sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Voltei

Sei que muitos não sentiram saudades, mas cá estou de volta. E digo mais: completando o que deixei de escrever nessas quatro semanas e pouco e mais estressado. Não está tudo completo, mas me comprometo a completar essas lacunas crônicas desse site.

O estresse é pelo motivo de sempre: política, sociedade, o clima quente de Fortaleza, essas coisas todas. Mas o fato é que senti saudade. Saudade de estar aqui com vocês compartilhando não só do estresse, mas dessa coisa boa que é escrever, cronicar para o desconhecido leitor que me acompanha, passa aqui sem querer ou é ‘indicado’ a entrar aqui.

Não foi pela falta de idéias que deixei de publicar. Tão pouco pela preguiça. Só digo que essa coisa de trabalhar demasiadamente cansa. E como cansa. Escrever para o blog, ensinar em um canto, trabalhar noutro e "politicar" num diferente, é coisa de louco, gente. Dá um nó no cérebro que é impressionante.

Não que seja ruim, mas é que é muito pensar. Há anos não me sinto assim, cansado. Mas sinto que vale a pena.

Sei, também, que essa coisa de promessas não dá. E não prometerei não falhar mais aqui. Porém, em contrapartida, me comprometo com vocês. E meu compromisso é de estar aqui, semanalmente, nessa coluna dizendo algo de (in)útil.

Confesso que não estar aqui me fez falta. Dá aquela sensação vazia de não estar, de nada fazer, de nada comentar com alguém do que escrevi ou, ainda, ouvir alguém dizer que me leu (isso aconteceu uma única vez nesses anos que escrevo aqui).

E, como cronista ausente, entrava aqui todos os dias para ler minhas bobagens. Só que às sextas, faltava algo, percebia que não havia crônicas, digo uma crônica nova.

Pela primeira vez na minha vida, queria me ler. Queria ler algo que eu tivesse escrito, mas nada havia. Deu-me um vazio e senti no olhar o que muitos dos que me acompanharam sentiam a cada sexta sem crônica.

Li cada uma das crônicas que postei aqui com a certeza de que quero continuar, que é bom se distrair ao ler e escrever. E embora essa crônica seja mais uma justificativa injustificada da minha ausência, me comprometo em estar aqui com vocês e não mais lhes abandonar. Afinal, não escrevo para mim, mas para aqueles que me lêem.

Até semana que vem.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Todo cambia

A música de Julio Numhauser, imortalizada na voz de Mercedes Sosa já diz tudo e da forma mais bela possível. Tudo muda, o tempo todo, independente da nossa vontade.

Mas mudanças são sempre difíceis. Sair da zona de conforto, como dizem os experts, requer esforço, e às vezes não queremos esforço nenhum. Me deixa quieto aqui no meu canto que está tudo muito bom.

Tudo muda e, mesmo que quietos no nosso canto, somos varridos de um lado para outro, à mercê da vontade do que alguns chamam ka, outros chamam destino. Fate is a hunter, já diz o ditado.

Já vi, com esses olhos que o fogo há de queimar, quem fosse de tristeza eterna. Pessoas que são derrotadas por si mesmas, que quando perguntamos como tem passado sempre respondem – vou levando – e nunca dizem que está tudo bem. O que se vislumbrava apenas um catre num asilo escuro no futuro dessa pessoa, se torna parque de diversões quando, anos depois, a encontramos jovial, feliz, de riso fácil e sincero, desfrutando a vida como jamais nós mesmos desfrutamos. Quem diria, uma pessoa antes tão triste. O ka trabalhou bem ali.

E já vi o contrário também. Quem de muita alegria se tornar apagado para a própria vida. Tudo muda.

Quem de muitas paixões a vida toda, de repente se entrega de corpo, alma e até conta bancária a um amor apenas. Pleno. Interessante isso.

Já vi quem de muita segurança, opinião forte e pétrea, astúcia afinada e perspicácia infalível durante a vida toda, ficar, sem grandes motivos, insegura, agindo de forma estúpida, deixando todos em volta com uma grande interrogação pairando sobre a cabeça.

Eu, é claro, já mudei muitas vezes. “Se tudo muda, que eu mude não é estranho.”

Defender apaixonadamente uma idéia durante anos. Quem já não fez isso? E quando a mão do tempo dá-lhe um piparote na nuca, aquela idéia, tão perfeita, tão indiscutível, se torna simplesmente infantil. Infantil como achar que tudo vai ficar da mesma maneira para sempre.

O Orlane que começou a escrever este texto não é o mesmo Orlane que vai terminá-lo. Como você, leitor, que também não é mais o mesmo desde que passou os olhos pelo primeiro parágrafo.

Nem este próprio texto será o mesmo com o passar dos anos.

E, se tudo muda o tempo todo, vamos nos apegar a quê? No fundo, todos nós sabemos a que se apegar.

“Muda o superficial, muda também o profundo, muda o modo de pensar, muda tudo neste mundo”.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Um pouco de tudo

- Olá tudo bem? Então você é o famoso Cristiano?
- Não tanto quanto eu gostaria.
- Hehehe, bem que seu pai me falou que você era diferente.
- Diferente? Como assim?
- Ah, meio assim, tchop-tchura.
- Tchop-Tchura?
- É, meio assim alternativo…
- Ahhh…
- Mas me fale garoto, no que posso te ajudar?
- Olha Paulo, não sei se meu pai te adiantou alguma coisa. Mas eu estava precisando de um emprego mesmo. Como o senhor trabalha em diferentes áreas achei que poderia ter alguma coisa interessante.
- Sim claro. Faço de tudo pelo seu pai. Um grande homem. Ajuda a todos.
- É, é mesmo.
- Uma vez estávamos pescando no Pantanal e ele salvou minha vida.
- Jacaré?
- Não, ia levar pro rancho uma paraguaia chamada Ramon. Ele que impediu.
- Jura, ele te avisou?
- Não, ele tinha me dado uma daquelas cápsulas de alho para espantar mosquito. Descobri que espanta travesti também.
- Hummm…entendi…
- Mas me fale. No que você gostaria de trabalhar.
- Bem, pra ser bem sincero com o senhor não tenho idéia.
- Não tem idéia? Como assim? Você não é formado?
- Sou sim. Em comunicação social.
- Então, perfeito. Estava precisando de alguém para criar os banners que colocamos nas lojas. Tem um moço do financeiro que faz pra gente, mas não gosto muito. Você pode fazer como eu sempre quis. Te passo o que quero e você cria.
- Hummm…é…pode ser…
- Que foi? Não gostou da idéia?
- Imagina senhor. Gostei sim. Mas é que imagino que o senhor tenha ótimas idéias, seria inútil na empresa. Queria fazer algo que fosse útil de verdade.
- Entendo. Bem, você precisa me ajudar então senhor Cristiano. Do que entende?
- De tudo.
- De tudo? Como assim?
- É sou maníaco por informação, então acabo entendendo um pouco de tudo.
- Então ótimo. É só escolher. Nosso departamento de vestuário está precisando de gente. Você entende de moda?
- Entendo.
- Então pronto, fica na parte de novos designs.
- Olha, eu entendo, mas não sei desenhar nada. O máximo que sairia seria as roupas da Turma da Mônica.
- Hummm…entendo. E tecnologia? Você entende?
- Entendo sim senhor.
- Fantástico. Nosso administrador de redes pediu licença para ir ver a pré-estréia do último filme do Homem-Aranha e nunca mais voltou. Você entende de computadores?
- Entendo sim senhor, mas apesar de conhecer os tipos de servidores, sistema de senhas, permissão de conteúdo e gerenciamento de arquivos, não sei lhufas de administração de redes. Não controlaria bem o acesso nem a um Pense Bem.
- Hummm…então deixa eu entender…
- Sim.
- Você disse que entende um pouco de tudo.
- Isso.
- Diz que conhece todo tipo de assunto.
- Isso.
- Você por acaso entende tudo de alguma coisa.
- Errr…creio que não.
- Então você não entende é de nada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Só palavras

É muito interessante tal mister de escrever, escrever, escrever. Jogar palavras ao vento, mesmo que seja um vento eletrônico.

