sábado, 25 de julho de 2009

Umas de ciúmes


"Justiça seja feita! E logo", gritavam mulheres no largo do Arouche.

Esse senhor, que há anos corrompe os namoros, noivados, casamentos e, pasmem, até casos extraconjugais, foi convocado a prestar esclarecimentos do porquê de meter o bedelho nos relacionamentos e pode ser condenado caso suas explicações não sejam convincentes.

Tudo começou quando Maria G., miudinha de 22 anos de idade, moradora de um bairro abastado de Osasco, cansada de se estressar com Diguinho, seu namoradinho, resolveu apelar a instâncias superiores e entrar com uma ação na Justiça contra o Ciúme.

Segundo dados da Associação Aspirante de Ciumentas Neuróticas Anônimas - ASSACINA, o Ciúmes é um dos maiores causadores de destruição de lares e crimes de homicídios na capital paulista.

Dizem que Maria G., uma ex-neurótica anônima que resolveu se identificar para entrar com a ação, gozava de direito líquido e certo, entrando com um Mandado de Segurança para ser exorcizada e o Ciúme deixar o seu corpo.

Porém, do outro lado da balança, foi impetrado um Habbeas Corpus pelo Ciúme, alegando que ele já estava incrustado naquela mente perturbada.
Alguns podem achar exagero, mas a coisa tem acontecido assim mesmo: o ciúme quando entra na vida do casal, não sai nem por decreto presidencial.

Outro dia, a mesma Maria G., fuçava no celular do Diguinho. Inúmeras vezes eu disse à ela para não cometer essa bobagem, mas vocês bem sabem como é essa gente possuída pelo Ciúme.

Ela leu. Chorou. Decorou mensagem por mensagem. Chorou. Leu mais umas três vezes cada uma das quinze mensagens. Chorou novamente. Ligou pra psicóloga. Chorou. No auge do choro, não resiste:

- Diguinho!
- Oi meu amor.
- Meu amor o escambau!
- Nossa...
- Nossa o diabo que te carregue!
- Ixe...
- Ixe o quinto dos infernos!
- Mulher, tô aqui vendo o futebol...
- Pro raio que o parta você e esse seu futebol!
- Calmaí! Aí você já extrapolou TODOS os limites. Não mexa com o meu futebol.
- Futebol? Futebol?! FUTEBOL?!
- Isso mesmo. Sua audição está perfeita.
- Pois olha aqui, seu cachorro...
- Opa, opa, opa! Aqui não tem cachorro não.
- Pois tem sim, seu canalha, cafajeste...
- É TPM, só pode ser isso.

A conversa não foi das mais produtivas e ela, antes de jogar o celular na parede e espatifa-lo, leu mensagem por mensagem em voz alta ao namorado. Ele, com aquela cara de quem acabou de ver um filme do Akira Kurosawa apenas diz:

- E aí?
- Como assim ‘e aí’? Você perdeu COMPLETAMENTE a noção de um relacionamento!
- Isso é hora de brigar?
- E tem hora pra brigar agora? TEM?!
- Sempre teve.
- Ahn?
- Há uma lista com os horários na internet, você nunca viu?
- Não...
- Pois então vou lhe passar: segundas-feiras, após às 22h quando o marido já estiver dormindo; terças-feiras, após o futebol com churrasco e cerveja, e isso só se for depois das 23h30, que é quando ele estará bêbado; quartas-feiras, após a feijoada do almoço; quintas-feiras, se tiver brigado todos os dias, dê um descanso ao marido; sextas-feiras, caso ele chegue em casa, qualquer horário; sábados, após o futebol; domingo, sem horário disponível para brigas.
- Sei...

Semana que vem continua

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Clodisvaldo

Clodisvaldo. Ao contrário do que possa parecer o nome nunca foi problema, para todos os efeitos ele era o Clodô. Um cara como outros tantos que existem por aí. Metódico. Pós adolescente carreirista pressionado pelos hormônios, dividia sua atenção entre os estudos e as garotas; quando muito, cerveja e garotas.
Foi assim que Clodô entrou na faculdade. E como dizem que e mais fácil entrar do que sair, ele não quis saber de dispersões. Estudo, dedicação, provas de empenho.
Enfim, aula de Básico de Métodos Quantitativos. Ficou vidrado, não sabia que aquilo era possível. Espaço amostral. Aquilo fazia sentido para ele. Clodô adorava aquilo mas não de um jeito “nerd”. Ele gostava era das possibilidades que dali surgiriam, aplicações reais que ele poderia exercitar.
Entre uma apostila e outra (era preciso dedicação), uma garota para conversar, vez em quando uma cerveja com os amigos. E que qualidade de amizade, viu? Clodisvaldo só conhecia mulher, e se empenhava nisso. Mulheres de todos os jeitos, trejeitos; todos os estilos. Clodô pensava assim: espaço amostral!Começou que toda mulher que ele conhecia, ele conseguia criar um vínculo interessante que lhe proporcionaria algo também interessante e esperava que a recíproca fosse verdadeira. Esperava.
Sua aula de métodos quantitativos tinha que dar resultados, a teoria era infalível, era lógica. Cada dia que passava sua agenda aumentava. Não media esforços; se uma Mariana qualquer estivesse disponível ali na lanchonete, Clodô esquecia das aulas e engatava na conversa; ia até o intervalo. Nesse ponto ele já teria o número do telefone e pelo menos um cineminha marcado.
Dia após dia, Clodô sentia-se mais confiante, sua auto-estima subia a níveis estratosféricos. E quando chegou na Lua, ele parou. Não sabia o que fazer. Espaço amostral. E agora? Todo esse tempo, uma agenda lotada e nenhuma namorada. Zero. Precisava mudar isso.
De A a Z começou a ligar, Adriana, Amanda, Bethy, Carol, Carol Pini, Daniela, Dani Martins, … Ligou, ligou e ligou. Todas as vezes que ligou foi bem atendido, até com certa ternura na voz. Todas as vezes que ligou foi trocado pelas amigas – o que é uma amiga que não deixa a outra sair com um cara legal como ele? -, namorado – namorado? se ela tinha namorado porque ficava se jogando pra cima dele? Sem falar nas inúmeras vezes que foi perguntado: “quem mais vai?” Não podia acreditar, uma teoria inteira… por àgua abaixo em algumas dezenas de ligações. Sua lógica estava ferida. Não conseguiu pensar em mais nada a não ser mudar de aula. Algo mais pragmático, talvez pintura com as mãos.

sábado, 4 de julho de 2009

Sem-educação

Dizer que o ensino no país está ruim, é pouco. Ao analisar a situação mais de perto, dá para se revoltar. Lendo jornais e revistas, caímos no inconformismo. Se você é brasileiro, sente vergonha.

As carências são múltiplas. A falta de cultura de nossos alunos é algo gritante. Há anos não temos na grade curricular Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política Brasileira e, se não bastasse, Filosofia. Tudo isso por quê? Os mais cretinos pensarão: "pra que essas matérias se não caem no vestibular?", pois é. Para que ter cultura se a alienação é inevitável, não é mesmo? Viva a mediocridade!

Hoje as escolas formam bitolados, alienados culturalmente, adolescentes virtuais, babacas que vomitam fórmulas decoradas e boçais que não pensam, "nerdeiam".

Segundo estatísticas, houve uma crescente de pouco mais de vinte por cento no aumento de reprovações no último ano. E vejam que em alguns estados há a maldita "progressão automática", isso se o negócio já não for nacional em colégios públicos.

