
Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.
Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.
Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.
Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.
Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.
De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.
Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.
Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.
Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.
Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.
Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.
Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.
Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.
Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.
Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?
Fui embora.
Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.
Talvez nem tudo ainda esteja perdido …
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Devagar, Divagar Ou De Vagar
Foi bom me avisar
Que a ponte estava livre
Mas não era fácil atravessar
E lá foi bom me despistar
Mas seu mapa era tão lindo
Que eu não consegui me desgrudar (me desgrudar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
A um passo de acertar
O tempo das sementes
Que já começaram a brotar
Então vá, vá colher e abraçar
Que as flores estão vivas
Perfumando a casa em que vamos morar (vamos morar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Me espere pro jantar
Tô indo com amigos
Por quem acabei de me apaixonar
Me dá, vontade que me dá
Saudade que só passa
Tendo eu e você no mesmo lugar (no mesmo lugar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar (devagar)
Que a ponte estava livre
Mas não era fácil atravessar
E lá foi bom me despistar
Mas seu mapa era tão lindo
Que eu não consegui me desgrudar (me desgrudar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
A um passo de acertar
O tempo das sementes
Que já começaram a brotar
Então vá, vá colher e abraçar
Que as flores estão vivas
Perfumando a casa em que vamos morar (vamos morar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Me espere pro jantar
Tô indo com amigos
Por quem acabei de me apaixonar
Me dá, vontade que me dá
Saudade que só passa
Tendo eu e você no mesmo lugar (no mesmo lugar)
E se ainda não cheguei
É porque gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar
Gosto de parar
Em cada esquina devagar
Pelo caminho que me leva
Até você me encontrar (devagar)
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Um novo Homem
Homem. Ser forte. Duro, Insensível. Nunca derrama uma lágrima. Homem afinal. Arruma a torneira, troca o pneu. Homem. Forte. Insensível.
Bela descrição para tempos atrás. Hoje o homem evoluiu. Sente, ama, chora. E que evolução podemos dizer. Afinal negar instintos é um atraso incalculável. “Oh yes i was a great pretender!”. Mas não finjo mais.
O novo homem gosta de falar que ama, não deixa de assumir quando está com medo e amigo-irmão merece beijo no rosto. Lógico que sem boiolice. “Sô macho pô”.
Isso é tanto verdade que os papos nas mesas de bar andam mudando. Os homens não procuram mais a maior quantidade e sim qualidade. Frases como “Vamo catá as piriguete!!!” estão dando lugar a “Preciso arrumar uma mulher direita”.
O espírito de coletividade continua como sempre mas foi desviado para novos usos. Em vez de ” Vou agitar aquela perva pra você” ouve-se “Cara, eu não vou deixar você cair no mundo da putaria de novo.”
Existem novos homens compromissados também. Hoje em vez de aproveitar qualquer brecha pra sair escondido, faz questão de levar a cônjuge ou ao menos avisar onde, quando e com quem vai. Não por controle e sim por respeito. O novo homem compromissado já deixa a mulher sentindo saudade. Ele aprendeu a valorizar pois sabe que a demanda está altíssima mas a oferta mínima.
Por tudo isso, mulheres deliciem-se, pois cada vez mais encontramos homens que ligam pra dizer que estão com saudade, correm de mulheres prosmícuas e só esperam por você pra dizer: “Eu te amo”. Mas preparem-se, pois se um dia você estiver num sítio, ouvir um barulho e pedir pra ele ver o que é não estranhem se ele estiver embaixo da cama.
Bela descrição para tempos atrás. Hoje o homem evoluiu. Sente, ama, chora. E que evolução podemos dizer. Afinal negar instintos é um atraso incalculável. “Oh yes i was a great pretender!”. Mas não finjo mais.
O novo homem gosta de falar que ama, não deixa de assumir quando está com medo e amigo-irmão merece beijo no rosto. Lógico que sem boiolice. “Sô macho pô”.
Isso é tanto verdade que os papos nas mesas de bar andam mudando. Os homens não procuram mais a maior quantidade e sim qualidade. Frases como “Vamo catá as piriguete!!!” estão dando lugar a “Preciso arrumar uma mulher direita”.
O espírito de coletividade continua como sempre mas foi desviado para novos usos. Em vez de ” Vou agitar aquela perva pra você” ouve-se “Cara, eu não vou deixar você cair no mundo da putaria de novo.”
Existem novos homens compromissados também. Hoje em vez de aproveitar qualquer brecha pra sair escondido, faz questão de levar a cônjuge ou ao menos avisar onde, quando e com quem vai. Não por controle e sim por respeito. O novo homem compromissado já deixa a mulher sentindo saudade. Ele aprendeu a valorizar pois sabe que a demanda está altíssima mas a oferta mínima.
Por tudo isso, mulheres deliciem-se, pois cada vez mais encontramos homens que ligam pra dizer que estão com saudade, correm de mulheres prosmícuas e só esperam por você pra dizer: “Eu te amo”. Mas preparem-se, pois se um dia você estiver num sítio, ouvir um barulho e pedir pra ele ver o que é não estranhem se ele estiver embaixo da cama.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Sandy, UFC e um Fantástico Mundo no Domingo a Noite
Domingão.
Eu, no comando, trocando de canais.
Aí, de repente, o extraordinário.
A frágil Sandy no meio dos brutamontes do UFC.
Não é Fantástico?