Enfileirar letras, separando-as por espaços, formando palavras. E depois enfileirar palavras para dizer algo que vai voar por aí entre bits e bytes e chegar a alguém. Alguém que vai dar alguma importância para as palavras. Ou que não vai dar importância nenhuma.

Palavras que saem da ponta dos meus dedos e que podem fazer pensar, rir, chorar até, ou mesmo podem não fazer nada. Não-palavras.

Palavras podem influenciar? Não sei, sinceramente não sei. Não consigo vislumbrar qual tipo de influência as palavras que eu coloco na tela possa causar.

Comunicar sem endereço certo é prática milenar, mas mesmo assim causa certo desconforto. Não sei se uma daquelas dente-de-leão se importa com o lugar onde suas sementes vão cair quando o vento bate ou quando uma criança a assopra. Eu também não sei se me importo, na verdade, onde minhas palavras vão aterrissar.

Mas me importo, sim, como vão aterrissar. Escrevo o que bem entender, sobre o que me der na veneta, da maneira que eu falaria com você se estivéssemos numa sala de estar ou na mesa de um restaurante, mas não quero ser mal interpretado. Ninguém quer ser mal interpretado. Então sempre espero que minhas palavras aterrissem diante dos seus olhos sem grandes solavancos e sem derrapar na pista.

Mesmo que o conteúdo não seja lá muito requintado.

Até porque tenho a impressão de que você não quer chegar aqui e ler algo muito requintado. São crônicas, afinal. Não uma tese de doutorado.

Se falta a veia dramática, talvez tenha a cômica. Se falta a cômica, talvez eu apareça com alguma ácida. Se falta acidez, posso tentar ser crítico. Mas vou sempre tentar enfileirar palavras para jogar ao vento.

E, acreditem, tem dias que o esforço é hercúleo. Escrever com dor de cabeça é terrível. Com qualquer dor escrever é terrível. Se bem que fazer qualquer coisa com dor não é lá muito agradável.

Palavras. Palavras que uso para dizer alguma coisa, mesmo que eu não faça idéia do motivo. Será que quero dizer alguma coisa?

Às vezes não quero dizer nada. Às vezes não quero dizer nada com nada. E não digo, mas escrevo. Alguém, qualquer hora, encontra algum sentido para isso tudo.

Porque palavras sempre dão sentido para alguma coisa.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Sai um, entra outro

Se alguém me perguntar como foi o meu ano de 2007, talvez eu não saiba responder. Todo mundo fica tão preocupado em desejar um bom 2008 que ninguém se lembra de perguntar como foi o 2007. O que é estranho, porque normalmente perguntamos – como foi a sua viagem? – mas não desejamos votos de que as próximas férias sejam realmente fantásticas.

Mas isso não tem importância nenhuma na verdade. O que importa é que todo mundo tenha saúde e dinheiro. O resto arranja-se.

Fazendo um esforço de análise, acho que 2007 foi um ano apenas razoável. Mezzo, mezzo. Meia atum, meia mussarela. (Vou me recusar a escrever muçarela, como manda o léxico. Muçarela é uma das grafias mais hediondas do idioma).

Aconteceram coisas legais, como eu ter comprado um cortador de cabelo, mas aconteceram coisas que não são muito dignas de comemoração, como eu ter perdido a chave reserva do meu carro.

Mas o fato de 2007 não ter sido lá grandes coisas abre margem para 2008 ser mais ajeitado. Ou ser mais patético do que 2007, mas não vou considerar a opção pessimista. Não é porque hoje é o primeiro dia do ano e chove a cântaros aqui em Fortaleza que meu humor ficará gris como o céu de hoje.

Sai 2007, entra 2008 e os ciclos se renovam. Na verdade só mudou o mês e um dígito no ano, nada muito místico, mas é bom pensar em ciclos. Acho que a mente humana necessita separar as coisas em fases definidas, senão a gente se perde no próprio quando.

E estou ansioso em saber quais pessoas vou conhecer no ciclo 2008, quais livros vou ler, que viagens irei fazer, quantos palavrões novos vou aprender. Meço a dimensão literária das pessoas pela capacidade de inserir palavrões bem inseridos nas frases.

Mas não farei grandes planos para 2008. Planos não realizados são sinônimos de frustração. E não estou muito interessado em frustrações neste ano que começa.

Talvez o único planejamento que eu possa fazer para 2008 seja comer rabanadas. 2007 se esvaiu e não comi nenhuma rabanada. Nem no natal e nem no ano novo. Por que diabos só tem rabanada no natal? Por que raios só tem quentão em junho? Por que miséria panetone só no final do ano? Vejo um ótimo nicho de mercado nisso - abrir um estabelecimento só de comidas temporãs. Que tal um ovo de páscoa em outubro? Ou um tender em maio?

Mas antes eu preciso descobrir a diferença entre um tender e um chester. Já ouvi dizer que são bichos meio repugnantes. Vai saber.

Por fim, evoco Rita Lee e digo “bye bye, aqui eu me despeço”

Espero que todos vocês tenham tido um ótimo começo de ano e vamos nos falando no decorrer.

Excelente 2008 pra nós.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Eu sou, apenas, um homem

Termino o ano feliz. Com a sensação do dever cumprido. Contente comigo mesmo. E nada melhor do que terminar algo com a consciência tranqüila. Dá aquela sensação de leveza na alma.

Débito? Só bancário. E olhe lá. Já é demais.

Cabelos? Poucos, mas mais longos. Foi uma maneira mais do que paliativa de esquecer da careca. Mas ela não me esquece e não me deixa.

Com o passar deste ano, caindo e levantando diversas vezes, percebi o que realmente me faz falta, a amizade que importa, o amor verdadeiro e, que para estar de bem com a vida, não é necessário uma infinidade de coisas, de pessoas ao seu redor. Solidão, dirão alguns. Solitude, digo eu. Apenas saber peneirar tudo ao seu redor.

Mas, por passar por tudo isso é que concluo que, diferentemente do que muitos pensam por aí, eu sou, apenas, um homem.

Nem adianta vir com subterfúgios, nem dizerem por aí que sou poeta, cronista, artista e formador de opinião. Não formo nada. Não há nenhuma classificação cabível no meu ser tão vário.

Eu sou, apenas, um homem.

Com minhas crenças e descrenças; angústias e lástimas; sorrisos forçados e gargalhadas sinceras; amigos perdidos e reconquistados a muito custo, mas com os braços sinceros pelo aperto da saudade. Por isso e por tudo o mais elencado, concluo que, de fato, sou apenas um homem.

Um como outro qualquer. Sem nada de mais e, também, nada de menos. Nada medíocre, também. Nem normal, mas nem tão louco e, muito menos, um pouco sóbrio.

Apenas, um homem.

Não um super-homem. Mas há quem se apaixone por seus atos de bravura desmedida, de abraçar uma causa por puro altruísmo, de acreditar, piamente, no ser humano e por ele ser traído.

Um homem.