Ao meu ver, essa foi a maior patifaria já feita com o ensino. Onde já se viu "passar de ano" um cidadão que diz: "Curitiba é a capital de Santa Catarina, né?". Alguns não sabem resolver simples problemas de aritmética e, se sentem cultos ao dizer: "A nível de...". Que nível, hein?

O Pensar tornou-se raro, quase extinto em nossa classe estudantil. Faltam incentivos no ensino fundamental e médio. Caso isso não ocorra urgentemente, veremos nossos estudantes sem direção, protestando sem fundamentos, sem bom senso e perdidos num mercado que exige, além de técnica e conhecimento, astúcia.

Eu penso que, se a tal "progressão automática" visasse que o jovem se formasse logo, com o intuito de adentrar ao mercado de trabalho mais cedo, vá lá. Mas, e emprego para todo esse pessoal? Fora que sempre exigem experiência de um, dois e, até, três anos nisso ou naquilo. Só quero saber aonde é que estão os dez milhões de empregos prometidos em campanha. Acho que foram apenas boatos. Sinceros boatos.

E os professores? Simples marionetes sem estímulos financeiro e profissional. Fora quando são funcionários públicos e se acomodam, não buscando uma reciclagem no método de ensino. Alguns ainda estão no tempo da palmatória (!). A sentença, com esse quadro, é cair na vala comum e deixar os alunos da maneira que estão: sem inteligência e sem rumo.

Poderia, aqui, culpar os militares, o Sarney, Collor, Itamar, FHC ou o Lula. Mas isso seria cômodo demais. Também poderia me valer de clichês como "isso é falta de vontade política". Nessa altura do campeonato, o mais sábio é ser autodidata. Claro que isso é utopia para quem mora nas favelas. Impensável, no mínimo.

Já que os "programas sociais" de dar comida não têm surtido muito efeito, partamos para o lado educacional, dando alimento ao cérebro, pois, da maneira que está, o nome do Programa é "Inteligência Zero".

Há anos eu pensava que quando os intelectuais chegassem ao poder, teríamos um outro país. Um país mais justo, mais digno de se viver. Porém, vi que muito saber não é o mesmo que ter sabedoria. E o povo, por falta de cultura, discernimento, saber e sabedoria, não enxerga que nada mudou, que é só uma questão de perfumaria. Ou seja, mudam-se os frascos, mas o odor é o mesmo. Senão pior. Vai saber...

Mas, refletindo melhor na situação, num país em que as pessoas mijam na rua e as melhores salas de aula são botecos, até que não estamos numa situação tão ruim.

Educação, Lula. Educação.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

You can’t, always give what you want

Apesar de adorar aprender, e observar o comportamento de todos o tempo todo, certas lições demoro para pegar. Talvez porque não queira, talvez porque demore a aceitar que estou errado. Mas seja lá o que for, quando aprendo levo pro resto da vida. Não esqueço nem faço corpo mole.
Algumas dessas lições foram: amigos não são pra sempre, amores não são pra sempre, não espere dos outros o que você faz por eles, não confie em ninguém. Ao longo dos anos fui aprendendo de maneiras dolorosas tudo isso. Mas fui incorporando ao meu jeito de viver, mesmo discordando internamente, entendo que são conceito imprescindíveis para meu bom convívio social.
A última lição que tive foi a de que nunca devo dar mais do que me foi pedido. Posso ainda ser surpreendente, encantar como quiser, mas se concentrar em dar o que as pessoas estão pedindo tem de ser o foco principal. E isso funciona em todas as esferas. Lembro bem de um amigo me falando que em sua empresa, tinha um funcionário que depois de vinte anos de casa, ainda insistia em “fazer as coisas certas”. Na hora morri de dar risada, e não entendi o que havia de errado. Ele explicou que as coisas não são assim, o funcionário não é contratado para fazer as coisas da maneira certa, e sim para fazer o que lhe foi pedido. Dessa maneira ele será útil de verdade, do contrario será apenas um chato.
No âmbito pessoal acredito que isso seja verdadeiro também. Cansei de dar ás pessoas todo meu melhor, meu respeito, carinho, companheirismo, tentando ser o mais próximo do parceiro ideal. O parceiro ideal no meu ponto de vista. O homem que passaria mais segurança, cuidado, que trataria suas mulheres como princesas num pedestal. Ou quase isso, afinal sexo não entra nessa equação.
O problema é que sempre achei que isso era o bastante, que se falhasse em outros pontos, essa base sustentaria o relacionamento. Errado. Ainda que mulheres sejam seres indecifráveis, basta parar para ouvi-las com atenção que se entende o que querem. E muitas vezes, querem algo muito mais simples do que você oferece. Nenhuma mulher quer de verdade um príncipe encantado genérico, de cavalo branco e armadura reluzente. Ás vezes o cavalo é dispensável, afinal, o que ela gosta é de andar mesmo, e a armadura pode ser enferrujada, desde que limpinha.
A real é que o homem dos sonhos de qualquer mulher é aquele que a escute de verdade, que entenda o que é importante para ela em cada momento, que supra suas necessidades, seja uma aliança no dedo ou um porre no bar da esquina. Não importa, basta ouvir e se possível ser companheiro.
Portanto, parei de pensar no que eu acho que seja melhor para elas, apenas escuto com atenção, e dou o que me foi pedido, assim como não espero que me ofereçam o que acham melhor para mim, e sim o que manifesto que quero. Usando das palavras de meu amigo Jagger, com uma pequena mudança:
You can’t, always give what you want
But if you try sometimes, you give what you’ve been asked.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Já fui casada

Imaginem estas duas situações:

Cena 1

Um happy-hour num desses barzinhos modernos, com mesas de madeira escura na calçada e pé-direito bem alto (alguém pode me explicar a origem do pé-direito?). Uma mesa repleta de jovens engravatados próxima a uma outra mesa repleta de mocinhas de scarpin, meias-calça e saias pretas.

Um dos jovens engravatados troca olhares com uma das jovens de saia preta. Ela sorri. Ele vai até ela. As amigas dela aplaudem. Os dois se apresentam, conversam, ele diz coisas engraçadas, ela ri, ele pede o número do celular, ela dá, ele diz que o sorriso dela é lindo, ela diz que gosta de homens maduros, ele diz que gosta de mulheres exatamente como ela, mas ela arremata:

- Ai, pena que você fala igualzinho ao meu ex-marido.

Ela tem 23 anos.

Cena 2

Uma sala de aula de um curso de pós-graduação. Ele está no mesmo grupo de trabalho que ela. Eles trocam informações o dia todo por e-mail, por celular, e à noite, na aula, trocam olhares.

Certo dia, os dois desceram para tomar um café e comer um croissant e ele, já desesperado de tanta paixão, se declara. Ela sorri fraternalmente e diz que ele está confundindo as coisas, que o momento não é adequado e sentencia:

- Puxa, meu casamento acabou há pouco tempo, não quero me prender de novo tão cedo.

Ela tem 25 anos.

Eu não fui o infeliz protagonista dessas histórias, mas posso garantir que elas aconteceram. E cenas como essas se repetem diariamente e cada vez mais.

Tenho percebido um certo orgulho nas meninas em afirmar, com olhar altivo e seguro que já foram casadas. Elas têm ostentado isso como se fosse um rótulo de maturidade e experiência, uma espécie de mensagem subliminar para os pretendentes que diz: Olha, para ficar comigo você tem que ser no mínimo o máximo.