Um deles, com seus braços de lenhador, sua cara de torcedor dos Gaviões da Fiel e suas tatuagens horrendas (como são feias essas tatuagens que cobrem um braço inteiro), confessava ser uma manteiga.
Ficou com os olhos cheios de lágrimas.
Não é mais do que Fantástico?
É.
Aí a doce Sandy visitava a cozinha dos rapazes.
Uma baderna.
Então a delicada moça ia para o quarto com eles.
Quer dizer, ia ao quarto deles.
Então, mais do que nunca, o inusitado.
Eles mostraram para ela as suas cuequinhas.
Cuequinhas coloridas.
Cuequinhas de super-herói.
Que fofos!
Sem dúvida, o UFC é inofensivo.
Um joguinho de bons meninos de cuequinha de gibi.
Dormi confortado.
Um outro mundo é possível.
Eu, no comando, trocando de canais.
Aí, de repente, o extraordinário.
A frágil Sandy no meio dos brutamontes do UFC.
Não é Fantástico?
Um deles, com seus braços de lenhador, sua cara de torcedor dos Gaviões da Fiel e suas tatuagens horrendas (como são feias essas tatuagens que cobrem um braço inteiro), confessava ser uma manteiga.
Ficou com os olhos cheios de lágrimas.
Não é mais do que Fantástico?
É.
Aí a doce Sandy visitava a cozinha dos rapazes.
Uma baderna.
Então a delicada moça ia para o quarto com eles.
Quer dizer, ia ao quarto deles.
Então, mais do que nunca, o inusitado.
Eles mostraram para ela as suas cuequinhas.
Cuequinhas coloridas.
Cuequinhas de super-herói.
Que fofos!
Sem dúvida, o UFC é inofensivo.
Um joguinho de bons meninos de cuequinha de gibi.
Dormi confortado.
Um outro mundo é possível.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Como encarar a dor?
Estava eu navegando pela internet, quando me deparei com um post sobre dor. Mais especificamente sobre um estudo que indica que olhar para a fonte da dor pode reduzir a sensação dela.
O estudo trata obviamente de dores físicas, mas a primeira coisa que pensei foi: "E pra dor psicológica?".
Bem, ainda que seja muito bonito falar que devemos encarar a dor, reconhecer e enfrentar seja lá o que/quem esteja causando, não consigo acreditar que seja verdadeiramente a melhor opção. Ao menos não sempre.
Acredito sim que problemas devem ser encarados, sempre, e qualquer que seja. Mas problemas são diferentes de dores. Afinal, se você quebrou um braço (problema), mesmo o engessando (solução) não se livra da dor (errr...dor). A dor é consequência de um problema que é a causa.
Eu sou um tanto masoquista. Quando estou com torcicolo fico forçando o pescoço no sentido em que está o problema. Não sei porque, acho que vai ajudar. Então me exponho muitas vezes a dor achando que um tratamento de choque pode resolver seja lá o que for. Ou resolve ou me mata logo de uma vez.
Não funciona. Certos problemas se alimentam de atenção. Com atenção ganham relevância e com relevância já viu né? Assim, entendo que certas dores devem ser enterradas, sepultadas e se posssível, esquartejadas para que fique impossível de ser rastreada. Se precisar tomar analgésico, anestésico, seja o que for, que seja. O que importa é deixar essa dor escondida, sufocada, pra que aos poucos morra sem ar, asfixiada pela falta de atenção.
A pesquisa indica que em vez de virar o rosto ao sentir dor, é melhor encará-la. Tudo bem, a próxima vez que bater meu dedinho contra uma quina farei isso, mas quando derem com uma marreta no meu coração vou fingir que não é comigo.
PS: Happy Valentine's Day nessa segunda! Rs...
O estudo trata obviamente de dores físicas, mas a primeira coisa que pensei foi: "E pra dor psicológica?".
Bem, ainda que seja muito bonito falar que devemos encarar a dor, reconhecer e enfrentar seja lá o que/quem esteja causando, não consigo acreditar que seja verdadeiramente a melhor opção. Ao menos não sempre.
Acredito sim que problemas devem ser encarados, sempre, e qualquer que seja. Mas problemas são diferentes de dores. Afinal, se você quebrou um braço (problema), mesmo o engessando (solução) não se livra da dor (errr...dor). A dor é consequência de um problema que é a causa.
Eu sou um tanto masoquista. Quando estou com torcicolo fico forçando o pescoço no sentido em que está o problema. Não sei porque, acho que vai ajudar. Então me exponho muitas vezes a dor achando que um tratamento de choque pode resolver seja lá o que for. Ou resolve ou me mata logo de uma vez.
Não funciona. Certos problemas se alimentam de atenção. Com atenção ganham relevância e com relevância já viu né? Assim, entendo que certas dores devem ser enterradas, sepultadas e se posssível, esquartejadas para que fique impossível de ser rastreada. Se precisar tomar analgésico, anestésico, seja o que for, que seja. O que importa é deixar essa dor escondida, sufocada, pra que aos poucos morra sem ar, asfixiada pela falta de atenção.
A pesquisa indica que em vez de virar o rosto ao sentir dor, é melhor encará-la. Tudo bem, a próxima vez que bater meu dedinho contra uma quina farei isso, mas quando derem com uma marreta no meu coração vou fingir que não é comigo.
PS: Happy Valentine's Day nessa segunda! Rs...
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