Não uma máquina de decorar palavras e gestos. Mas um ser feito da amalgama da cultura de seu povo, do desatino que faz ser, ainda que único, porém, coletivo, um simples homem.

Eu sou, apenas, um homem.

Quero ser, como muitos o são, passado, presente e futuro: passado à sombra de meu pai e ser a luz do amanhã de um filho que ainda não tenho.

Apenas, um homem.

Que está ao sul, limitado pelo seu nascimento. Ao norte, pela morte. A leste, pelo Direito não só seu, mas dos outros. E, a oeste, pelas divagações e dilemas mais intrínsecos e recônditos.

Ah... quisera eu ser a chuva, brisa, primeira namorada, música do Vinícius, nuvem, amor, paixão e desejo.

Mas eu sou, apenas, um homem.

Com todas suas contradições e inquietudes que só um homem tem.

sábado, 22 de dezembro de 2007

O que é um tiozinho?

Juntamos a turma antiga num almoço de final de ano. Sabe aquela turminha que convivia quase diariamente, que iam para o bar juntos, que sabiam o telefone da casa de cada um decor? Pois é, hoje essa turminha só se encontra em casamento, velório e... almoços de final de ano.


Mas a amizade é a mesma, e a sensação de nem faz tento tempo assim que nos encontramos não é mentira. Os mesmos papos, a mesma afinidade.


Mas sempre tem um que faz questão de dizer que as coisas não são como antes. Dessa vez, quem provocou foi o Japonês.


O Japonês sempre foi o mais sensato da turminha. Sempre de avaliações ponderadas, despido de preconceitos, com muito jeito te põe contra a parede. Muito diplomático, o Japonês.


Está com algum problema? O Japonês te chama para um papo, abre um pacote de salgadinho, cruza as mãos e apóia os cotovelos nas coxas, num a posição intimidadora, porém que demonstra grande interesse no que você vai dizer.


E você diz, esperando um afago, uma palavra de conforto. Mas ele é o Japonês, e vai enfiar o dedo na tua ferida até você ficar com vontade de dar-lhe um murro nos cornos. O que você não vai fazer, porque ele joga com uma sinceridade desconcertante.


Mas como eu estava dizendo, no último almoço de final de ano, o Japonês disse que eu fiquei tiozinho. Tiozinho? Eu?


Argumentei que não havia como eu ser um tiozinho. Apontei alguns tiozinhos no restaurante onde estávamos, daqueles grisalhos, óculos escuros, roupas esporte e muita lábia para cima das pós adolescentes de pernas de fora que confraternizavam no estabelecimento.


Mas ele rebateu me dizendo que aqueles eram tiozões. Eu era tiozinho.


O que será um tiozinho? Não cheguei na fase (ainda) de querer fazer esportes radicais para provar a minha masculinidade e juventude anciã. Não estou tingindo os cabelos nem estou prestes a comprar uma moto. As mulheres que me chamam a atenção ainda são as da minha idade. Por que será que o desgraçado me classificou de tiozinho.


E percebi no discreto sorrisinho nipônico que ser tiozinho não é lá muito bom.


Sou o solteirão da turma, tudo bem, mas creio que isso não seja o bastante para eu ser um tiozinho.


Deve ser despeito. Eu aqui, na flor da idade, com os cabelos ao vento e com a barriga não tão proeminente assim.


A barriga! É isso! O Japonês me ultrapassou no quesito barriga e agora vem querer tripudiar.


Não sou tiozinho coisa nenhuma! Só estou mais em forma que o tiozinho Japonês.

Um alívio. Acho que vou aproveitar o final de tarde, pegar a moto e ir até o bar onde a turma do rapel se encontra pra olhar as menininhas.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Fiquei mais rico

Nesta semana comecei a ficar mais rico. Já estou até esperando o dia primeiro do próximo ano. Vou ver meu simples dinheirinho não ser comido todos os dias pela CPMF. Fiquei feliz com a decisão do parlamento.

Feliz por várias aspectos, o primeiro deles é ver a derrota do Lula e seus asseclas. É bom para ele provar do veneno que por várias vezes destilou quando em outros governos os presidentes tentaram votar a CPMF e ele vinha na televisão dizendo que era um imposto injusto e que o pobre é que pagavam a maior parte.

O segundo aspecto é ver a confusão que esse governo é. Ninguém se entende e eles mal conseguem organizar as pessoas que fazem parte de sua base aliada. Adoro ver confusão neste governo. É só a mostra de quanta incompetência existe no planalto central.

O terceiro aspecto é a diferença no meu bolso que deve ocasionar. Semanas atrás escrevi aqui sobre como a CPMF prejudica a economia e teoricamente a partir de agora a carga tributária brasileira deverá cair perto de 1,9%. Também a inflação deve cair muito ou até ficar negativa, já que os empresários podem repassar a diminuição da CPMF para o preço dos produtos.

O governo negociou mal. Fez o senado de gato e sapato, liberou verbas, fez promessas e até alterou o destino do dinheiro na última hora. Mas de nada adiantou. O resultado foi justo pela forma como o governo tratou a questão.

A população como um todo ficará perto de 1,9% mais rica, pois não teremos o débito dos 0,38% nos saques de nossas contas e pagaremos menos por produtos já que a CPMF também vai afetar a produção.

Resumindo, todo mundo sai ganhando. Menos o governo. Mas no final, o governo não perde os tais 40 bilhões. Como todos terão um pouco mais de dinheiro para gastar, gastaremos mais e com isso outros impostos serão recolhidos e o governo não perderá os 40 bilhões, perderá menos que isso.

O governo diz que algumas áreas sociais do governo serão afetadas e que a população pode ser impactada por isso. Para melhorara isso, é só diminuir o desvio de verbas que acaba sobrando dinheiro.

E a saúde?A saúde ficará mais precária com a ausência da CPMF? Difícil. Difícil ficar mais precário do que já está!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Empréstimo de risco

Cláudio e Rogério eram amigos há muito tempo. Desde a infância. Fizeram o primário, ginásio e colegial juntos, eram praticamente irmãos. Depois de uma vida toda só de alegrias, Cláudio chamou Rogério para uma conversa muito séria. Como eles nunca tiveram. E como talvez nunca mais fossem ter :

-Cláudio, na boa, eu nem sei como começar essa conversa ….
-Porra, Roger, fica na boa meu!
-É, eu tou ligado ma-
-Seguinte! A gente se conhece desde que eu me entendo por gente.
-Verdade …
-Nossas famílias nos conhecem melhor do que muitos parentes por aí!
-É, mas …
-Já passamos todo tipo de dificuldade juntos, amigão!
-Eu sei …
-Então! Não faz essa cara! Pode começar … Quer relaxar?
-Não, na-
-Vamos lá! Ô “bigode” - chamando o garçom - trás dois “whiskies” aqui pros amigos! Dois! Duplos, heim?!
-Ah …
-Vamos lá, Roger … Pode falar! Tou aqui pra isso!
-Então …
-Já sei!
-Acho que nã-
-Cara! Não vem com essa! Saquei! Não precisa ficar assim!
-Olha, na verdad-
-Eu não quero nem saber quanto! Muito menos o porquê! Vou te dar um chequ-
-Cláudio! Me escuta!
-Roger, eu te conheço, irmão! Você é orgulhoso que dói! Não deve nem estar conseguindo dormir! É um empréstimo, não é?
-Bem …
-Tá vendo?! Sabia!
-É, mas ….
-Pode falar! Eu já te disse milhares de vezes. O que é meu é seu! Puxa vida … amigos há tanto tempo, e você com essa bobagem por causa de papel pintado! Dinheiro não passa disso, Roger!
-Cláudio … É verdade! Eu quero um empréstimo.
-Isso, isso! Se solta cara. Relaxa. Só tem eu e você aqui. Que mal pode acontecer, vamos sair dessa juntos! Diz aí!
-Então … é … bem … eu não sei, mesmo, se você vai poder me emprestar o que …
-Cara! Pára com essa bobagem! O que eu não poderia dividir com você, meu irm-
-A Gabi !
-Heim?!
-É isso mesmo! A Gabi! Mas calma!
-Como assim?! A minha mina, Cláudio! Você tá louco! Ficou doidão!?
-Deixa eu explicar, porra!