Gostam tanto de ostentar o rótulo de ex-casada que nem precisa ter sido casada de fato. Morou cinco meses com um sujeito e pronto, foi casada.

O engraçado é que todas essas adeptas do orgulho "já fui casada", que compete um certo ar de maturidade à elas, são extremamente imaturas.

Menininhas brincando de casinha e desfilando futilidade travestida.

Como dizia um saudoso amigo:

- Meus sais, onde estão meus sais?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Um simples pedido a Deus

- Meu Deus do céu, há como Você tirar uma dúvida minha?

- Claro, meu filho.

- Bem, posso chamar o Senhor de Você ou uso outro pronome de tratamento, como Vossa Santidade?

- Chame como quiser. Diga o que quer.

- Olha, não é nada muito complicado.

- Então diga.

- Não se preocupe que não falarei de política, de alta de juros, queda do dólar, crise financeira mundial etc. Se ainda fosse ascensão do dólar, vá lá, mas baixa não dá.

- Filho, deixe de lero-lero, vá direto ao assunto.

- Tá, esqueço que o Seu tempo é precioso. Sabe o que é? É que eu cheguei à conclusão que o o mundo não deu certo, tá tudo errado por aqui. Decididamente, o Senhor errou, e errou feio! Estou decepcionado! Não vou entrar no mérito de guerras, Saddam, Bin Laden, Bush, dentre outros canalhas e cretinos. O buraco é bem mais embaixo. Também não quero comentar sobre a patifaria do petróleo, sobre riquezas mal usadas e só exploradas pelos senhores do poder. Não vou lhe importunar com questões sórdidas de cunho religioso, de pouca fé das pessoas, do fanatismo idiota de outros, da falta de vergonha na cara dos beatos hipócritas, da falta de moral dos pastores e padres pedófilos, dos "papa hóstia", das confissões mentirosas e das promessas não cumpridas.
Perdão, Senhor, mas não é isso que me preocupa.

Também não quero perturbar sua consciência com devaneios sobre o por quê do homem querer conquistar o espaço, pois ele desconhece a própria alma, o próprio cérebro, seus sentimentos e atitudes. Além disso, o homem não se contenta em poluir o planeta, polui o espaço, o espírito e a mente. Também não vou perguntar sobre a miséria que assola o mundo, onde a maioria das pessoas não tem o que comer, enquanto uns poucos limpam, com o perdão da palavra Senhor, a bunda com nota de cem dólares.

Não quero lhe aporrinhar com perguntas de cunho intrínseco do ser humano, onde percebo que não existem mais valores. As pessoas tornaram-se superficiais, volúveis, descartáveis. Elas se casam, namoram, ficam, mas só pensam no próprio umbigo. Estão preocupadas com estética, e não em ter atitude. Preocupam-se em tomar pílulas, e não em tomar vergonha na cara.

Também não vou reclamar da pneumonia asiática, Aids, ebola, gripe suína e outras doenças criadas pelo homem. Isso sem falar na falta de paciên...

- PARE, meu filho! Por favor!

- Mas Senhor, eu nem falei ainda o que quero saber?!

- Por favor, já tenho muito problemas. Provavelmente você virá com mais um problema, mais uma mania, mais uma teoria, mais uma qualquer coisa.

- Viu por que o mundo não dá certo? Todo mundo já tá de, perdão, saco cheio de tanto problema. As pessoas querem soluções. Eu quero uma.

- Tá, depois de ouvir o seu discurso, qual a solução que quer?
- Quais são os números da Mega-Sena?

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vida Boêmia

Eram quatro amigos. Desses das antigas. Amigos de faculdade, onde, durante anos, iam beber naquele mesmo boteco depois das aulas. Com o passar do tempo, esses encontros se tornaram cada vez mais escassos. A vida, enfim, domou a vida boêmia; esta trocada por mulheres, filhos, família, trabalho, responsabilidade. Mas da chama boêmia ainda resistiam algumas fagulhas, o que levou estes quatro amigos a se reencontrarem.
O velho boteco da faculdade há muito havia fechado suas portas. O centro da cidade não era mais aquele marcado em suas lembranças. A solução foi apelar para um daqueles guias que acompanham as revistas semanais. Optaram por um lugar recém aberto na Varjota, muito bem conceituado pelo guia.
Chegaram e se aconchegaram numa mesa. Aguardaram o garçom Surge uma figura jovem, com cabelo espetado, piercing na sobrancelha, todo vestido de preto.
- Pois não? Em que posso servi-los?
- Nós estamos esperando o garçom.
- Eu sou o garçom de vocês. Pode me chamar de Dee Jay.
- Di jei? Isso lá é nome de garçom?
- Ah, bons tempos em que os garçons se chamavam Tibúrcio ou Leôncio.
- Ninguém se chama mais Leôncio hoje em dia.
- Deixa disso pessoal, Dee Jay, traga uma cerva bem gelada pra começar.
- Só temos chopp.
- Que absurdo! Vamos pra outro lugar!
- Será que eles têm Malt 90?
- Não fabricam mais essa cerveja.
- Então 4 chopps, certo?
- Claro. Chopp normal? Ou preferem com menta ou groselha?
- Groselha no chopp? AAAAARGH!!! Prefiro uma caipirinha então.
- Chopp bom era do polonês. Aguém sabe que fim levou o polonês?
- Morreu em 88.
- Então anota aí Dee jay. Uma caipirinha e três chopps normais.
- Ok, 3 chopps. a caipirinha é de que? Limão, morango, kiwi, frutas vermelhas?
- Frutas vermelhas? Que diabos são frutas vermelhas? Tem caqui também?
- A dona Clotilde fazia um doce de caqui...
- Morreu também.
- Traga uma de limão, tradicional.
- Então são três chopps e uma caipirinha de limão. Caipirinha de cachaça, vodka ou saquê?
- Quem em sã conciência iria colocar saquê na caipirinha? Vamos embora!
- Eu falei pra irmos ao bar do Pascoal.
- O bar fechou em 92.
- Ô Dee Jay, são três chopps normais e uma caipirinha de limão com cachaça.
- Adoçante?
- AAAAAAAHHHH!
- Irrrrccc
- Tsc, tsc...
- Não! Sem adoçante. E traz uma porção de calabresa, dessas tradicionais mesmo. E sem amis perguntas.
Quando o Dee Jay chegou com os pedidos, aquela chama boêmia definitivamente se dissipou. Não há boêmia que resista ao molho de maracujá em cima da calabresa.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A salada