Rogério fica balançando a cabeça e chacoalhando os pés, descontroladamente. Depois de um breve silêncio Cláudio volta a falar.

-Seguinte :
-Diz … tenta …
-Há quanto tempo acabei meu namoro com a Susie?
-Sei lá … 3 anos!
-É 3 anos. Pra ser mais exato, 3 anos, 2 semanas e 21 horas!
-Sério mesmo?
-Pois é, então! Posso continuar …
-Vai fundo …
-Desde então : 3 anos, 2 semanas e 21 horas, que eu NUNCA mai-
-Pára, velho! Não vai me dizer que você nunca mais tr-
-Cala a boca, Cláudio! Você acha que eu não ia ter matado meio-mundo se isso tivesse acontecido!?
-Ufa …
-Sexo não é o problema hoje em dia!
-É ? Sei lá … tou com a Gabi desde o ginásio … nem imagino …
-Acredita, Cláudio ! E você acha que eu ia ser imbecil de te pedir ela emprestada pra isso!?
-Cara! Explica logo, que eu já tou querendo dar uma muqueta no meio da tua fuça!
-Calma! É o seguinte :
-Hmm …
-Faz 3 anos, 2 semanas e 21 horas, veja bem o número, que eu não assisto um filme, vou há uma lanchonete e converso completamente despreocupado com uma mulher!
-Caramb-
-É, velho! Eu não agüento mais!
-Mas …
-Não tou falando de beijo ! Amasso! Essas porras todas …
-Pô, Rojão, num sabia desse negócio, não!
-É Clau! Na boa, isso é impossível hoje em dia!
-Sério mesmo?
-Pois é! Agora acompanha meu raciocínio!
-Tá! Ok! Tou mais calmo agora …
-Depois da minha mãe, qual mulher, presente no meu dia-a-dia, que eu conheço há mais tempo?
-Hmm … sei lá … deve ser a…
-Pensa bem!
-Hmm …
-Vai, mano! O cérebro tá pago, é só usar, vai!
-A Gabi!
-Isso!
-E com que mulher eu fico tão despreocupado a ponto de ser o melhor de mim, só de estar junto, por conhecer há muito tempo, e por não ter nenhum tipo de preocupação sobre o que ela está pensando?
-A Gabi?
-Claro! Ela é sua! Sempre vai ser sua! Eu vou ser padrinho de vocês! Vocês são o Romeu e Julieta dos tempos modernos, e sem cianureto! Ela é a única mulher que eu conheço, pra quem sou absolutamente inofensivo!
- É ….
- Então!
- Faz sentid-
- Cara! Me empresta, uma única vez, umazinha só, a Gabi pra sair comigo de sexta à noite!
-Bom …
-Eu só quero passar uma noite (só a noite, sem madrugada!) com uma mulher inteligente, agradável, com senso de humor, etc, etc, e despreocupado como talvez eu nunca mais possa ficar na vida !!
-Você está exagerando, irmão!
-Exagerando !? 3 anos, 2 semanas e -
-Ok ! Entendi!
-Ufa …
-Tá certo!

Cláudio quase levantou da mesa no ímpeto do seu discurso. Ele fica quieto, olhando para o chão, ofegante, enquanto Rogério recobra suas forças, e com cara de quem não acredita no que vai fazer, diz :

-Esse é o pedido mais estranho e absurdo que eu já ouvi na vida, mas, por mais estranho e absurdo que possa parecer, eu acho que entendi.
-E aí … ?
-Olha velho! Já te disse algumas vezes, que deixaria tranquilamente você dormir no mesmo quarto que a Gabi, por total confiança nos dois …
-Então, Mano … Não te pediria se não confiasse em nós dois também! E se essa abstinência não tivesse chegado a um ponto tão insuportável!
-Ok!
-Puta Claudião! Sabia!
-É ! sabia … sei! - ainda um pouco contrariado.
-Puta velho! Isso é uma coisa que nem irmão faria!
-Tou ligado …
-Ah ! Demais!
-Seguinte!
-Diga !
-Uma condição:
-Quantas você quiser!
-Vocês podem fazer o que vocês quiserem. Confio nos dois. Não quero nem saber o que vai rolar!
-Tá …
-Mas … uma condição é cinequanon !
-Claro! Pode falar!
-Vocês não podem ter nenhum, repito, NENHUM tipo de contato físico!
-Certo.
-Beijinho ao chegar …
-Não!
-Abraço!
-Nunca, jamais!
-Isso, esse é o espírito. Mãozinha dadas …
-”Jamé”!
-Isso aí, Roger. Assim sendo-
-Assim será, nem precisa falar mais!
-Perfeito!
-Pô cara! Ainda bem que essa condição não impede contato físico entre a gente!
-Magina, brow !
-Verdade! Chega aí! Me dá um abraço cara!
-Num precis- … Ei! Calma!!

Cláudio, num ímpeto de felicidade, tenta abraçar o amigo.

-Porra velho! Eu tava ficando louco com isso! Ô “Barba” - para o garçom - traz 2 quádruplos pros irmãos aqui! Dos bão!

Rogério concorda, acenando positivamente com a mão para o garçom.

-Poxa ! Não sabia bem o que ia acontecer hoje, depois que eu te contasse tudo.
-É velho! Mas mesmo envolvendo a Gabi e tal … Nossa amizade é sempre maior! Confiança de irmão mesmo!
-Pai e filho, eu diria. Pai e filho! Eu seu pai, você pai de mim, e vice-versa!
-Pois é …
-Puxa vida … (irradiante)

Outro silêncio. O Garçom serve os whiskies pedidos . Os amigos brindam e tomam um gole do drink. Cada um pensando na bencão de ter uma amizade tão boa como a deles.

-Cláudio!
-Opa! Diz aí.
-Só uma dúvida!
-Fala aí …
-Então … - (agitando o gelo no copo) - Cafuné é contato físico ?
-Ah, vem aqui seu filhadumap —