- Que grandes tragédias galgam nossa pífia existência. Verde, vil, virulento. Sim, é este o grande empecilho que enfrento antes da grande pilhagem. Os talheres formalmente arranjados simetricamente. A falta de odor incomoda. Devo continuar? É prudente arriscar-me assim? Grandes ânsias e angustiantes sofrimentos hão por vir.
Sim, decido seguir em frente. Vegetais. Nada além de plantas. Por que tanta temeridão? Encho meu peito de esperanças e pensamentos reconfortantes. Pego o garfo e inicio minha penitência. Regorjizo, mas continuo impávido. O gosto verde em minha boca, a textura áspera descendo pela minha garganta. Horror! Horror! Não quero ir em frente, mas preciso. Provações cruéis permitem a visão da essência de nossos medos e assim conseqüentemente tornar-nos-emos mais fortes para agüentarmos provações ainda piores. Afinal, a vida não é um infinito ciclo de sofrimento e recompensas?
Sim, continuo. Continuo a investida contra a miniatura de selva. O relógio continua em sua dança, mas em ritmo cada vez mais lento. Desespero! Perco a razão. Quero sair! Mas não posso. Sinto-me acorrentado pelos grilhões impostos por forças além de meu controle. Utilizam de subterfúgios sobre minha saúde ou sobre suas qualidades gastronômicas. Sei que me enganam e ignoro seus argumentos. Sou pego apenas pela força, pela força moral e pela doce recompensa final. Deixo que percebam minha insatisfação com tal situação. Mas de nada adianta, não estão dispostos a ceder como tantas outras vezes já o fizeram. O que se passa em suas mentes nesses momentos nunca saberei.
Talvez seja um misto de prazer e de dever cumprido. Torturar seu primogênito com tais artifícies. E eu os considerava como grandes. Minha mão se move em direção a uma segunda tentativa. Meu estômago já se embrulha sabendo o que há por acontecer. Continuam impassíveis quanto a decisão de continuar tal angústia. Apenas uma coisa irá me salvar....

- Doaninho! Quer parar de enrolar e comer logo essa salada? Já disse que só irei servir a sobremesa quando terminar seu prato!
Lembranças da minha infância. Este texto é pra você mãe. Te amo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A alface

Ele estava muito animado com o almoço, apesar de ter tentado insistentemente que fosse o jantar, considerou o almoço uma meia vitória. Já estava de olho nela há muito tempo, desde que ela aparecerá na recepção da agência. Morena de um metro e setenta, olhos verdes, longos cabelos lisos, e uma silhueta que deixava até a estagiária do quinto andar morrendo de inveja. Já nos seus 26 anos, ainda solteira e disponível no momento. Era perfeita.

Passou dois meses com conversas de escritório, começou a acidentalmente esbarrar com ela na copa, e diversas vezes marcava almoço com amigos só para que ela ligasse em sua mesa. Adorava ouvir:

- Marcos. Bom dia.
- Bom dia Carlinha, ficou com saudades e resolveu me ligar.
- Não, quer dizer, bem...seu amigo chegou.
- Estou descendo.

Colocou a roupa mais descolada que pareceria que ele não estava propositadamente descolado para aquela ocasião. Uma difícil combinação de calça, camisa, cinto e sapato que tomou-lhe quarenta minutos da manhã. Valeria a pena, pensou. Se o almoço for bem, aí vem um jantar. Preferia jantares, certamente uma ambiente mais adequado para criar um clima e também envolver bebida alcóolica na jogada. Era paciente porém, com o tempo aprenderá que tudo que vale a pena, dá um pouco de trabalho.

Ela fez questão de escolher o restaurante e iriam com o carro dele. Ele passou a manhã fantasiando sobre o restaurante que ela o levaria. Uma surpresa, ela havia dito. Não que ele gostasse muito de surpresa, mas como era um bom glutão, não tinha medo de comida alguma, fora jiló, claro.

Passou na recepção no horário combinado, onze e quarenta e cinco. Ela era muito metódica com horário. Desceram ao estacionamento e saíram. Após cinco minutos de percurso, ela apontou:

- Estacione aqui, chegamos. Você vai adorar.

Ele não viu bem o nome do restaurante mas parecia ser um lugar muito agradável, com uma varanda grande, salão todo envidraçado. Ambiente muito agradável.

- É o melhor vegetariano de São Paulo.
- Quem?
- O restaurante.
- Er...
- Calma, a comida é uma delícia, a carne de soja é ótima.
- Er...

Sentaram, ele ainda em estado de choque, afinal a mulher perfeita o levou num restaurante vegetariano, não podia ser bom sinal. É só um regime, isso mesmo, ele pensou, não deve ser nada grave.

- Você está de regime?
- Não?
- Er...
- Sabe como é, eu não como bichinhos, só plantinhas.
- Er...
- Odeio que matem bichinhos. Não suporto.
- Er...
- Salada de alface ou agrião?

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Até que a morte os separe

Na última semana compareci a um aniversário num desses bonitos barzinhos da moda onde uma porção de batata frita é mais cara que uma parcela de TV de plasma e uma garrafa de cerveja custa o mesmo que um PF com sobremesa, mas onde as pessoas bonitas vão ver e serem vistas. Acho que vou abrir um comércio voltado apenas às pessoas feias. É um nicho a ser explorado.


Mas devaneios à parte, no tal bar havia uma mesa com duas meninas simpáticas. Discretas, como convinha a elas. Sozinhas, como convinha a mim.


Lá pelas tantas resolvi bater papo com elas. Sabem como é, aquele velho instinto animal da conquista barata. Eu estava trajado de garotão, o que me deixou mais à vontade.


No caminho do toalete (acho toalete boiolíssimo. Pra mim é banheiro mesmo e olhe lá) fiz uma brincadeira qualquer com as moças e, na volta aproveitei que meu chiste havia sido bem recebido para parar e conversar com as meninas.


Mas hoje em dia eu sou um banana, portanto rumei a conversa para algo sem segundas intenções. Papo de amigo mesmo. Um banana.


As duas eram irmãs, e resolveram parar no barzinho pra conversar amenidades, mudar de ares, poder ter papo de irmãs sem grandes censuras.


Não sei direito como, a conversa chegou em casamento. E a mais novinha, Renata, timidamente me mostrou a aliança de ouro na mão direita. Noiva.


Como àquela altura já éramos amigos de infância (banana), ela resolveu exteriorizar para mim todo o medo e toda a angústia que estava sentindo em relação ao iminente casamento. A coitada da menina tinha desespero nos olhos. Me disse que era muito nova e que tinha muita coisa pra viver antes de se casar.


Pensei então em quantas vezes eu havia escutado a mesma conversa nos últimos anos. Parece que a ânsia de casamento está meio parecida com a de vestibular. A pessoa pode estar completamente despreparada, mas tem que ao menos tentar.


Fui pesquisar algumas estatísticas e descobri que, em média, um casamento no Brasil dura cerca de dez anos. Ou seja, ou essa história de “até que a morte os separe” é balela ou tem gente morrendo muito cedo.


Descobri também que em 70% dos casos, quem pede o divórcio é a mulher. Claro que não posso generalizar, mas creio que daqui a dez anos a menina Renata que conheci no bar estará pedindo o divórcio.


Acho que essa pressão, esse dogma de que um casamento deve ser para a vida toda acaba atrapalhando muito os casais. O “pra sempre” é tempo demais, por isso as pessoas acabam se enchendo pelo caminho.


Sugiro que inventem o casamento com prazo. As alianças poderiam ser de cores diferentes, uma para cada período. Por exemplo, uma aliança azul significa um casamento de dois anos. Depois de dois anos o matrimônio perde a validade, podendo ou não ser prorrogado.


Poderia ter alianças verdes para casamentos de cinco anos, violeta para casamentos de sete e vermelhas para os de dez anos. Imaginem só que beleza um indivíduo indo pedir a mão da namorada em casamento e aparece com um par de alianças vermelhas! – Pedro Aurélio, que lindo, você quer ficar comigo por dez anos?! Claro que eu aceito!


Acho que assim a coisa daria mais certo. Acabaria com a obrigação do “pra sempre” e a manutenção do carinho ficaria muito mais simples.