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Ponto de vista

- Nhan han humpf er…Alô.
- Rô?
- Nham han pufpuf er er…Quem tá falando?
- É a Su, Rô. Você está dormindo?
- Nham puf… Agora não mais. Que Su?
- Como assim que Su? Sou eu. Suzana. Sua ex-namorada..
- Ahhhhh Su. Porque não disse que era você? Me desculpa gatinha. Como é que você está?
- Tô ótima e você?
- Tranquilo. Pô, engraçado, estava pensando em você esses dias. Em nós dois.
- Ah é? Que coisa. Então, liguei só pra dar um “oi”. Manter contato.
- Lógico. Legal você ter ligado. Uma surpresa. Depois de tudo….
- É na época foi bem difícil..
- Terminamos de um jeito bem conturbado.
- É bem verdade Rô, mas desencana, não pra liguei pra falar sobre isso. O que passou, passou. Creio que somos adultos o suficiente para separarmos bem as coisas e nos relacionarmos sem problema.
- Claro, com certeza.
- Mas me diga, como estão as coisas?
- Ah tudo jóia. O de sempre né. “Facul”, balada, cineminha. E você?
- Eu também. Só na balada que estou em falta. Agora namorando né…
- Ah! Tá namorando?
- Tô sim, já faz 9 meses, super felizes. Já fazemos planos até de casamento. E você?
- O que tem eu?
- Tá namorando?
- Ah sim. Mais ou menos. Mas acho que tô.
- Como assim “acho que tô”?
- Não. Quer dizer. Estou sim. Claro que estou. Ela é linda. 27 anos.
- Ah tá. Mas você tomou jeito né? Não é mais canalha como na minha época?
- Claro que não. Sou um novo homem. Outra mentalidade. Consigo ter amigas numa boa. Sem segundas intenções.
- Nossa Rô, que bom saber disso. Fico feliz.
- É, to feliz também. Aliás falando em amigas podíamos combinar de sair essa semana. Depois da “facul”. Aliás você estuda a noite ou pela manhã?
- Tô estudando a noite. Na mesma classe da Rutinha.
- Putz a Rutinha. Faz tempo hein. Aliás e o resto do pessoal? Tem visto?
- Só a Rutinha mesmo.
- Ah lógico, vocês são inseparáveis.
- É. Somos irmãzinhas praticamente. E você? Tem contato com o povo?
- Todo mundo na mesma Su. O Duda com a Raquel, brigando brigando mas sempre juntos. O João perdido como sempre, agora tá numa onda Hare Krishna. Ligo de vez em quando pra eles mas nada muda. Aliás, me diz uma coisa, seu telefone continua o mesmo?
- Nossa, o Duda ainda está com a Raquel??? Que legal, esses vão casar!
- É o que todos dizem. Mas é ruim do Duda casar. Aquilo é um traste.
- Verdade.
- Su, me desculpa, mas tenho que sair agora. Lembrei que tenho dentista. Depois nos falamos hein, temos que nos ver.
- Um beijo Rô.
- Beijo.

:::::::::

- Alô?
- Fala Su. Tudo bem
- Oi Lili. Não sabe da última!
- CONTA, CONTA!!!
- Liguei pro Rô.
- NOSSA! Aquele cafajeste, te tratou tão mal e você ainda liga pra ele?
- Ah Lili, foi justamente por isso. Tenho que provar que estou totalmente recuperada.
- É verdade. Mas e aí? Como foi?
- Falei com ele numa boa, como uma pessoa civilizada.
- Jura???
- Juro amiga. Acho que agora coloquei um ponto final no assunto. Ele entendeu que podemos ser amigos numa boa já que não sinto mais nada por ele e nem ele por mim.
- Ai, que bom Su. Ainda bem que isso acabou de uma vez por todas.

::::::::::

- Fala sua bicha!!!
- Faaaaaala Rodrigão como é que tá?
- Beleza. Você não sabe da última? Lembra daquela minha Ex, Suzana?
- Tô ligado.
- Vou comer de novo!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Mal entendido

Sentaram no primeiro banco que estava vazio na praça. Antes, obviamente, ele limpou o banco. Sentar em cima de folhas não é agradável, a conversa, certamente, não seria também. Haviam se separado há mais de três anos. Ela estava de volta à negócios e ele nunca havia se mudado da cidade natal. A praça era a mesma onde eles tiveram sua primeira briga, eram adolescentes na época.

- Fiquei contente que você me ligou.
- Eu estava de passagem, tinha que te ligar, já faz três anos afinal.
- É muito tempo mesmo. Inacreditável como você não mudou nada.
- Não precisa me bajular, a idade já me é companheira.
- E o que isso quer dizer?
- Estou velha.
- Bobagem. Você ainda está bem gostosa.
- Eu devia ficar ofendida com isso, mas não consigo.
- Eu sei, é o meu sorriso. Irresistível.
- Você continua um palhaço.

Imóveis por alguns segundos, observaram o carrinho de cachorro quente. Provavelmente lembrando das inúmeras vezes, que haviam matado aula para comer e depois namorar na praça. Se entreolharam.

- O que será que deu errado?
- Conosco?
- Não, com o "Cadeirão". Era um bar tão bom!
- Achei que você fosse querer conversar sobre a gente.
- Não há mais o que conversar. Você foi embora, em busca dos seus sonhos, eu não fazia parte deles. Eu fiquei e fui em busca dos meus.
- Você sabe que não foi bem assim que aconteceu. Era uma oportunidade de ouro.
- Eu sei muito bem o que aconteceu, e realmente não precisamos falar sobre isso.

Ela estava nervosa, mas não demonstrava, já ele, não conseguia disfarçar o nervosismo. Ele sempre coçava o joelho quando estava nervoso. Ela pegou na sua mão.

- Não precisa ficar assim. Podemos apenas dar uma volta pela cidade.
- Andando?
- É melhor. Você pode andar comigo até a casa da Patrícia, ela viajou e me deixou ficar lá até quinta-feira.
- Tudo bem. Acho que uma caminhada vai fazer bem.

Andaram por trinta minutos, relembrando cada passagem de suas vidas naquelas ruas praticamente intocadas. Os passeios de bicicleta, as brincadeiras de rua, a turma da rua de cima e a turma da rua de baixo, os cachorros bravos, os velhos mau humorados e até a velha fonte da Dona Iracema.

Quando chegaram na porta da casa da Patrícia, ele pegou em suas duas mãos e se aproximou.

- Achei que nunca mais fosse beijar essa boca.
- Mas quem disse que você vai?
- Eu achei que isso tudo era...
- O que?
- Bem, você me ligou, me convidou para ir na praça.
- Era o lugar mais conveniente.
- E a conversa sobre nós dois?
- Olha, não queria estender essa conversa, mas você entendeu errado.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Nana Dona Dirce

Grande parte de nós cria seus rituais...

São coisinhas que podem ou não ter função específica, razão de ser, motivo pra existir. Criamos de forma consciente ou não, meios de conseguir chegar a algum resultado, e quando o resultado é bom e satisfatório, aí é que pode nascer um ritual.

Claro que há casos em que mais do que um rito ligado a uma superstição, há também o aspecto da necessidade de uma rotina, de um método único pra se realizar tarefas complicadas (como escrever uma crônica), ou as mais simples.

Depende do grau do maniado.

Existem rituais pra se tomar banho, onde segue-se ou não uma coreografia que inicia desde a forma como se tira a roupa, a regulagem do chuveiro, a maneira de se entrar na água, e acompanha um método ritualístico pra se lavar cada parte do corpo em uma ordem lógica que preserve limpas as partes de cima pra finalizar nas partes mais baixas. Conforme o escorrer da água. Juro que existe isso.

E depois tem o ritual pra se secar após o banho, mas encontro paciência pra isso. Era só um exemplo mesmo.

O ritual pessoal é necessário, entendo.

Mas alguns beiram ao exagero, viram mania irretocável.

Sim, também eu tenho os meus. Um deles é a forma como corto minuciosamente as unhas. Um processo longo e demorado, um parto!

Mas eu sofro com essa mania, esse ritual de despedida e desprendimento de partes do meu corpo que precisam ir pra dar lugar ao novo (e mais limpo). A análise já me ajudou bastante, como podem ver.

Dia desses eu, embasbacado do início ao fim, atendi uma pessoa que em meio a conversa me descreveu seu tão particular processo ritualístico para dormir. Foi... Interessante.

Vou chamá-la de Dona Dirce para evitar que futuras zombarias lhe tirem o sono. Na verdade a Dona Dirce era um caso mais complicado, ela batizara uma parte de seu corpo, uma pinta na bunda (pra ser mais assertivo), e entendia que precisava "ninar" a Judite (a pinta batizada).