Tem Renatas demais por aí.

sábado, 11 de abril de 2009

Eu, os alunos, a professora

Não, gente, não vão pensar que se trata de um triângulo amoroso, por favor! Se bem que coloquei os alunos no plural, então deveria ser um polígono amoroso. Mas não é.

Também não se trata de uma sessão de pedofilia, onde eu, juntamente com a professora... deixa pra lá.

Conheci uma professora que resolveu dar aulas para os seus alunos com minhas mal traçadas crônicas. A notícia é muito boa, agrada, demonstra que as crônicas estão funcionando mais ou menos como uma porta de entrada para o mundinho da literatura. Ler Machado de Assis é chato. Ler crônicas é legal.

Depois, Machado de Assis fica legal também, garanto. O capítulo 136 do livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas", na minha opinião, é o mais engraçado e genial que eu já li. Dêem uma olhada e depois me digam o que acharam.

Mas depois, essa história da professora Cristiane lecionar com meus testículos, quero dizer, com meus textinhos, me deixou muito preocupado.

Não sou nenhum Jânio Quadros, nem um João Ubaldo Ribeiro. Cometo cada despautério que levaria o Professor Pasquale pensar que sou um girolas (vamos lá, moçada, ao dicionário!).

Fiquei pensando na balbúrdia que o corpo discente da mestra em questão deve fazer em relação às minhas vírgulas. A professora Cristiane ensina que não se deve separar o sujeito do predicado com vírgula, e eu faço isso amiúde. Sabe o que é, professora Cristiane, eu penso na respiração dos seus alunos. Creio que nem eu nem você deseja ver algum de seus alunos roxos e se estrebuchando de asfixia em plena sala de aula. Não é importante, a vírgula? Ou, não é importante a vírgula? É importante sim.

Escrevi uma crônica há um tempo (olha só, pessoal, o "há" assim, com agá, já quer dizer que estou falando do passado. Se colocar o "atrás" depois, vai ficar redundante. Tô ficando metido!), onde eu citava algumas figuras de linguagem. A professora Cristiane disse que foi ótimo para ajudar os seus pupilos e pupilas nessa matéria. O problema é que ela disse que tinha faltado eu citar a metonímia. Puxa, professora, é que não tive nenhum caso com mulher nenhuma (outra dica: em português, deve-se sempre usar a dupla negativa) que usasse metonímias. Além do mais, perceber a metonímia é muito difícil. Às vezes parece metáfora, às vezes, sinédoque. Mas acho que lá em cima eu usei uma metonímia quando disse que ler Machado de Assis é chato. Não dá pra ler o Machadão, é óbvio, o que lemos são os livros dele.

É muito bom poder desmascarar o português. E não estou dizendo que é bom tirar a fantasia de Zorro da cara do seu Manoel da padaria, hein?

Metonímia, desisti de escrever. (Hipérbato)

No mais, professora Cristiane, fique à vontade para puxar as minhas orelhas caso haja algum deslize meu. A responsabilidade é grande.

E, turminha da classe, nunca deixem de ler. Com o passar do tempo vocês vão ver que até bula de remédio é legal. Se bem que até hoje acho Manuel Bandeira um porre.

domingo, 5 de abril de 2009

Indiferença


É muito natural de nossa parte querer conquistar várias pessoas, sorrisos, sonhos... É inerente do ser humano. Quem não gosta de ser reconhecido por um trabalho feito, por uma lembrança inesperada, por um gesto de carinho e atenção, por um telefonema no meio da madrugada (mesmo que bêbado de sono) dizendo que está com saudade? Quem não gosta do agradecimento pelo serviço prestado, pelo trabalho feito com esmero? E o aplauso? Ah, não há nada melhor do que um aplauso ao final de uma apresentação.

Não é gostoso receber um abraço da amada ou do amado, sentir as mãos nas costas e um sussurro no ouvido, dizendo que estava com saudade? E, ao chegar de viagem, ver que há inúmeras cartas do namorado lhe esperando para serem lidas? Cartas, cartões, e-mails, enfim, ser lembrado.

E presenciar a conquista de um amigo quando o mesmo subiu de cargo na empresa, quando comprou o primeiro carro, passou na primeira entrevista numa empresa, conseguiu se formar na faculdade e deu o seu primeiro beijo na menina mais bonita da escola, o chamando, anos mais tarde, para ser padrinho do casório? Não há como descrever a alegria que sentimos ao presenciar as vitórias de quem gostamos e, muitas vezes, nos espelhamos. Não há ciência que consiga explicar o furor que o ser humano, quando sincero, sente ao receber tal notícia.

Tudo isso é ótimo, até o momento em que nos sentimos desprezados pela indiferença. Para nós, mesmo que tentemos, mesmo que doa a indiferença, ela tem que ser indiferente aos nossos olhos. Mesmo que a dor esteja latente em nosso coração e que mine aos poucos, nos fazendo calar por um instante.

A indiferença é a pior de todas as renúncias, pois nos tapa os ouvidos, nossos olhos e nossa consciência para enxergar coisas belas da vida, como o brilho no olhar, o desabrochar de uma flor. Coisas que parecem tão insignificantes quando nos sentimos indiferentes e não percebemos.

Mas, se você observar, mesmo com a indiferença de alguns ignorantes, o sol não deixou de se pôr atrás da mesma montanha do mesmo jeito de todos os dias. Aquela flor, mesmo depois de morta, deixou seu perfume, seu brilho numa semente que voou e nasceu, povoando algum lugar com uma nova fragrância. Esta semente, não foi apenas retirada pelo vento, ela simplesmente voltou ao seu coração, não dos olhos que a recusavam, mas, sim, para os olhos curiosos de desejo, de descobrir o segredo de cada pétala daquela belíssima flor. Ela poderia não ser, agora, a única flor do mundo, mas, também, aquele não era o único olhar do mundo.

Antes de tentar recorrer aos risos perdidos e à indiferença, devemos pensar em nós mesmos, e descobrir que a tristeza e a felicidade são apenas duas opções, que os motivos que nos levam à eles, são sempre compatíveis. Porém sabemos que a vida é curta, por isso, não se preocupe com a indiferença, pois ela nos faz menor que uma simples semente e acaba por te reduzir a pó antes do tempo.

Sorrir é uma virtude que poucos conhecem, e, se você conhece, mostre isso. Mostre que a simplicidade de um sorriso vence a rigidez da indiferença.

sábado, 14 de março de 2009

A culpa toda é do Fusca

Adoro Fusca. Principalmente aqueles antigos e bem conservados. Mas este carrinho que Hitler solicitou para ser fabricado é o culpado por muita coisa que passamos hoje. Você nem imagina quanto.

Sabe por que sofremos com o trânsito hoje em dia. Por causa do Fusca. Toda uma geração de pessoas cresceu dirigindo e curtindo o fusquinha, e por causa disso, hoje não conseguem acelerar seus carrões no ritmo que o transito precisa. Sempre ficam para trás ou andam só a 70km/h que era velocidade máxima do pobre fusqueta 1300cc.

Sabe por que temos que amargar entrar em carros hoje em dia que não tem absolutamente nenhum acessório dentro? Nem um acendedor de cigarros? Por que um dia, alguém criou o Fusca e o único acessório que este carro tinha era o radio. Sem toca fitas, claro.

Hoje em dia, em qualquer lugar que se quer comprar um carro, vem logo o vendedor oferecendo o tal do Air Bag. Isso só existe por que o coitado do fusca tinha o vidro dianteiro na vertical e ficava muito perto do rosto do motorista. Depois de tantos perderem suas vidas no vidro, alguém inventou o Air Bag.

Sabe aquela alça que tem em cima dos assentos dos passageiros? Aquela mesmo que sua vô segura quando anda com você? Aquela mesma que você vive batendo a cabeça nela e falando “P... que P...”. Nasceu com o Fusca. Pior, a do Fusca era no painel. Era para prevenir que o passageiro batesse a cabeça no vidro.

Você já se deparou com aquelas pessoas que param o carro no semáforo e puxam o freio de mão e depois atrasam para sair na hora que o semáforo abre? Pois é. Culpa do moribundo Fusca. Como o freio do carro falhava, os motoristas puxavam o freio de mão e continuam fazendo isso hoje em dia, mesmo não precisando.

Lembra que o Uno antigamente tinha o estepe colocado sobre o motor dianteiro? O Fusca começou com isso, mas não ficava em cima do motor e sim abaixo do capô dianteiro. Que coisa mais esquisita.

De tanto que o carro inventou que resolveram reinventar com ele e a Volkswagen tem uma nova versão do Fusca. Tem os mesmo problemas que o antigo, só que hoje o carro é um pouco mais bonitinho.

Se não fosse o Fusca do Itamar, as empresas de carro não teriam começado essa corrida absurda para ver quem faz o carro mais barato, e principalmente, mais desequipado que existe no mundo.

Mas apesar de todos os males que esse carrinho causou a humanidade, no final de tudo, foi em um Fusca que puxei meu primeiro cavalo de pau. Na verdade, meu pai fez isso e eu curti muito, girando dentro do meu mundo formado pelo líquido amniótico da minha mãe!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Tênis x Frescobol


Foi minha médica da cabeça que citou e eu fui atrás. Esse texto do escritor Rubem Alves, fala dos dois tipo de relacionamento. O relacionamento tênis e o relacionamento frescobol. Não vou tentar explicar, já que obviamente ele é muito mais capacitado. Leiam, é muito bom.


Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.


Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.


’Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’


O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.


O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...


A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...


Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.


’Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.


Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Eu te amo! (e nem vou cobrar nada por isso)

O sexo vende. E muito. Milhões de sites de internet e a Rede Globo sabem muito bem disso. Mas e o amor? Não seria um produto negligenciado?

Depende do tipo de amor. Temos claramente dois tipos de amor. O amor clássico é aquele legítimo, que faz rir, chorar, que abre a porta do carro e vai no estádio de futebol mesmo sem gostar. O outro é o verbalizado, aquele que é apenas falado, sem significado necessário, que decepciona, dá esperança, esquece de ligar e finge que está dormindo.

O Amor, assim verbalizado está em alta, e o amor legítimo está em falta. Ainda que Adam Smith tenha nos mostrado que quanto menor a oferta maior a procura, o amor legítimo está tão ausente que já se tornou um tipo de lenda urbana.

- Sabe o Rui?
- Que Rui?
- O Rui, primo do Claudinho.
- Claudinho….
- Aquele amigo da Mari, gordinho que usa dockside.
- Ah sei.
- Os pais deles são casados há 50 anos e ainda se amam.
- Você os conhece?
- Não, mas a Fê, irmã da Mari disse que já os viu uma vez.

Como quem compra guia de cidades as quais nem sabe se vai visitar , as pessoas se conformaram com a verbalização do Amor, com a oferta de uma promessa de algo que não acontece, mas não deixa de ser desejado Amor como diria o povo, vende igual pão quente.

O mercado é amplo. Historicamente, as mulheres são compradoras em potencial e os homens vendedores. É verdade que o mercado mostra uma tendência de inversão dos públicos. A troca é constantemente praticada também. Ainda que nem sempre os negociantes cheguem a um acordo:

- Pati, eu esperei muito pra dizer mas acho que é a hora.
- O que Michel?
- Eu te amo!
- …
- …
- Eu amo passar tempo com você.

O mercado é muito promissor. As aplicações são infindáveis. O produto tem atributos indiscutíveis. Não é perecível.

- Você me ama môr?
- Claro bebê.
- Quanto você me ama?
- Te amo pra sempre bebezinha, agora faz minha massagem.

Tem grande potencial no atacado.

- Mas você disse que me amava.
- E amo.
- E porque tava beijando aquele cara.
- Porque eu amo o Júlio. Mas também te amo Té. Você não acredita que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?
- Não!
- E o que você me diz daquele nosso menage, então?
- Errr….é…!?

O mercado paralelo também se aquece. Genéricos e similares são bem cotados no mercado. Diversifica-se para se atingir todo poder de compra. Por uma pechincha se consegue um “Gosto de você”, num investimento razoável pode-se obter um “Te adoro muitão” e apostando um pouco mais alto se fatura possivelmente um “Te adoro muito-muito-muito-muito-infinito”.

- Mas já?
- Acha cedo?
- Aliança depois de dois dias cara. Acho rápido demais.
- Eu também achava. Mas depois do que ela me falou.
- O que?
- “Te adoro um montãozão”. Isso é bastante né?

Ainda existem poucos puristas que acreditam no legítimo amor, que invariavelmente se tornarão um grupo altamente restrito (algo parecido com os fãs de Star Trek). Não vendem seu Amor verbalizado nem pelas causas mais nobres.

- E aí, já transou com ele?
- Não. Tá doida? Ele nem disse que me ama ainda!

Observando tudo isso podemos projetar o Amor como a mercadoria do futuro. Quer premiar? Dê Amor. Não sabe onde investir? Ações de Amor. Chega sua fatura do cartão de crédito. Você olha seu programa de milhagem: “Parabéns, até esta data você acumulou 50.000 milhas, entre em contato com nosso SAC e efetue a troca por uma TV de 29 polegadas, um sistema de Home Theather ou uma declaração de Amor de um de nossos atendentes”. Vão sobrar TVs e Homes.

O Amor estará finalmente na casa de todos que se dispuserem a pagar o preço. Logo, o ser humano não vai ter mais o que buscar, e sem propósito tende a parar, estagnar. O Amor estará banalizado.

- Eu te amo.
- Grande merda.

A esperança vai então residir naquele pequeno grupo restante, a ordem do legítimo amor, ou algo do tipo, com aqueles poemas estranhos e mania de pedir licença podem, quem sabe, devolver nossa esperança.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Heim?!

CENA 32 TAKE 01. EXTERNA. DANCETERIA BADALADA - NOITE

Um jovem comum vê uma morena muito bonita dançando e se enfeitiça por seu jeito, seu corpo, seu rosto, suas pernas … ahhh!

Ele sabe que todo o seu futuro mudaria se conquistasse aquela mulher. Não importa o que ele dissesse, ela teria que ser dele. O destino havia os apresentado, e ele não deixaria essa oportunidade passar.

Sem maiores rodeios ele se aproxima dela e com um sorriso de canto de boca diz:

-Olá … vo-você vê-vêm sempre aqui ?!-Heim ?!

CORTA!

CENA 32 TAKE 02. EXTERNA. DANCETERIA BADALADA - NOITE
Um jovem comum vê …

Sem maiores rodeios ele se aproxima dela e com um sorriso de canto de boca diz:

-Olá … sabia que eu adoro essa música ?
-Eu também … quer dançar comigo ?
-Err … eu não sei dançar.
-Heim ?!