Ficou confuso?

Bom, o ritual era assim: Dona Dirce se colocava pra deitar de lado, e balançava o quadril e o resto do corpo se auto-ninando, entendendo que com isso faria a Judite (a pinta na bunda), dormir. E por conseqüência ela também embarcava no sono.

Não bastasse esse doce balanço, Dona Dirce também murmurava alguma música qualquer durante o processo.

Difícil acreditar? Acreditem, pois é a mais pura verdade.

Eu ali, que naquele momento tinha apenas comentado sobre uma matéria sobre os distúrbios do sono, ouvi boquiaberto o ritual da Dirce ninando a Judite. Só consegui encerrar a conversa depois de, não me agüentando, perguntar sobre o marido (da Dirce!):

- Mas, Dona Dirce e o seu marido? Vocês conseguem dormir juntos com essa movimentação toda na hora de dormir?

- Olha Seu Orlane, no começo ele ficava meio enjoado de tanto balanço... Mas depois se adaptou.

- Adaptou?

- Ele entrou no embalo. De duas uma, ou ele toma um Dramin antes de dormir, pra não enjoar, sabe?

- Ou?

- Ahhh... Ou ele dá uns tapas na Judite pra ela sossegar.

Não deixa de ser um ritual.

sábado, 3 de novembro de 2007

Brasil-sil-sil

Hoje estão todos felizes, alegres e contentes, batendo a mão no peito e bradando que tem muito orgulho de ser brasileiro. Afinal, a copa é nossa!

E o Brasil, pentacampeão, não poderia ficar mais tempo sem sediar uma copa. Seria um absurdo! Ainda bem que temos um presidente que foi competente o suficiente para trazer a copa para cá. E foi uma notícia tão boa que nem me lembro mais o que está acontecendo no governo.

E tem mais, agora vamos ser um país de primeiro mundo! Vamos mostrar para os gringos que Brasil é mais! Crimes, pobreza e corrupção é invenção da mídia.

Nossos estádios serão reformados, o que é fantástico. As obras serão hiperfaturadas, mas quem liga? O que importa é mostrar para os gringos. E novos estádios serão construídos, a um custo dezenas de vezes maior, mas isso não é problema. É só ver os Jogos Pan Americanos. A beleza das obras, tudo de primeiro mundo. Agora ninguém está usando, mas no Pan as câmeras mostraram para o mundo todo que aqui é primeiro mundo.

A copa vai trazer o futuro! A copa vai trazer o progresso! Os meios de transporte vão ser de primeiro mundo! Nossas ruas e avenidas não vão ficar devendo nada para a Alemanha.

É como o nosso presidente falou lá na cerimônia a na Suíça: o que vai empolgar a patuléia do mundo todo é o comportamento extraordinário do povo brasileiro.

Ah, sim, por que alguém aí duvida que o nosso comportamento não seja exemplar? É só olhar nas torcidas organizadas dos clubes brasileiros, na limpeza das nossas ruas, no trânsito, nas filas e nos transportes coletivos. Eu arrisco dizer até que o povo brasileiro é o mais comportado e educado do mundo!

E por falar na cerimônia, o ponto alto foi o discurso do maior escritor brasileiro de todos os tempos. Paulo Coelho foi mais do que gênio em sua comparação entre futebol e sexo! Só um cara como ele, um brasileiro, um orgulho para todos nós, para conseguir traduzir tão bem o que o futebol representa para nós.

E desta vez não será como a copa de 1950 não! Dessa vez não vai ter Ghiggia pra estragar a festa não! Pode escrever o que eu digo. Vai ser Brasil hexa no Brasil!!!

Corrupção é bobagem. Superfaturamento é bobagem. O que importa é que a copa é nossa e vamos deitar e rolar.

Brasil-sil-sil...

sábado, 27 de outubro de 2007

O Binha na Fórmula 1.

Em toda turma de amigos, ou na maioria esmagadora delas, alguns tipos são indispensáveis. Sempre tem um que é o bonitão, outro é o mais inteligente, o outro é o mais engraçado, o outro é o atleta da turma, o outro é o mais descolado e o outro é aquele que não deu certo.

E eu conheço o Binha, que é o que não deu certo da turma.

O apelido Binha veio de Goiabinha. Não me lembro quem o apelidou de Goiabinha, mas o Binha era realmente o estereotipo de um goiaba: grandão, gordão, brancão, desajeitado e de coração grande. Esse é o Binha.

E desde moleque o Binha é apaixonado por Fórmula 1. Daqueles chatos mesmo, que te faz ver revistas e mais revistas, fotos e mais fotos, vídeos e mais vídeos do assunto toda vez que se entra na casa dele.

(Não se preocupem por eu falar assim do Binha em público. Todos esses adjetivos já foram falados para ele pessoalmente. Mas ele não liga, o que faz muito bem. Talvez por isso que todos gostem dele)

Mas o Binha, como nunca deu muito certo na vida, nunca havia chegado nem perto de um carro de Fórmula 1. O máximo de um monoposto de competição que ele chegou perto foi de um kart, quando fomos correr certa vez. Bem, o Binha não correu porque não coube no carrinho, mas ele se deu bem como incentivador, gritando de fora para a gente acelerar.

Porém, como nem tudo na vida são trevas, neste ano o Binha conseguiu uma credencial para ir a Interlagos presenciar de perto um dos treinos da Formula 1. E não era uma credencial qualquer não, era uma que dava acesso ao paddock e tudo o mais.

Imaginem o quanto tivemos que ouvir o Binha, que nem nunca colocou ou pés em Interlagos, recitar de cor e salteado todas as curvas e retas da pista, todos os nomes das escuderias e seus pilotos, e todas as fotos que ele iria tirar quando chegasse lá.

Foi um mês inteiro de euforia do Binha, com seu grande sorriso entre as grandes bochechas vermelhas.

E lá foi o Binha, para o treino de sexta-feira com outro amigo nosso, o que lhe arrumou as credenciais.

Já na Avenida Interlagos, Binha fez questão de fotografar a caixa d’água da Sabesp, que praticamente faz parte do cenário do autódromo. Carro estacionado nas redondezas, e Binha vinha fotografando as placas de indicação do autódromo na rua. Em frente ao portão sete, Binha, emocionado, fotografou a guarita e os seguranças. No acesso, fotografou o busto de José Carlos Pace. Fotografou, trêmulo, o túnel que passa debaixo da reta e que dá acesso aos boxes.

Binha andava e fotografava, andava e fotografava. Olhava para todos os lados enquanto subia a íngreme ladeira até o portão de acesso aos boxes.

Binha olhava para tudo, menos para o chão. Não viu a guia, nem o bueiro. Torceu o pé direito. Ligamentos rompidos.

Não chegou ao portão de acesso aos boxes. Ficou na ladeira. Saiu de ambulância sem nem ouvir um ronco de motor sequer.

Em toda turma sempre há os tipos indispensáveis. O bonitão, o inteligente, o engraçado, o atleta e aquele que não deu certo. O azarado.

O Binha.

domingo, 21 de outubro de 2007

Onde vamos parar?

A coisa tá feia, gente.

Noutro dia escrevi sobre o governador do Distrito Federal que "demitiu" o Gerúndio. Mas, ao que parece, o mesmo foi readmitido pelo doutor Lair Ribeiro em seu mais novo livro de auto-ajuda: Preparando-se para Concursos Públicos e para o Exame da OAB.

E, pasmem, a coisa é feia. Péssima, para ser mais preciso.