CORTA!

CENA 32 TAKE 03.
-Olá … sabia que eu adoro essa música ?
-Eu também … quer dançar comigo ?
-Olha, não sou dos melhores, mas adoraria dançar com você !
-Tudo bem, gostei de você.
-Mesmo?! Você não acha que essa verruga peluda atrás na minha panturrilha direita é muito feia ?
-Heim?!

CORTA!

CENA 32 TAKE 04.
-Olá … sabia que eu adoro essa música ?
-Eu também … quer dançar comigo ?
-Olha, não sou dos melhores, mas adoraria dançar com você !
-Tudo bem, gostei de você.
-Mesmo?! Sabia que eu vim aqui falar com você pelo mesmo motivo!
-Hehehe … Adoro homens com senso de humor!
-Pois é, o Almeida diz que eu sou uma avestruz, mas eu adoro mesmo suflê de batata com chouriço !
-Heim?!

CORTA!

CENA 32 TAKE 05.
-Olá … sabia que eu adoro essa música ?
-Eu também … quer dançar comigo ?
-Olha, não sou dos melhores, mas adoraria dançar com você !
-Tudo bem, gostei de você.
-Mesmo?! Sabia que eu vim aqui falar com você pelo mesmo motivo!
-Hehehe … Adoro homens com senso de humor!
-Chega mais perto então …
-Hmmm … Você até que não é dos mais difíceis. Você até que dança direitinho.
-Isso é porque você ainda não me experimentou na cama, beibe…
-Heim?!

CORTA!

CENA 32 TAKE 06.
-Olá … sabia que eu adoro essa música ?
-Eu também … quer dançar comigo ?
-Olha, não sou dos melhores, mas adoraria dançar com você !
-Tudo bem, gostei de você.
-Mesmo?! Sabia que eu vim aqui falar com você pelo mesmo motivo!
-Hehehe … Adoro homens com senso de humor!
-Chega mais perto então …
-Hmmm … você até que não é dos mais difíceis. Você até que dança direitinho.
-Você é que é ótima.
-Isso você só vai saber se me experimentar …
-Opa - garçom!- traz garfo, faca e guardanapo que hoje vou comer até vomitar !
- Heim ?!

CORTA!

CENA 32 TAKE 07.
-Olá … sabia que eu adoro essa música ?
-Eu também … quer dançar comigo ?
-Olha, não sou dos melhores, mas adoraria dançar com você !
-Tudo bem, gostei de você.
-Mesmo?! Sabia que eu vim aqui falar com você pelo mesmo motivo!
-Hehehe … Adoro homens com senso de humor!
-Chega mais perto então …
-Hmmm … você até que não é dos mais difíceis. Você até que dança direitinho.
-Você é que é ótima.
-Isso você só vai saber se me experimentar …
-Hmm …
E sem falar nada ele beija (finalmente !) a mulher que mudaria sua vida.
-Nossa … que beijo bom, gato!
-Foi você quem me inspirou …
-Ai … seu bobo!
-Sabe de uma coisa?
-Não, o quê ?
-Eu ainda não sei seu nome, linda.
-É …. Jaílton!
-Heim ?!

CORTA!!!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Desregrado


Terei que desaprender. Ou aprender ao contrário. Algo como o gato do João Grilo do Auto da Compadecida, que vendeu um gato que "descome" dinheiro.

Depois do banimento do Gerúndio do Distrito Federal, eis que o Governo Brasileiro ratificou a reforma ortográfica, para azar de muitos.

Confesso que estou meio confuso com a coisa toda. O Trema fará companhia ao Gerúndio sabe-se lá onde. Provavelmente na Alemanha.

Já que tranqüilo não tem mais trema, fico "trankilo". O Português foi colocado no likificador. E os meus ideais perderam-se nas ideias, e não mais idéias, dos que quiseram a tal reforma. Um ato nada heroico contra as paroxítonas que terminam em ditongos.

Inclusive, logo nem mais saberão o que é ditongo, tritongo e hiato.

Caso eu estivesse na reunião que decidiu tais reformas, diria:

- Pára tudo!

Ao que responderiam:

- Não! O correto é para tudo.

Para tudo o quê? A frase, sem o acento, fica sem sentido para quem lê, pois para quem fala está tudo bem, tudo normal.

Pôxa, convenhamos, há uma crassa diferença entre um e outro para. O coitado do pára-brisa não vai mais parar nada. Ele tem que parar e não ser algo para brisa. A brisa precisa ser parada e não ganhar algo. Daqui a pouco a brisa vai querer presente de Natal.

E os acentos? Para onde é que vão os acentos exilados? Será que eles ficarão no limbo eterno junto com o gerúndio que foi deportado pelo governador do Distrito Federal?

Gente, os voos já são com atrasos, agora serão sem acentos também?

Como tirar a acentuação da feiura? Há feiuras que são acentuadíssimas.

O que era pólo, agora pode ser frango em espanhol: pollo.

Agora, pior de tudo é como algumas frases podem ficar. Por exemplo, até o ano passado você, ao ser chamado por alguém e não podendo atender no momento, diria: "péraí". Agora, com as regras, os acentos caem, e, a mesma palavra, fica: "perai". Lendo, dando enfoque na letra ‘a’, não quer dizer nada. Porém, uma segunda leitura, passa a impressão de se oferecer a fruta pera, que teve o seu acento podado também.

Eu nunca mais serei o mesmo sem os acentos, sem os hífens e, principalmente, sem os tremas.

Agora, tanta coisa pra reformar como o Código Penal, a estrutura política do país, a casa da Dinda, a casa da mãe Joana, vão reformar justamente a língua portuguesa?

Agora, no RAIO dos ‘porques’ ninguém mexe. Por que será?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Sorriso de Seu Corpo


Para quem não a conhecia, como eu, ela era séria. Imponente, semblante austero, toda de preto. Nunca sorria. Cuidava de tudo, tinha as coisas sob controle, chamava a responsabilidade. Não foi surpresa quando ela começou a dar as cartas de como as coisas seriam dali pra frente.


A noite começou calma, como ela, controlada, sem olhar para ninguém, não por falta de segurança infantil ou “charminho”. E sim porque ela era assim, como a noite, não sorria feito boba alegre, feito o dia. Não recebe a todos de braços abertos, nem te dá calor. Apenas te aceita, você que aprenda o que fazer com ela.


Ao mesmo tempo, os níveis se elevaram, etílico e volume, e todos os corpos começaram a exteriorizar sua graça (ou falta dela). Ela e a noite finalmente começaram a se mostrar, a mostrar o que tem de melhor. Nunca deixando de lado sua face de certo modo opressora, intimidadora. Ninguém se aventura pela noite e sabe o que vai encontrar. É ela quem decide. Se você vai enxergar onde tinha que virar ou parar.


Sempre gostei da noite, o dia é útil, a noite é divertida, interessante. Assim a admiro, observo, perco os olhos tentando descobrir onde ela começa e termina. Mas noite não liga pra ninguém, se move como e quando quer, amanhece quando lhe apetece ou quando o autoritário dia resolve aparecer.


Ela sorri. Não com os lábios, isso seria muito óbvio. Mas de alguma maneira ela sorri, consigo enxergar finalmente, ela não é séria, já faz tempo que ela está sorrindo, mas eu não percebia. Não está estampado no rosto como acontece com o sol num desenho infantil. Seu sorriso é complexo, aparece em fragmentos, se constrói em uma coreografia coordenada. Ela sorri com o corpo.