Sinceramente, já que o Paulo Coelho é um imortal da ABL, creio que o próximo a se imortalizar deva ser o Lair Ribeiro, seguido da Zíbia Gasparetto e, de quebra, mandamos o Jucelino da Luz também.

Com o tempo, será imortalizado o Lula também com seus livros de bolso: "Como vencer as eleições no Brasil", "Você se lembra do Fome-Zero?", "O que é Ética?", com ajuda da Marilena Chauí e prefácio do Zé Dirceu e, claro, "Esqueçam tudo o que fiz e falei" com colaboração do Fernando Henrique Cardoso. Ah, não podemos esquecer também da "CPMF – Do repúdio ao Amor incondicional", com comentários na orelha de Antonio Palocci.

Enfim...

Claro que não li o livro do Lair Ribeiro e, nem passa pela minha cabeça, lê-lo. Pela crítica que li na Revista Eletrônica Consultor Jurídico (artigo do Maurício Cardoso), trata-se de mais uma verdadeira choldra a obra do ilustre (!) "autor-dôtor".

E, para piorar a situação, ainda há os mandamentos para quem quiser lograr êxito nas provas.
O livro, infelizmente, tende a ser mais um daqueles com vendagem de milhões e milhões de exemplares, pois brasileiro, além de carente e acreditar em qualquer balela, ADORA essas coisas que não têm efeito nenhum.

Mas o psicológico... ah... é uma caixinha de surpresas.

Esse pessoal que é do mesmo ramo do Lair Ribeiro deveria ser preso como verdadeiros estelionatários intelectuais.

A bem da verdade é que isso não dá certo. Por exemplo: Ele é advogado? Quando ele prestou vestibular, em qual lugar passou?

E essas coisas de palestras de motivação, de auto-ajuda, Osho, Dalai Lama, Osama Bin Laden e sei lá eu mais o quê, só servem para angariar dinheiro fácil.

Mas, estamos no Brasil.

E, já que esse negócio de auto-ajuda dá certo, vou enveredar por esse lado também. Ô se vou.
E, o meu primeiro Best-seller, sim, pois esse negócio de livretinho não é comigo, terá o seguinte título: Para estressar sorrindo – dicas de sobrevivência no Brasil pós Lula.

O lançamento mundial será no dia 1º de janeiro de 2.011. Ajudem-me para eu ajudar vocês.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Ausência de Razão... Excesso de Emoção

Acontece de nos ausentarmos.

Por alguma razão, em alguns momentos de nossas vidas parecemos não estar presentes, meio que catatônicos, esperando algo passar pra poder recomeçar a viver.

Acontece também de nos fecharmos.

Por outras tantas razões, fechamos o cerco ao nosso redor, delimitamos passagem e quase que impermeáveis pra qualquer influência do mundo exterior, nos permitimos esperar algum sinal de menos perigo.

Acontece então de perdermos muito.

A Melinda é dessas meninas comunicativas, alto-astral coisa e tal, mas só depois de cinco anos de faculdade é que percebeu que sua turma era legal.

Cinco anos de convívio diário, cinco anos não criando vínculos futuros, pra em um churrasco de sua turma de formandos, notar que podia ter curtido muito mais daquelas pessoas.

A Mônica se reconstruiu a partir de suas desilusões amorosas. Firmou-se novamente no chão de sua vida, mas não sem erguer altos muros de desconfiança e descrédito. Não sem antes se sentir segura pra não amar plenamente mais uma vez.

"Nada de fortes emoções" – dizia ela.

Bastava ser amada, mas não necessariamente amar.

Descobriu que era amada e que podia amar mais, descobriu que queria sentir. Mas descobriu tarde então, e vai torcer todos os dias pra ter chance de viver. Porque descobriu em um outro abraço.

Uma saudade infinita, uma lembrança incômoda.

Por alguma razão, acontece de acontecer fora do tempo, ou pelo menos fora do tempo que desejávamos. E maldizemos a sorte e a falta dela.

Tentamos entender que testes são esses, e especulamos sobre uma infinidade de explicações sem ao menos saber pra que serviriam. Afinal, mesmo tendo escolhas algumas coisas precisam de tempo pra virar, pra ser algo.

Mas acontece que somos mesmo bastante precipitados...

Acontece bem de vez em quando de querermos o imediato, de desejarmos com todas as forças a mudança que até então não aparecia.

Acontece de nossa vida virar de ponta-cabeça. E talvez fosse exatamente isso que queríamos sem saber.

Por alguma razão, a emoção se torna essencial.

Sentir fora do tempo, desalinhado com a outra parte, não pode privar qualquer um de que esse sentir seja pleno.

Mas tem de valer à pena... Seja no beijo roubado mas esperado, seja no chocolate derretido na língua, seja num olhar novo e cheio de intenções, seja no abraço mais longo e colado do mundo.
Por alguma razão vale à pena esperar.

Mesmo que a percepção tenha se mantido embaçada e míope por anos, meio que em sinal de protesto e desaforo, pra nos fazer perceber alguma lição difícil, pra reconsiderar certos valores... Ainda sim, a emoção em duelo com a razão, é conflito doloroso mas intenso e recompensador.

Necessário pra gente virar gente grande, quem saber perceber o pouco tempo pra escolhas fundamentais? Quem sabe um motivo pra sorrir?

E se a dúvida reside aí, entre a razão de saber valer compromissos e emoção de querer sentir, então sempre resta um mesmo sonho pra esperar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Demitindo o Gerúndio


Fiquei embasbacado. Juro. Custei a acreditar que, logo o Gerúndio, companheiríssimo dos operadores de telemarketing, foi demitido. Li umas três vezes a notícia no jornal. Não contente, fui ao google. Desconfiado ainda, fui até a fonte citada pelo jornal.
E, para meu grande espanto, lá estava a demissão do Gerúndio. Lá na página 19 do Diário Oficial do Distrito Federal do dia 1º de outubro, antes de ontem. A coisa era séria. Mais do que séria. Séríssima.
O Gerúndio agora não pode mais trabalhar em nenhum órgão do Distrito Federal. O coitado, agora, entrou na estatística dos desempregados brasileiros.
Será que ele solicitará ajuda do Governo Federal para conseguir um Bolsa Família? Será que, ainda, ele recebeu verbas rescisórias? Ele não teve que cumprir Aviso Prévio? Receberá Seguro Desemprego? Poderá sacar o FGTS? E a multa de 40%? A demissão foi com ou sem justa causa?
Sei que isso aqui está parecendo (!) um daqueles discursos do Rolando Lero, personagem da saudosa Escolinha do Professor Raimundo. Mas é que me despertou essas indagações.
Primeiro eu nem sabia que o Gerúndio era funcionário público. E, ainda pairam algumas dúvidas.
O Gerúndio era funcionário concursado? Ou será que era comissionado? Poderia ser, também, "celetista", não?
Na verdade, o tal senhor desempenhava qual função? Em qual parte da repartição pública ele trabalhava? Qual era a carga horária dele? Ele tinha algum curso superior? E, qual o motivo do governador do Distrito Federal decretar sua demissão? Imagino como foi a conversa prévia à demissão:
- Estava pensando, seu Gerúndio...
- Ahn...
- E estava analisando o seu perfil...
- Sei...
- E enquanto estava digitando...
- Diga.
- Acho que vou ter que acabar demitindo o senhor.
- É, mas por quê?
- É que essa coisa de gerúndio está enchendo
- É?
- Sim. Por isso vou estar demitindo o senhor.
A coisa deve ter sido mais ou menos essa, não sei. Mas o fato é que, queria muitíssimo saber como é que o Excelentíssimo Governador José Roberto Arruda conseguiu essa proeza.
Penso que, se a moda pega, o próximo a ser demitido pode ser o Particípio, ou a Crase, ou o Hífen, pois o trema já está em vias de ser demitido também.
A única coisa que tenho medo é que decretem, do jeito que a coisa anda, pena de morte ao Português.
E isso não está muito longe de acontecer. Por isso é que eu vou estar me previnindo antes.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Sob a perspectiva do dinheiro

Sim, porque eu sei sob qual perspectiva eu enxergo o dinheiro, mas não sei como o dinheiro me enxerga.

Mas acho que ele (o dinheiro) não vai muito com a minha cara. A efígie da república, por exemplo, grafada em todas as nossas cédulas reais, está sempre olhando para a direita, evitando os meus olhares, meio como fingindo que não me ouviu chamar.

(Para ver para qual lado a dona República estava olhando, fui obrigado a pedir uma cédula emprestada. Não tenho nada nos bolsos a não ser cartões de visitas). Mas estou prestes a adentrar em um mundo novo, onde talvez eu possa enxergar as coisas da perspectiva do tutu, da bufunfa, do caraminguá.

Hoje farei um curso de introdução ao mercado financeiro. Lindo nome, não?

Já estou cansado de ser pobre e sem perspectivas. Decidi, solene, a desvendar o tão complicado mudo das finanças. E, pelas minhas perspectivas, daqui a um ano, estarei na sombra e na água fresca, com uma bela morena a me abanar e uma bela loira a me servir bebidas.

Não faço muita idéia do que vou aprender no curso de hoje, mas vai ter coffee-break. Curso que se preze tem coffee-break com canapés e sucos. Manja, coffee-break? Coisa fina.

Minha idéia é transformar os cinqüenta reais que me sobram por mês, se eu não almoçar por três dias, em meu primeiro milhão de reais. Em, no máximo, dois anos.

É o segredo, gente, é o segredo. Já viram aquele livrinho que vende aos milhões no mundo todo? O Segredo? Pois é, é só acreditar.

Depois vou fazer um curso de Home Broker. A princípio, e traduzindo meio ao pé da letra, achei que era para trabalhar em alguma empresa de demolição de casas, mas pelo o que pesquisei, tem a ver com fazer o dinheiro crescer também. Aí ninguém me segura.

Tenho a impressão de que a efígie da república, nas notas de cem, é claro, vai me olhar de frente. Me encarar. E, se bobear vai até querer sair comigo. E eu topo, claro. Já repararam no rosto dela? Puxa essa nota de um Real amassada que você tem aí no bolso e dê uma olhada. Até que ela é bem bonitinha.

(O Segredo é o fiofó do Juca, como diria Chico Branco. Quem nasce pra pobre não adianta fazer mandinga, ler auto-ajuda ou jogar na Mega-Sena. O buraco é mais embaixo. Espero que o curso me traga mais que o coffee-break).

Fui, porque estou com fome.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Mulheres de listas

Descobri recentemente um problema que age negativamente nos meus relacionamentos: as listas.

Ou melhor, as mulheres que fazem listas.

Chamo de listas tudo aquilo que elas “colocam no papel”. Certeza você ouviu uma mulher dizer: - Espera aí, vamos colocar isso tudo no papel.

Então, são dessas aí que eu estou falando.

São mulheres que não vão a um supermercado sem a maldita lista de compras. Eu gosto de ir ao supermercado para olhar os produtos, descobrir novos sabores, experimentar novas marcas. Sou um explorador. Mas a mulher de lista não se deixa apaixonar pelo ambiente. Fica dependente da lista.

São mulheres que colocam no papel todo o itinerário da viagem de férias. E ainda fazem em tópicos: 1 – arrumar as malas; 2 – abastecer o carro; 3 – comprar o mapa rodoviário (mapa?); 4 – confirmar reserva no hotel; 5 – conferir as malas.

São irritantes, as mulheres de listas. Meu último relacionamento terminou quando ela fez uma lista de tudo o que ela não gostava em mim, de tudo o que poderíamos melhorar no relacionamento e tudo o que ela esperava para o futuro. Ela colocou tudo no papel, o que me fez pedir licença e ir explorar novos horizontes.

Mulheres de listas têm sempre canetas na bolsa, bloquinho de anotações e adoram papelarias. Mulheres de listas planejam como vão passar a próxima semana. Sempre em tópicos, claro: segunda-feira, manicure; terça-feira, cabeleireira; quarta-feira, bronzeamento; quinta-feira, dentista; sexta-feira, terapia.

Ah, sim, mulheres de listas sempre fazem terapia. Talvez as listas tenham uma influência grande no descontrole e no desequilíbrio das fêmeas. E saem da terapia já fazendo uma lista das atitudes que vão tentar mudar dali pra frente. Sabem como é, ela tem que querer mudar primeiro.

Descobri também que as mulheres de listas costumam usar roupas de baixo bastante comportadas e que perfilam os potes de cremes na pia na seqüência de uso.

E as mulheres de listas dirigem o carro com o banco sempre mais para frente do que o necessário.

E você, que também não se dá bem com mulheres de listas, nunca, mas em hipótese nenhuma, peça uma pizza sem consultá-la.

Eu não sou uma pessoa tão desorganizada assim, que precise fazer listas para tudo, mas eu gostaria de ter um escaninho na minha mesa.

Só desisti de ter escaninho depois que descobri que o escaninho se chamava escaninho. Achei o nome muito besta.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Fim de Casamento

- Selma, quero a separação.
- O que? Separação? Claudio, por que isso agora?
- Cansei. Não te amo mais. Quero me separar de você e correr atrás de menininhas.
- Mas Claudio, não te entendo.
- Selma, encare os fatos, nós não nos gostamos mais.
- Isso é mentira, Claudio. Você disse que me amava ontem a noite.
- Homens dizem isso na hora do sexo...
- Claudio, posso parecer, mas não sou tonta. Quem faz isso somos nós mulheres.
- Bem, é verdade. Não importa. Quero me separar.
- Mas por que então...
- Por que tudo tem que ter um porquê? Não tem porque, oras bolas.
- Como não Claudio? Você não podia ao menos...
- Contar isso em outro lugar? Imagina! Você faria escândalo. Não agüento mais seus escândalos. Por isso correrei atrás das menininhas.
- Menininhas não fazem escândalos?
- Fazem. Na cama...
- Machista!
- Você não fazia escândalos na cama também, Selma?
- Eu era uma menininha, Claudio!
- Tá vendo? Você concorda comigo...
- Pode ser, mas ainda não entendo porque logo hoje...
- Você vai perguntar de novo? Já disse...
- Me ofereceu café da manhã na cama, me mandou flores no escritório, me ligou não sei quantas vezes para saber se eu estava indo para casa me arrumar. Pensei que fosse uma surpresa.
- E não foi?
- Mas precisava me contar isso durante o jantar de comemoração dos nossos 25 anos de casamento?
- Jantar de comemoração?
- Sim Claudio! Hoje é dia 26 de novembro!
- Mas não tinhamos casado em 12 de dezembro?
- Claudio, como você consegue esquecer a data do nosso casamento?
- Desculpe querida, é que faço confusão com datas e...
- Não tem confusão, Claudio! Não aguento mais essas suas "confusões"!
- Mas querida, foi...
- Não foi nada! Quer saber?
- Querida! Peço perdão, me desculpe!
- Claudio, quero o divórcio!
- O que? Separação? Selma, por que isso agora?
- Cansei. Não te amo mais. Quero me separar de você e correr atrás de menininhos...