O semblante não parece mais austero quando se enxerga o todo, sua boca pode estar selada mas isso não a impede de falar e sorrir. Consigo ver finalmente que ela está feliz, que se diverte com tudo que acontece e principalmente que não está impassível, só dá bola para o que quer. Sim, ela sorri, pra quem quer.


Não bastasse o mistério, agora seu sorriso me encantava, me chamava, me fazia querer sorrir junto, na mesmo velocidade, com os mesmos descompassos, no mesmo lugar. O ritmo era completamente diferente, os olhos agora só enxergavam ela e o espaço que a contornava. O espaço que eu invejava. Coloquei um pé, e logo depois o outro, não fui expulso, o sorriso já não cabia no corpo, se alastrava pelas paredes e garrafas do bar.


Logo a mão, o peito, o cheiro e em alguns minutos os lábios selados começaram a cantar, sorrindo, junto com seu corpo todo. Louco de curiosidade, louco de whisky, louco, eu me aproximava cada vez mais. Até o ponto que me encaixei em seu sorriso, fazendo de conta que agora fazia parte de tudo aquilo, da austeridade, do mistério, do sorriso que se move.


A noite gostou de mim. Aquela noite, ela gostou de mim.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Como dizer não?

Nesse joguinho que os homens jogam com as mulheres todos os dias, as regras mudam todos os dias. Movimentos que um dia foram impensáveis se tornam procedimento padrão, tacadas de gênio se transformam em aquecimento. Não é a toa que o jogo é tão complicado, decorar um imenso manual de instruções em transformação permanente não é fácil.
Uma das regras relativamente novas, está relacionada ao primeiro movimento. Antes, como no xadrez, onde as peças brancas sempre começam, era dos homens a responsabilidade de iniciar o jogo oficialmente, por mais que de certa maneira os “adversários” já estivessem se estudando através de posições, olhares e leves contatos. O homem, da maneira que lhe fosse mais conveniente, fazia o primeiro contato, e daí pra frente começava a partida.
Numa analogia besta, em que um sim significava vitória e o não derrota, o homem era especializado apenas na técnica de ouvir a resposta, cabia a mulher falar. Positiva ou negativa, homens ao redor do mundo aprenderam (melhor ou pior) a decifrar o veredicto de suas pretendidas, enquanto as meninas se viravam para arranjar desculpas quando queriam encerrar a partida.
Pois bem, voltando as regras novas, hoje a história de que o homem sempre dá o primeiro movimento é passado. Ambos os lados estão livres para iniciar o jogo ou esperar pelo movimento do adversário. Vai da preferência, humor ou clima de cada um. Meninas mais atiradas não precisam mais esperar garotos tímidos, podem fazer “a parte deles” e viabilizar algo que nem depois de cem anos aconteceria. Os homens por outro lado podem brincar de ser desejados, fazer charme e provocar a mulher até que ela faça alguma coisa.
Não sou contra mudanças que deixem o jogo mais interessante, porém até nos adaptarmos às novas regras, as partidas podem ficar um tanto turbulentas. Com a mudança, homens estão aprendendo a dizer e mulheres a escutar, e por muitas vezes percebemos que estamos longe de dominar essas novas técnicas. Foi duro o suficiente aprender a lidar com os “nãos”, mas conseguimos. Agora temos que aprender a dizer, e se tem uma coisa para que não fomos programados, foi para recusar mulher.
O caso aqui não tem nada a ver com querermos pegar todas, e sim por termos vivido por anos batalhando por “sims” e de repente temos a oportunidade de decidirmos nós mesmos. Como se controlássemos a resposta das mulheres. O reflexo é o “sim”. Se vencemos nossos reflexos (ou seja, estamos sóbrios o suficiente), ficamos sem jeito em como dizer o “não”. Não queremos ser rudes, grossos, metidos, apenas queremos mostrar que não estamos interessados, mas nem sempre a mensagem é bem recebida. Afinal, as mulheres também ainda estão aprendendo a ouvir. Assim como nosso reflexo é dizer sim, o delas é de acreditar que ainda mandam na situação.
Como isso se resolverá eu não sei, mas entendo muito mais as mulheres hoje em dia, e prometo fazer tudo que for possível para salvá-las de homens inconvenientes, que se recusam a aceitar que o jogo acabou, impedindo qualquer outra partida mais interessante.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

After-Taste


É muito difícil falar o que eu mais gosto em uma mulher. Afinal a obra completa é perfeita. Mas sempre tem algumas coisas que te encantam mais. A delicadeza, os trejeitos, a pele perfeita. Tudo aquilo que nós homens não temos nunca. Mas uma das coisas que mais gosto de uma mulher é o seu after-taste.


Mulheres comuns não tem after-taste, as ruins deixam um gosto amargo, como aquele que se sente apos uma balada cheia de cigarro e whisky. Mas as boas não, elas deixam um rastro de marcas, sabores, cheiros, que prolongam a experiência. Nossos sentidos continuam estimulados por horas, dias, anos.


Por mais que nos deparemos com inúmeras mulheres bonitas na vida, não são todas que ficam gravadas na sua memória. Estas, deixam marcas, patenteiam posições, sorrisos, rostos ao dormir, de modo que não conseguiremos desligar essas imagens de suas donas. Se conseguirmos.


Se tem mulheres que abrem a boca só para estragar seus rostos e corpos bonitos, outras fazem exatamente o contrário. Complementam com palavras, ruídos e gemidos o que nossos olhos contemplam. Isso não está diretamente relacionado com inteligência, por mais que seja igualmente afrodisíaco. Tem a ver com sintonia, com dizer as coisas certas, com o jeito de pronunciar algo sem graça e ainda assim provocar eco em nossas cabeças.


O contato que temos com a mulher é das coisas mais esperadas. É a última coisa a que temos acesso total. Desde a primeira vez que esbarramos um braço “acidentalmente” até o momento em que ela puxa os cabelos da parte de trás de sua cabeça passionalmente. Aqui o que mais me encanta é a iniciativa, a intenção em se manter perto, em mostrar que está aproveitando, ou que não quer que você pare de fazer seja lá o que estiver fazendo.


Indiscutivelmente, cada mulher tem um sabor. A mistura de seus cremes, a bala que gosta, a bebida que toma, sua pele, sua saliva. Esse coquetel fantástico constrói a coisa mais fantástica que qualquer homem pode provar na vida. Haja paladar para apreciar todas as notas e sutilezas. O gosto permanece grudado no céu da boca, fazendo com que seus dias sejam muito mais saborosos.


Por último, e na minha opinião, o mais importante. O cheiro. A fragrância de uma mulher está muito ligada ao seu sabor. Porém, diferente do sentido que seduz a língua, tem a capacidade de permanecer para sempre em nós com facilidade. O cheiro de uma mulher impregna nosso pescoço, nossa roupa de cama, nosso carro. Nos faz acordar mais feliz quando a primeira coisa que sentimos ao acordar, antes mesmo de ver a luz do sol, é sentir seu cheiro e lembrar do que passou. Como after-taste, nada mais forte que o cheiro. Vira e mexe sinto cheiros que me levam para uma década atrás, e me faz sentir exatamente como estava, como se fosse um sonho, que consegue fazer você reviver algo, mesmo sendo uma pessoa completamente diferente.